Gêneros Fluidos

estado de minas

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Em matéria de capa do Estado de Minas, Tadeu Sarmento fala sobre os vencedores da última edição do Prêmio Pernambuco. Abaixo destaco suas impressões acerca de em Tudo Cabe na Paisagem:

“Quanto aos contos de Nem Tudo Cabe na Paisagem, de Amâncio Siqueira, estes têm uma linha comum no registro da realidade e na observação de um cotidiano tão simples quanto verossímil, por vezes aliando uma eficiência em contar histórias à mais completa imersão no mundo factual. É curioso notar a maneira como o escritor, pouco a pouco, indica um desdobramento trágico ou cômico bem ali, em um espaço em que a vida corriqueira dá a impressão de se desenvolver com naturalidade. São contos curtos e bem executados e, em alguns deles (como “Traição” ou “Pecado”), Siqueira demonstra perícia em criar diálogos que fluem tão naturais que a impressão que dá é que o leitor escuta essa conversa na mesa ao lado (o ápice dessa técnica é o conto “Audiência”). A escrita de Siqueira é fluida e elegante, e suas histórias se desenrolam sem grandes percalços.”

Enquanto Sérgio Tavares notou uma “voltagem supranatural (misticismo, buscas etéreas, fantasmagoria)” que “movimentam as narrativas iniciais, e se perde totalmente no decorrer do livro”, e Carrero descreveu “Absinto” como uma ironia ao ensaísmo, Sarmento vê um livro realista. Qual visão prevalecerá? Só o tempo para dizer. Posso apenas confessar minha alegria ao ver que os textos suscitam várias interpretações, muitas ainda longe de ser reveladas.

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Formas Breves de Aspecto Irresoluto

Seguindo com a reunião da crítica de minha obra neste blogue, publico abaixo a resenha que Sérgio Tavares publicou em A Nova Crítica. Interessante notar as diferenças profundas de interpretações entre ele, Carrero e Tadeu Sarmento, cuja opinião publicarei a seguir. Não cabe a mim validar ou invalidar qualquer leitura. Cabe apenas um esclarecimento em relação aos defeitos apontados por Tavares: A falta de organicidade ou identidade não é consequência de ser uma estreia: trata-se de uma atitude deliberada. Antes de começar qualquer texto, a primeira coisa que tento definir é o narrador que fará a narrativa funcionar. “Fica parecendo, portanto, uma coletânea composta por textos de diferentes autores”, como ele bem destacou. Tais defeitos ficarão ainda mais evidentes no próximo livro de contos que estou escrevendo, assim como na comparação das minhas narrativas mais longas.

“Pensei em Piglia durante a leitura de Nem tudo cabe na paisagem, coletânea de breves narrativas de Amâncio Siqueira que ganhou o 5º Prêmio Pernambuco de Literatura.

Quando o escritor argentino afirma que a versão moderna do conto abandona o final surpreendente e a estrutura fechada, de modo a trabalhar a tensão entre as duas histórias sem nunca, de fato, resolvê-la. A história secreta é contada de um modo cada vez mais alusivo, complementa.

Antes de avançarmos, é preciso contextualizar o leitor de que a proposição está no célebre ensaio “Teses sobre o conto”, contida no volume Formas breves. Ali Piglia defende que, entre outras coisas, um conto sempre conta duas histórias: um relato visível que esconde um relato secreto narrado de maneira elíptica e fragmentária.

De volta ao livro de Siqueira, as 11 narrativas expressam esse aspecto irresoluto na engenharia de suas tramas. O autor explora um invariável esgarçamento, uma transcendência que se ocupa tanto dos limites da forma quanto do desenvolvimento dos temas eleitos.

No centro dos textos, estão personagens na iminência de transpor ou que transpuseram um conflito de natureza física ou espiritual, afetiva ou simbólica.

São acessos imediatos a circuitos dramáticos, nos quais se faz notável a tese de Pliglia, possibilitando que, embora com o fim aberto, as duas histórias que movimentam o enredo (o relato visível e o relato secreto) delineiam um escopo claro, diferente dos textos que se evidenciam fragmentos de romances mal-acabados.

Um bom exemplo é o conto “Bastardo”. No primeiro plano, temos a história 1 (o tempo de descoberta de um jovem índio), que constrói, no fundo da tessitura, a história 2 (a jornada de vingança do jovem índio contra o homem branco que matou o seu pai).

