Prêmio Pernambuco de Literatura

Compartilho a publicação do portal Bora Agora sobre o resultado da 5º edição do Prêmio Pernambuco de Literatura, no qual meu livro foi um dos selecionados. Necessária se faz uma correção: Absinto não é um romance, é livro de contos. Concorri pelo agreste, por residir em Garanhuns, mas sou natural de Afogados da Ingazeira, no sertão. Pertenço às duas cidades.

Conheça os vencedores do V Prêmio Pernambuco de Literatura

Cinco escritores pernambucanos foram agraciados, na noite desta terça-feira (17), com o Prêmio Pernambuco de Literatura. A cerimônia, que aconteceu no Palácio do Campo das Princesas, foi conduzida pelo governador de Pernambuco Paulo Câmara, que assinou decreto ampliando o prêmio a partir da edição de 2018 e renomeando-o de Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura. Ao lado do secretário de Cultura Marcelino Granja, da presidente da Fundarpe Márcia Souto e do presidente da Cepe Editora Ricardo Leitão, ele anunciou os vencedores.

Foram cinco os escritores pernambucanos agraciados com o prêmio: Ezter Liu, que representa o Agreste, recebeu o Grande Prêmio, com o livro de contos “Das Tripas Coração” – levando a premiação de R$ 15 mil; Walter Cavalcanti Costa, da Mata Norte, venceu com o romance O Velocista; Fred Cajú, do Recife, foi contemplado pelo livro de poemas Nada Consta; Enoo Miranda, de Nazaré da Mata, levou o prêmio pelo livro de poemas Fogo, fato; e Amâncio Siqueira, de Garanhuns, venceu com o romance Absinto. Estes últimos receberão a premiação no valor de R$ 5 mil. Os autores terão suas obras inéditas editadas pela Cepe.

Sobre a futura VI edição do prêmio, a ser realizada em 2018, o secretário de Cultura, Marcelino Granja explicou que a premiação passará de R$ 40 mil para R$ 90 mil. “Agora, iremos premiar os primeiros e segundos lugares. Um robustecimento dessa honraria, que, agora, terá no nome a grandeza de Hermilo, uma referência como escritor que marca as artes e a cultura pernambucana”, acrescentou. Serão concedidas premiações de R$ 20 mil para o grande vencedor, cinco prêmios de R$ 10 mil para os primeiros colocados nas quatro macrorregiões do estado e quatro prêmios de R$ 5 mil para os segundos colocados nas quatro Macrorregiões do Estado, conforme estipulado no Edital da seleção pública.

Conheça os vencedores do V Prêmio Pernambuco de Literatura

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De Dívidas e Dividendos

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“Não existe beleza na miséria.”

Renato Russo

“Não pode pagar sua dívida? Em primeiro lugar, nem precisa tentar: a ausência de débitos não é o estado ideal. Em segundo lugar, não se preocupe: ao contrário dos emprestadores insensíveis de antigamente, ansiosos para reaver seu dinheiro em prazos prefixados e não renováveis, nós, modernos e benevolentes credores, não queremos nosso dinheiro de volta. Longe disso, oferecemos mais créditos para pagar a velha dívida e ainda ficar com algum dinheiro extra (ou seja, alguma dívida extra) a fim de pagar novas alegrias. Somos os bancos que gostam de dizer “sim”. Seus bancos amigos. Bancos “que sorriem”, como dizia uma de suas mais criativas campanhas publicitárias.

O que nenhuma publicidade declarava abertamente, deixando a verdade a cargo das mais sinistras premonições dos devedores, era que os bancos credores realmente não queriam que seus devedores pagassem suas dívidas. Se eles pagassem com diligência os seus débitos, não seriam mais devedores. E são justamente os débitos (os juros cobrados mensalmente) que os credores modernos e benevolentes (além de muito engenhosos) resolveram e conseguiram transformar na principal fonte de lucros constantes. O cliente que paga prontamente o dinheiro que pediu emprestado é o pesadelo dos credores.

A atual “contração de crédito” não é resultado do insucesso dos bancos. Ao contrário, é o fruto, plenamente previsível, embora não previsto, de seu extraordinário sucesso. Sucesso ao transformar uma enorme maioria de homens, mulheres, velhos e jovens numa raça de devedores. Alcançaram seu objetivo: uma raça de devedores eternos e a autoperpetuação do “estar endividado”, à medida que fazer mais dívidas é visto como o único instrumento verdadeiro de salvação das dívidas já contraídas. O hábito universal de buscar mais empréstimos era visto como a única forma realista (ainda que temporária) de suspensão da execução da dívida.”

