O imperador está nu

Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, é um dos livros da minha vida. Há nas notas da autora uma citação de Flaubert (Os deuses não existindo mais e o Cristo não existindo ainda, houve, de Cícero a Marco Aurélio, um momento único, em que só existiu o homem) que inclusive me ajudou a escolher o período histórico em que se passaria meu primeiro romance, além da Segunda Revolta Judaica ter ocorrido no governo de Adriano. Abaixo vocês podem assistir ao Quixotada que dediquei a esta obra-prima.

 

 

 

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Novo canal no Youtube

Por questões que envolvem tempo e alcance das mídias, optei por fazer as resenhas em vídeo e postá-las no Youtube, no Canal Quixotada. Divido o canal com Ivaldo Tenório, contando com algumas participações especiais. À medida que formos publicando os vídeos por lá, vou colocar os links por aqui. Segue o link para o Quixotada, seu programa de literatura.

https://www.youtube.com/channel/UCmpJcTMGDHkKIWx98o9qoBg?sub_confirmation=1

Gêneros Fluidos

estado de minas

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Em matéria de capa do Estado de Minas, Tadeu Sarmento fala sobre os vencedores da última edição do Prêmio Pernambuco. Abaixo destaco suas impressões acerca de em Tudo Cabe na Paisagem:

“Quanto aos contos de Nem Tudo Cabe na Paisagem, de Amâncio Siqueira, estes têm uma linha comum no registro da realidade e na observação de um cotidiano tão simples quanto verossímil, por vezes aliando uma eficiência em contar histórias à mais completa imersão no mundo factual. É curioso notar a maneira como o escritor, pouco a pouco, indica um desdobramento trágico ou cômico bem ali, em um espaço em que a vida corriqueira dá a impressão de se desenvolver com naturalidade. São contos curtos e bem executados e, em alguns deles (como “Traição” ou “Pecado”), Siqueira demonstra perícia em criar diálogos que fluem tão naturais que a impressão que dá é que o leitor escuta essa conversa na mesa ao lado (o ápice dessa técnica é o conto “Audiência”). A escrita de Siqueira é fluida e elegante, e suas histórias se desenrolam sem grandes percalços.”

Enquanto Sérgio Tavares notou uma “voltagem supranatural (misticismo, buscas etéreas, fantasmagoria)” que “movimentam as narrativas iniciais, e se perde totalmente no decorrer do livro”, e Carrero descreveu “Absinto” como uma ironia ao ensaísmo, Sarmento vê um livro realista. Qual visão prevalecerá? Só o tempo para dizer. Posso apenas confessar minha alegria ao ver que os textos suscitam várias interpretações, muitas ainda longe de ser reveladas.

Formas Breves de Aspecto Irresoluto

Seguindo com a reunião da crítica de minha obra neste blogue, publico abaixo a resenha que Sérgio Tavares publicou em A Nova Crítica. Interessante notar as diferenças profundas de interpretações entre ele, Carrero e Tadeu Sarmento, cuja opinião publicarei a seguir. Não cabe a mim validar ou invalidar qualquer leitura. Cabe apenas um esclarecimento em relação aos defeitos apontados por Tavares: A falta de organicidade ou identidade não é consequência de ser uma estreia: trata-se de uma atitude deliberada. Antes de começar qualquer texto, a primeira coisa que tento definir é o narrador que fará a narrativa funcionar. “Fica parecendo, portanto, uma coletânea composta por textos de diferentes autores”, como ele bem destacou. Tais defeitos ficarão ainda mais evidentes no próximo livro de contos que estou escrevendo, assim como na comparação das minhas narrativas mais longas.

“Pensei em Piglia durante a leitura de Nem tudo cabe na paisagem, coletânea de breves narrativas de Amâncio Siqueira que ganhou o 5º Prêmio Pernambuco de Literatura.

Quando o escritor argentino afirma que a versão moderna do conto abandona o final surpreendente e a estrutura fechada, de modo a trabalhar a tensão entre as duas histórias sem nunca, de fato, resolvê-la. A história secreta é contada de um modo cada vez mais alusivo, complementa.

Antes de avançarmos, é preciso contextualizar o leitor de que a proposição está no célebre ensaio “Teses sobre o conto”, contida no volume Formas breves. Ali Piglia defende que, entre outras coisas, um conto sempre conta duas histórias: um relato visível que esconde um relato secreto narrado de maneira elíptica e fragmentária.

De volta ao livro de Siqueira, as 11 narrativas expressam esse aspecto irresoluto na engenharia de suas tramas. O autor explora um invariável esgarçamento, uma transcendência que se ocupa tanto dos limites da forma quanto do desenvolvimento dos temas eleitos.