Esse caráter duplo, aparece nos ótimos “Absinto”, sobre um indivíduo que edifica uma obra embaralhando alucinações e certas delírios bíblicos, e, com mais tenacidade, “Carona”, uma série de diálogos na qual dois amigos tentam entender se estão vivos ou mortos.

É pontual notar como essa voltagem supranatural (misticismo, buscas etéreas, fantasmagoria) movimentam as narrativas iniciais, e se perde totalmente no decorrer do livro. O autor opera seus enredos, um a um, com tratamentos dos mais variados; pitadas de humor, flertes com o regionalismo, efeitos imagéticos, prosaísmo das relações pessoais.

Aí está o traço desagregador do livro. A variação recorrente do estilo, dos assuntos explorados e dos elementos de estruturação não permite uma organicidade (o que não é mau, caso exista um conceito) e (mais problemático) uma identidade. Fica parecendo, portanto, uma coletânea composta por textos de diferentes autores.

Possivelmente, são histórias escritas em fases distintas da vida do autor, no processo de lapidação da escrita. É claro que se deve levar em conta de que se trata de uma estreia. Todavia sem a tal tensão, sinalizada por Piglia, sobressaem-se os contos medianos.”

A revelação de um escritor múltiplo

Raimundo Carrero, Escritor e jornalista, publicou no Diário de Pernambuco matéria sobre o meu novo livro, que reproduzo aqui. Fico feliz em ser comparado a Milan Kundera, um dos fantasmas que mais me assombram.

Publicação: 14/05/2018 09:00
Nem tudo cabe na paisagem, de Amâncio Siqueira, é um livro de contos com pretensão a romance – ou história longa – com alguma coisa de ensaio. Assim, lemos logo no início:

“Escrever para imortalizar-se é um fenômeno recente. A princípio, não havia uma autoria individual, Vários autores davam sua contribuição par imortalizar algo que transcendia a si mesmos. Assim nasceram livros sagrados, desde a Ilíada até As Mil e uma Noites. Imbuído desse mesmo sentimento, procuro com este estudo imortalizar a busca do meu amigo Socó Pombo pelo seu livro sagrado.”

Somente no segundo parágrafo, o narrador faz aparecer o seu protagonista com hábitos e costumes estranhos, o suficiente, porém, para atrair a atenção do leitor, ainda torpedeado pelo ensaísmo do primeiro. Do ponto de vista ficcional, a narrativa começa aí, considerando a narrativa tradicional. De certa forma, e em certo sentido, lembra a técnica de Milan Kundera, para citar um autor recente, e de Thomas Mann, o gênio da literatura alemã no século 20.

É claro que não estou comparando, mas apenas fazendo alusão a dois escritores que usam a técnica do ensaio para seduzir o leitor. Amâncio Siqueira é vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura, que já se constitui num momento maior das letras brasileiras. De forma que vale, por si só, uma consagração.

Amâncio venceu o prêmio ao lado de Ezter Liu com seu Das Tripas Coração, um livro de contos cheio de recursos, entre eles a ausência de vírgulas, o que marca sua obra, definitivamente. Aliás, este prêmio tem revelado ótimos autores, entre eles Rômulo Melo. Os dois recentes, que examino aqui, honram qualquer grande literatura. Sem dúvida.

No livro, Amâncio ironiza o ensaísmo pomposo e grandiloquente, metido a erudito, desses sabedores de tudo. Muito próximo daquele outro livro famoso do russo Godjef chamado apenas “De tudo e de todas as coisas”. Não duvidem que Amâncio se aproxima muito do filósofo oriental.

Apesar de tudo, é claro que Socó Pombo é um bom personagem que representa esta irônica área do saber oriental. No fim, Amâncio procura jogar todos nós neste saco de gatos, embora agora ele mesmo seja um neste mesmo contexto.
http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/opiniao/46,97,43,74/2018/05/14/interna_opiniao,187663/a-revelacao-de-um-escritor-multiplo.shtml

Reprodução de matéria da Revista algomais

5º Prêmio Pernambuco de Literatura lança livros vencedores

Publicado em 24/04/2018 por Revista algomais às 6:46

Divulgação

A Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), a Secretaria de Cultura do Estado e a Fundarpe lançam na próxima quinta-feira (26), às 19h, no Museu do Estado, os cinco livros vencedores do 5º Prêmio Pernambuco de Literatura. O certame, cujos nomes vencedores foram anunciados em outubro do ano passado, consagra os trabalhos dos escritores Amâncio Siqueira (Nem tudo cabe na paisagem, Contos), Enoo Miranda (Chã, Poesia), Ezter Liu (Das tripas coração, Contos), Fred Caju (Nada consta, Poesia) e de Walter Cavalcanti Costa (O velocista, Romance).