Zigmunt Baumann, Vida a Crédito

“A incapacidade parcialmente irracional de tentar resolver problemas pode surgir de conflitos entre motivos de curto e de longo prazo do mesmo indivíduo. Os camponeses de Ruanda e do Haiti, além de bilhões de outras pessoas no mundo atual, são desesperadamente pobres e só pensam no que vão comer no dia seguinte. Pobres pescadores em áreas de recifes coralígenos tropicais usam dinamite e cianeto para matar peixes (e incidentalmente matam também o recife) de modo a alimentar seus filhos hoje, mesmo sabendo que estão destruindo sua futura fonte de alimento.”
Jared Diamond, Colapso

“Se o planejamento financeiro familiar pode ser comparado à rotina de atividades saudáveis e à dieta alimentar da família, associo as dívidas à gordura de nosso corpo. Podemos viver perfeitamente sem elas, mas um pouquinho de gordura não faz mal a ninguém; pelo contrário, é até sinal de que aqueles menos enxutos vivem uma vida mais indulgente e prazerosa.
Entretanto, o excesso de gorduras não indica maior nível de satisfação, mas sim de problemas. A obesidade financeira, se não diagnosticada e controlada a tempo, certamente resulta em sofrimento, seja na convivência com ela, seja na tentativa de eliminá-la.”
Gustavo Cerbasi

Esse será provavelmente o texto mais longo que já publiquei nesse blogue. E será justamente por não se tratar dos assuntos a que me propus quando o iniciei. A Ceia das Cinzas tem como assuntos principais literatura e filosofia, com alguma coisa sobre divulgação científica, artes e história. Essa postagem, entretanto, é sobre economia e finanças pessoais, e será longa justamente porque quero tentar esgotar o que tenho a dizer aqui. Talvez daqui a dez ou vinte anos decida abordar esse assunto novamente, mas não será um tema recorrente. Até porque não sou especialista nem estou perto disso, e há muito material disponível para aqueles que, espero, passem a se interessar pelo assunto após meu apelo.

Sim, esse texto é, mais do que uma crônica, artigo ou resenha, um apelo. Um apelo para nós enquanto povo. Estou convencido que o grande salto que o Brasil precisa é o salto educacional, e um de seus alicerces será a educação financeira. Sem uma mudança total na forma como vemos e convivemos com o dinheiro, não deixaremos nunca de ser um país feliz em chafurdar na lama.

Devo falar de meu exemplo pessoal, não apenas por acreditar na força do exemplo, como para justificar ter passado tantos meses sem publicar por aqui. Desde que comecei a trabalhar, sempre tive salários pelo menos cinquenta por cento superiores à média salarial do mercado, além de outras vantagens econômicas, como, por exemplo, participação nos lucros quando trabalhei na iniciativa privada. Participação esta que eu utilizava de maneira bem racional: ia à Livraria Cultura e gastava inteira com livros, muitos dos quais ainda não li. Alguns anos depois, dívidas contraídas para quitar um acordo de divórcio, uma reforma no imóvel para a chegada de um filho, muitas latas de Nan e pacotes de Pampers depois, tive que me abster de comprar livros, e descobri que não fazer por opção é bem mais prazeroso que por necessidade. Mesmo sempre tendo criticado o consumismo, hoje percebo que eu era consumista e inconsequente. Muitas das dificuldades que passei foram reflexo de péssimas escolhas, de uma cegueira em relação ao futuro. O fato de ter um salário “garantido” me dava a falsa noção de não necessitar de uma reserva de emergência. Não tinha a consciência de que imprevistos são as coisas mais previsíveis na vida.