No centro dos textos, estão personagens na iminência de transpor ou que transpuseram um conflito de natureza física ou espiritual, afetiva ou simbólica.

São acessos imediatos a circuitos dramáticos, nos quais se faz notável a tese de Pliglia, possibilitando que, embora com o fim aberto, as duas histórias que movimentam o enredo (o relato visível e o relato secreto) delineiam um escopo claro, diferente dos textos que se evidenciam fragmentos de romances mal-acabados.

Um bom exemplo é o conto “Bastardo”. No primeiro plano, temos a história 1 (o tempo de descoberta de um jovem índio), que constrói, no fundo da tessitura, a história 2 (a jornada de vingança do jovem índio contra o homem branco que matou o seu pai).

Esse caráter duplo, aparece nos ótimos “Absinto”, sobre um indivíduo que edifica uma obra embaralhando alucinações e certas delírios bíblicos, e, com mais tenacidade, “Carona”, uma série de diálogos na qual dois amigos tentam entender se estão vivos ou mortos.

É pontual notar como essa voltagem supranatural (misticismo, buscas etéreas, fantasmagoria) movimentam as narrativas iniciais, e se perde totalmente no decorrer do livro. O autor opera seus enredos, um a um, com tratamentos dos mais variados; pitadas de humor, flertes com o regionalismo, efeitos imagéticos, prosaísmo das relações pessoais.

Aí está o traço desagregador do livro. A variação recorrente do estilo, dos assuntos explorados e dos elementos de estruturação não permite uma organicidade (o que não é mau, caso exista um conceito) e (mais problemático) uma identidade. Fica parecendo, portanto, uma coletânea composta por textos de diferentes autores.

Possivelmente, são histórias escritas em fases distintas da vida do autor, no processo de lapidação da escrita. É claro que se deve levar em conta de que se trata de uma estreia. Todavia sem a tal tensão, sinalizada por Piglia, sobressaem-se os contos medianos.”

A revelação de um escritor múltiplo

Raimundo Carrero, Escritor e jornalista, publicou no Diário de Pernambuco matéria sobre o meu novo livro, que reproduzo aqui. Fico feliz em ser comparado a Milan Kundera, um dos fantasmas que mais me assombram.

Publicação: 14/05/2018 09:00
Nem tudo cabe na paisagem, de Amâncio Siqueira, é um livro de contos com pretensão a romance – ou história longa – com alguma coisa de ensaio. Assim, lemos logo no início:

“Escrever para imortalizar-se é um fenômeno recente. A princípio, não havia uma autoria individual, Vários autores davam sua contribuição par imortalizar algo que transcendia a si mesmos. Assim nasceram livros sagrados, desde a Ilíada até As Mil e uma Noites. Imbuído desse mesmo sentimento, procuro com este estudo imortalizar a busca do meu amigo Socó Pombo pelo seu livro sagrado.”

Somente no segundo parágrafo, o narrador faz aparecer o seu protagonista com hábitos e costumes estranhos, o suficiente, porém, para atrair a atenção do leitor, ainda torpedeado pelo ensaísmo do primeiro. Do ponto de vista ficcional, a narrativa começa aí, considerando a narrativa tradicional. De certa forma, e em certo sentido, lembra a técnica de Milan Kundera, para citar um autor recente, e de Thomas Mann, o gênio da literatura alemã no século 20.

É claro que não estou comparando, mas apenas fazendo alusão a dois escritores que usam a técnica do ensaio para seduzir o leitor. Amâncio Siqueira é vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura, que já se constitui num momento maior das letras brasileiras. De forma que vale, por si só, uma consagração.

Amâncio venceu o prêmio ao lado de Ezter Liu com seu Das Tripas Coração, um livro de contos cheio de recursos, entre eles a ausência de vírgulas, o que marca sua obra, definitivamente. Aliás, este prêmio tem revelado ótimos autores, entre eles Rômulo Melo. Os dois recentes, que examino aqui, honram qualquer grande literatura. Sem dúvida.

No livro, Amâncio ironiza o ensaísmo pomposo e grandiloquente, metido a erudito, desses sabedores de tudo. Muito próximo daquele outro livro famoso do russo Godjef chamado apenas “De tudo e de todas as coisas”. Não duvidem que Amâncio se aproxima muito do filósofo oriental.

Apesar de tudo, é claro que Socó Pombo é um bom personagem que representa esta irônica área do saber oriental. No fim, Amâncio procura jogar todos nós neste saco de gatos, embora agora ele mesmo seja um neste mesmo contexto.
http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/opiniao/46,97,43,74/2018/05/14/interna_opiniao,187663/a-revelacao-de-um-escritor-multiplo.shtml