Além das obras editadas pela Cepe, os vencedores do Prêmio, que tem como objetivo o fortalecimento da produção literária pernambucana, foram agraciados com uma premiação no valor total de R$ 40 mil O resultado alcançado nesta edição revela a diversidade criativa dos nossos produtores: uma reunião de contos sobre viagens e descobertas; um romance-livro de memórias do protagonista; um poemário que joga luz sobre o fazer criativo do poeta; uma narrativa que mergulha nas pequenas tragédias cotidianas do homem e, ainda, um conjunto de histórias que evidenciam as diversas facetas do feminino, integram a mais recente coleção da Cepe. “Promover o livro e a leitura estão entre as principais missões institucionais da empresa e fazemos isso com mais entusiasmo ao editarmos trabalhos com a qualidade encontrada entre os que venceram o 5º Prêmio Pernambuco de Literatura”, destaca o presidente da Cepe, Ricardo Leitão.

A presidente da Fundarpe, Márcia Souto, também comemora. “Este é um momento muito importante para todos nós que lutamos por mais visibilidade para a literatura pernambucana e para ampliação do acesso ao livro e à leitura no Estado”, assegura a gestora. Além da premiação em dinheiro e a tiragem de mil exemplares de cada obra, o Prêmio garante a distribuição dos livros em escolas públicas estaduais e a participação dos escritores em rodas de diálogo de eventos, como o Festival de Inverno de Garanhuns e de projetos como o Outras Palavras.

Obras vendedoras

Primeira mulher a receber o maior reconhecimento em uma edição do Prêmio, a escritora recifense Ezter Liu apresenta o livro de contos Das tripas coração, que reúne 18 contos que têm em comum a temática feminina, mas com narrativas que apontam para panoramas diversos.

Nada consta é nono livro de poemas de Fred Caju. Um poemário sobre o próprio poemário, luzes sobre processos criativos do escritor.

 

pediram a cabeça
do poeta incendiário
chega de badvibes
foi o que disseram
após a decapitação
o cheiro de pólvora
ficou com cheirinho
de morango e não
se ouviu nunca mais
nenhuma explosão
nasceram arco-íris
longe das chuvas
e nenhum poema
precisa mais existir

Em Chã, Enoo Miranda evoca pequenas tragédias cotidianas que assolam o homem do nosso tempo, ora recordando e hábitos do trabalho no meio rural, ora realçando conflitos internos ou típicos da vida nos grandes centros urbanos em seus poemas.

Viagem e descoberta são os motes que dão unidade aos contos de Nem tudo cabe na paisagem, de Amâncio Siqueira, que lança uma luz diferente sobre situações cotidianas, expondo seu teor dramático nos recortes apresentados, muitas vezes flertando com o cômico, em seu texto direto.

No percurso do romance O Velocista, Walter Cavalcanti Costa navega pela experimentação formal e procura mostrar suas influências em quatro epígrafes: o futurismo europeu, o modernismo brasileiro, o concretismo brasileiro e a teoria literária. Com linguagem telegráfica, a obra é também um livro de memórias do protagonista, o astronauta Jô Tadeu.

Mais sobre os escritores

Ezter Liu nasceu no Recife, mas mora em Carpina desde criança. Graduada em Letras, escritora de prosa e poesia, desde o ano de 2005 tem seus textos publicados em várias coletâneas na região e no estado. Em 2015, pela Porta Aberta Editora Independente, lançou seu primeiro livro solo: Vermelho alcalino (poemas).

Fred Caju é autor de Arremessos de um dado viciado, As tripas de Francis Conceição por ela mesma, Paisagens sépias, Intervalo aberto, Estilhaços, Transpassar: poemas de atravessamento, O revide das pequenas maldades e Permanência. Também é editor, artesão do livro e livreiro nômade da Castanha Mecânica

 

Enoo Miranda é escritor, coordenador do Cineclube Tela da Mata, professor licenciado em Letras pela Universidade de Pernambuco, campus Mata Norte, situado em Nazaré da Mata, município onde reside e trabalha. Entre suas publicações encontram-se textos em antologias, como Inquebrável: Estelita para cima (Mariposa Cartonera, 2014), a coletânea 1 (Publique-se!, Livrinho de Papel Finíssimo, 2015), e o livro solo Papel de pegar mosca (Porta Aberta, 2016). Atualmente se dedica à criação do selo Vão! Edições e Publicações Independentes.