Percebi que estava tocando o fundo do poço quando passei a pagar setecentos reais de juros no cheque especial. Todos os meses. Alguma coisa tinha que ser feita, e logo. Eu tinha dois anos do meu salário inteiramente destinados para o pagamento de juros bancários. A primeira coisa que fiz foi cancelar a conta que me dava um limite alto no cheque especial. Precisava me adequar aos meus ganhos, parar de recorrer a empréstimos para suprir minhas necessidades. Após muitas noites de sono perdido, em que contava juros e encargos ao invés de contar carneirinhos, decidi fazer o que sempre faço quando minha atenção se volta para algum assunto: fui estudar. Baixei dezenas de livros sobre economia e finanças pessoais, desde os destaques da seção de autoajuda até livros mais técnicos, buscando entender o macro e o micro, a cabeça dos endividados e os anseios do mercado. Foram seis meses basicamente afastado da literatura, focado nesses assuntos. Minha conclusão é que não apenas eu preciso mudar meus hábitos. Milhões de pessoas se encontram em situação ainda pior que a minha, vivendo em patamares de consumo insustentáveis e acreditando que estão dando prejuízos aos bancos quando dão calote ou renegociam pelo “mínimo”.

A primeira coisa que devemos ter em mente é que bancos são empresas de intermediação financeira. Eles pegam dinheiro barato e emprestam caro. Num ambiente financeiramente saudável, são importantes veículos de incentivo à produção. O problema é que não vivemos num ambiente assim, e o principal sintoma é que os bancos lucram muito mais do que as empresas que realmente produzem algo. O Brasil está correndo para copiar um modelo que gerou a crise de 2008 e deve sofrer com o estouro de uma super bolha até o fim desta década. Uma bolha que terá inclusive participação da China, que também entrou nos últimos anos no modelo de crescimento “artificial”, baseado em dinheiro sem lastro e elevado spread bancário para compensar os altos riscos de emprestar a quem não tem capacidade de pagar. Trocando em miúdos, empréstimos de moeda nominal, sem bens reais que justifiquem sua criação. A China vinha crescendo nas últimas décadas de forma sustentável, conforme bem resume Fernando Ulrich, no livro Bitcoin, A Moeda na Era Digital: “Para que haja investimento, é preciso haver poupança. É o investimento que permite o acúmulo de capital, que, por sua vez, possibilita uma maior produtividade da economia. Mas sem poupança prévia não é possível investir. A expansão do crédito pelo sistema bancário sob um regime de reservas fracionárias permite que os bancos concedam empréstimos às empresas e indivíduos como se houvesse poupança disponível, quando, na verdade, isso não ocorreu. Logo, os empresários investem como se houvesse recursos disponíveis para levar a cabo seus empreendimentos, criando um auge econômico que contém as sementes de sua própria ruína. Cedo ou tarde, alguns investimentos não poderão ser concluídos (pois simplesmente não há recursos suficientes para que sejam completados lucrativamente), devendo ser liquidados o quanto antes. Esse é o momento da recessão, quando os excessos cometidos durante o boom precisam ser sanados para que a estrutura produtiva da economia retome o seu rumo de forma sustentável.” O Brasil sofrerá ainda mais com a próxima crise, pois não fez poupança suficiente depois de 2008.

Algo espantoso é que a maioria dos brasileiros acredita que não apenas não é problema, mas é algo natural e mesmo desejável viver devendo aos bancos e financeiras. O ritual de trocar de carro assim que se termina o financiamento, para não ficar sem parcelas fixas para pagar, é incentivado nos círculos de nossa classe média, e as classes mais baixas estão internalizando essa prática para eletrodomésticos. O vício do carnê voltou com força total depois dos carnês do baú terem saído de moda há alguns anos. Até mesmo esse voltou. As grandes varejistas não vendem produtos: vendem crédito. “Fidelizam” os clientes em pequenas parcelas. E estes não conseguem perceber o quadro geral, nem mesmo da dívida contraída. Acrescente-se a isso o fato que parcelas fixas enrijecem o orçamento familiar e torna o ambiente propício para que um único imprevisto dê início a uma bola de neve, por não deixar margem para cobrir o gasto extra sem recorrer a algum empréstimo.

Chega dessa ladainha de dizer que o dinheiro não é importante. Aqueles que não acham que o dinheiro é importante serão dominados pelos que acham. Todo o quadro político e social que vivemos é um exemplo claro e gritante disso. Nossa democracia nunca deixou de ser censitária, desde as primeiras eleições em 1532, quando apenas estavam aptos para votar e concorrer às eleições os chamados “homens bons”, ou seja, indivíduos oriundos de famílias abastadas, com títulos nobiliárquicos ou donos de muitas propriedades. Não à toa nosso Congresso a cada eleição tem um número maior de milionários, mesmo escondendo a maior parte de seu patrimônio, enquanto nossa classe média destila seu ódio contra todo político que não seja um “homem bom”, hoje chamado de “cidadão de bem”. A mentalidade do nosso povo deve mudar, e logo. Talvez devamos almejar e perseguir o primeiro milhão. Se todos formos ricos, todos teremos voz.