 

Amâncio Siqueira nasceu em Afogados da Ingazeira e mora em Garanhuns. Aficionado por livros, acalenta a ilusão de que existem aqueles que ainda não foram escritos e tenta escrevê-los. Entre tais tentativas, teve publicada a novela Quebra Cabeças, em 2014.

Walter Cavalcanti Costa é doutorando em Teoria da Literatura (PPGL/UFPE). A maior parte de sua formação foi realizada na UPE/Mata Norte, com graduação em Licenciatura em Letras, especialização lato sensu em Literatura Brasileira e Mestrado Profissional em Educação (PPGE/UPE). Recifense, nascido em 1989, é professor rede pública de ensino de Pernambuco. Na escrita, realizou publicações acadêmicas em revistas científicas. Publicou Entressafra 89 (2011), livro de poemas e contos que também ganhou curta-metragem, e Marlinda: em diálogo de amor às suas cidades (2017), livro infantojuvenil incentivado pelo Funcultura, em parceria com Milca de Paula.

SERVIÇO

Lançamento dos livros vencedores do 5º Prêmio Pernambuco de Literatura

 

Data: 26.04.18, quinta-feira
Horário: 19h
Local: Museu do Estado
Endereço: Avenida Rui Barbosa, 960 – Graças

Valor dos livros: R$ 20,00 (cada)

Irrefreáveis Trevas

ninguémOs contos do novo livro de Nivaldo Tenório, “Ninguém Detém a Noite”, exigem cumplicidade do leitor, um esforço por ler o não dito, por montar a história. Lançados de forma não linear, cada frase parece uma peça de tetris, que o leitor precisa mudar de posição até conseguir um encaixe, sabendo que dificilmente conseguirá uma linha sem arestas ou brechas.

Em “As Escamas do Monstro”, primeiro conto, de imediato percebemos o que nos espera nos doze contos do volume, os quais mereceriam cada um uma análise mais aprofundada: uma escuridão leitosa oprime nosso peito. Acompanhamos um cidadão de bem que remete a Bentinho ou Paulo Honório, em sua cruzada para fazer (e justificar) o que acha certo. O conto perpassa vários momentos da vida de seu personagem principal, a partir do momento em que retira suas coisas da agência bancária em que trabalhou. A aposentadoria do banco seria o ideal para fazer o balanço de sua vida, que parece ser feito pelo leitor à sua revelia, embora a saída da agência e a chegada em casa sejam abertura e fechamento do conto, um fluxo de consciência passeando por reminiscências de sua vida nesse curto percurso. O título pode ser lido como uma referência à tatuagem que a filha dele faz sem seu consentimento, depois de ter sido levada para uma delegacia junto com outros jovens devido a alguns baseados. O pai a interna numa clínica de reabilitação, gerando o distanciamento de filha e esposa. O monstro é mais profundo, porém, jamais ficando apenas sobre a pele. Em cada passagem há referências sutis a Lúcifer e a tentação, especialmente quando recolhemos fragmentos de um diálogo entre ele e Ernesto, amigo há muito falecido. Satanás é uma serpente (escamas) e recebe a licença de Deus para tirar tudo de Jó. Os dois amigos perderam tudo, cada perda é uma escama do monstro, mas o personagem decide não agir como Jó. Ernesto é um descrente, angariando uma certa irritação do amigo, que compara a atitude de Ernesto com a de Jó. Ao não “tomar as coisas dessa vida com muita seriedade” ele estaria considerando, por causa da fé, que a realidade seja subvertida pelo satanás e decide não agir como o amigo. É aqui que Nivaldo peca pelo excesso de concisão: por que o personagem escolhe acreditar? O filho ajudaria a problematizar isso, assim como diálogos mais extensos. Um dos pontos mais poderosos da narrativa de Tenório é justamente construir uma ponte para os personagens, criar empatia, e o conto de abertura é o único que peca nesse quesito.

Embora “Moby Dick” refira-se textualmente à música do Led Zepellin, uma das músicas que o protagonista de meia idade utiliza como trilha para correr e “recuperar sua juventude” para impressionar sua jovem namorada, impossível não pensar na Baleia Branca que assombra esse Ahab pós-moderno: a velhice. O conto tem momentos belíssimos, como esse: “Eram tão diferentes nossas mãos. Entre elas caberia o mar e uma viagem a pé. Entre nossas mãos uma cidade podia ser erguida. E tanto podia ser uma cidade aqui quanto na Índia. O ritmo do tempo é um só e não depende de geografia. Desenhado na palma da minha mão um mapa me dá conta de que estou perto do fim.” Outro belo exemplo de não linearidade e fluxo de consciência está no conto “Os Sócios de Papai”: “A sala de aula era ampla, nela três janelas de madeira davam para pés de manga. No ano seguinte vou cair de um deles e quase matar mamãe do coração. A professora fez a chamada, e tivemos de nos apresentar.”

Em “O Caso da Tartaruga”, Tenório trata de um tema delicado de nossa história, a tortura, prática com muitos adeptos entre nós, e nos faz pensar se diante de certas coisas é possível seguir em frente, utilizando metáforas e elipses de grande força: “Abri as janelas. Nada. Saí e me sentei no batente. O rumor das ondas invisíveis chegava até mim. Pensei na tartaruga morta. A esta hora foi cortada, fatiada por mãos que vasculham razões de sua morte, como se isso importasse, e fosse possível, uma vez desvendado o mistério, restaurar tudo, pôr as tripas no lugar, a carne de novo intacta recuperaria suas funções e de novo voltaria para o mar. Acima do casco as ondas rugindo.”

Temas como dinheiro, aborto, incesto e assassinato parecem ter sido colocados pelo autor no centro de uma sala, com uma luminária no teto, e em paredes opostas um espelho côncavo e outro convexo para traçar os contos “A Ilha dos Cães” e “Um Coração Impuro”, que também traz uma abordagem interessante para o tema do duplo, tão recorrente na literatura.

Há momentos, especialmente nos contos de caserna, que poderiam formar uma seção do livro, em que as narrativas flertam com os clássicos, como neste trecho de “Ninguém Detém a Noite” que me lembrou de “O Deserto dos Tártaros”, de Dino Buzzati: “Bastava apenas acordar cedo e se ocupar com os preparativos da guerra, e não importa que não haja guerra, um dia a geração depois da sua geração ou outra que virá terá de ir à guerra e tudo fará sentido. Um militar se sente afortunado porque seu mundo faz sentido. Hierarquia em tudo, basta olhar as montanhas e os oceanos.” Entretanto, talvez esse flerte esteja mais na leitura que na escrita. Estamos todos lendo (e escrevendo) o mesmo livro, adicionando capítulos ou notas de rodapé, e os temas universais estão sempre lá: o sentido da vida (ou falta dele), o fracasso, a perda, a velhice e a morte. E o amor e a ternura de que somos capazes enquanto tais engrenagens não nos moem.

Talvez o maior êxito de Nivaldo Tenório enquanto contista seja o fato de que seus personagens não pareçam estar lá apenas para que a história aconteça: eles de fato possuem um passado complexo e um futuro que nos causa apreensão. Mais do que humanizar situações, Nivaldo situaciona humanidades. Não é exagero colocá-lo entre os grandes contistas brasileiros em atividade.

Devoradores de Cadáveres

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Em Eaters of the Dead Michael Crichton oblitera as fronteiras entre ficção e relato histórico. Partindo do desejo de buscar raízes históricas para o mito de Beowulf, o autor parte das resenhas de viagens verdadeiras de Amad Ibn Fadlan (Fadalane na historiografia em língua portuguesa), árabe enviado em 921 como secretário do embaixador do califado de Bagdá em missão diplomática para a Bulgária do Volga, país hoje desaparecido.
Tomando trechos dos manuscritos originais, considerados os relatos mais antigos sobre os costumes dos povos nórdicos, para compor os primeiros capítulos, Crichton imagina o encontro do viajante árabe com um grupo de vikings liderados por Buliwif, e sua jornada a convite do rei Rothgar para livrar seu reino da ameaça milenar conhecida por Wendol. Para quem já conhece a lenda de Beowulf é muito interessante verificar as sutis alterações dos nomes de personagens, lugares e criaturas. Para quem não conhece, a história em si é muito boa, mesclando a descrição dos costumes e tradições vikings com sequências de drama e ação. A linguagem utilizada pelo escritor é fascinante: ele consegue mimetizar a linguagem corânica de Ibn Fadlan, não deixando em nenhum momento dúvidas de que o livro que temos em mãos é escrito pelo mesmo autor. Para tentar dar um tom mais realista e explicações científicas sobre os costumes nórdicos relatados e a possível origem do Wendol, o autor recorre a notas acadêmicas, algumas retiradas de fontes reais, outras fictícias. Até o Necronomicon de H P Lovecraft foi incluso na bibliografia recomendada.
Crichton recria a grande epopeia inglesa com um romance que possui brilho próprio.

Leituras recomendadas

Mais uma vez chegamos ao novo tempo de um novo dia que já começou, ou vice-versa, e com ele promessas e uma avaliação que sempre nos mostra que não cumprimos as promessas dos últimos novos dias de novos tempos que já começaram lá atrás. No meu caso, a promessa é sempre ler mais e falar mais sobre os livros lidos. Será difícil não conseguir isso ano que vem, em face da exiguidade de publicações no ano que se finda, também parco em leituras.

Deixo aqui a lista daquelas que mais me tocaram. Os números são só pra enumeração, não traduzindo uma ordem de preferência:

Ficção

1 – Alexis ou o Tratado do Vão Combate – Margerite Yourcenar – Um jovem músico covarde abandona sua esposa, despedindo-se por meio de uma carta onde assume sua homossexualidade. Yourcenar transforma essa premissa em uma obra-prima.

2 – Robinson Crusoe – Daniel Defoe – A fabulosa história do náufrago que sobrevive solitário por décadas em uma ilha deserta. Crusoe é o supremo self made man, e o livro é um dos marcos fundadores do romance moderno.

3 – Germinal – Émile Zola – As histórias vividas pelos homens, mulheres e crianças (e animais) das minas aqui retratadas compõem um dos melhores romances que tive o prazer de ler.

4 – A Montanha Mágica – Thomas Mann – Esse romance gigante em todos os sentidos é talvez o mais incrível de um gênero que foi comum entre os meados dos século XIX e XX: o romance do mal do século. Características básicas desse gênero: um jovem burguês herdeiro de certa riqueza, convencido de que está destinado a grandes feitos, que nunca leva nada adiante. Esse gênero foi elevado por grandes obras como Memórias Póstumas de Brás Cubas, A Consciência de Zeno, Oblomov e O Homem Sem Qualidades. Em a Montanha Mágica, Hans Castorp vai visitar por alguns dias seu primo, internado num sanatório para tuberculosos em Davos, na Suíça (sim, a mesma Davos do Fórum Econômico Mundial – e como o livro serve como metáfora para este evento!) e acaba ficando. São mais de mil páginas de uma vida que não acontece, e que belas páginas.

5 – Nihonjin – Oscar Nakasato – Hideo Inabata, avô do narrador, vem para o Brasil para que possa enviar riquezas para o Japão, e na sua busca por esse objetivo, e seus conflitos com seus filhos, vemos passar a história da imigração japonesa em nosso país, uma história muito bem abordada por Nakasato, repleta de fatos violentos que não imaginava.

6 – Contraponto – Aldous Huxley – Uma obra-prima de um dos meus autores preferidos. A forma como ele trabalha as vozes dos personagens, a importância dos acontecimentos, as análises da época, da fina ironia ao mordaz cinismo, tudo é incrível nessa obra.

7 – As Aventuras do Bom Soldado Švejk – Jaroslav Hašek – A obra inacabada do ex-combatente checo é fenomenal. Narrando as desventuras de Švejk até chegar ao front na Primeira Guerra Mundial, mostra o total desencanto com o militarismo, o Império e a guerra. Pra chorar de rir e rir de tanto chorar.

8 – Peter Pan – J. M. Barrie – Um dos maiores livros infantis de todos os tempos, com seus personagens arquetípicos e um enredo com muita aventura. Impossível não se emocionar.

9 – Obra Completa – Raduan Nassar – Um monstro da arte da linguagem.

10 – Ninguém Detém a Noite – Nivaldo Tenório – O segundo livro de Tenório é ainda melhor que “Dias de Febre na Cabeça. Um dos grandes contistas contemporâneos. Em breve sairá resenha por aqui.

Não Ficção

1 – Colapso – Jared Diamond

2 – Vida a Crédito – Zygmunt Bauman

3 – O Gene Egoísta – Richard Dawkins

4 – Como Organizar sua Vida Financeira – Gustavo Cerbasi

5 – O Mito de Sísifo – Albert Camus