O dinheiro é a melhor medida de tempo que dispomos, e não nos apercebemos disso. O dinheiro é uma forma de mensurar o tempo despendido, guardar algum valor pelo tempo que já gastamos, e pode, se usado de forma inteligente, garantir a compra de um tempo extra no futuro, com uma aposentadoria mais cedo, ou com melhor qualidade de vida, ou ainda com uma sobrevida maior pelo aumento da saúde geral. Antes de comprar qualquer coisa, deveríamos pensar no quanto de tempo gasto será necessário para comprar aquilo. A sistemática da ostentação não dá valor ao dinheiro, pelo contrário, é a elevação à máxima potência da prática de jogar dinheiro fora. Nós aprendemos desde cedo que não adianta ter um helicóptero se nosso vizinho também tem. Essa mentalidade da inveja ao contrário, ou esse desejo de ser invejado, é o que torna nosso país um dos mais caros do mundo. Nosso afã de aparentar ter dinheiro é o que nos faz jogar tanto dinheiro fora.

Aqui a prática da lei da oferta e da procura é selvagem. A esperteza é a maior burrice. Num ambiente assim, não é de se estranhar que a inflação só fique sob controle em tempos de recessão. Se quisermos controlar a inflação e manter os juros baixos, a única maneira é darmos valor ao nosso dinheiro. É agir sempre como se o dinheiro estivesse escasso, como se todo dia estivéssemos em crise. Quem sabe em um futuro distante paremos de procurar formas de ludibriar uns aos outros e comecemos a parar de ser ludibriados por bancos, empresas e governo. Imagine que loucura seria receber juros deles ao invés de pagar. Buscar as melhores debêntures, CDBs e Títulos do Tesouro ao invés dos melhores consignados, financiamentos e formas de enganar o fisco.

Estou há um mês sem entrar no cheque especial. E você?

O Chamado do Incognoscível

“Only poetry or madness could do justice to the noises heard by Legrasse’s men as they ploughed on through the black morass toward the red glare and muffled tom-toms. There are vocal qualities peculiar to men, and vocal qualities peculiar to beasts; and it is terrible to hear the one when the source should yield the other.”

(Somente a poesia ou a loucura poderiam fazer jus aos barulhos ouvidos pelos homens de Legrasse enquanto cortavam caminho através do pântano escuro até o brilho vermelho e o abafado batuque. Existem características vocais peculiares ao homem, e características vocais peculiares aos animais; e é terrível ouvir um som vindo de uma fonte quando deveria partir da outra).

H. P. Lovecraft, The Call of Cthulhu

Apesar de dever muito do meu hábito de leitura aos quadrinhos de Conan escritos por Roy Thomas e desenhados por John Buscema, que deram grande visibilidade à Era Hiboriana, imaginada por Robert E. Howard, quase não tive acesso às obras publicadas na Weird Tales, além das próprias criações de Howard. Para preencher mais essa lacuna de minhas leituras, nada melhor que recorrer à imaginação igualmente fantástica de outro Howard, o Lovecraft.

Antes de falar do livro, devo dizer que gostei tanto que procurei uma edição dos Mythos, reunião de vários autores que com seus contos buscam ampliar o universo dos “Great Old Ones” (Grandes Antigos). Cthulhu é um desses Grandes, deuses que se lançaram através do cosmo ainda jovem e trouxeram caos para os planetas em que habitaram, até que “morreram”. O conto em que Lovecraft apresenta essa ideia fala sobre o chamado daquele que veio parar na Terra, ainda antes de existir vida, interferindo no destino do planeta, e de investigações acerca de um culto anterior à história, espalhado por todo o globo, que busca a “ressurreição” de Cthulhu.

Todo o conto mexe com o terror mais genuíno: o terror do incognoscível. O primeiro contato que temos com a besta, digo, o deus, é uma pequena estátua de barro com formas parcamente discerníveis que lembram um humanoide com asas de dragão e cabeça de polvo. Sendo essas formas de “vida” compostas de formas de energia e matéria desconhecidas, a disformidade é algo intrínseco à sua “forma”. O narrador, Francis Wayland Thurston é o sobrinho-neto do professor de línguas semíticas George Gammell Angell, que morreu de forma inexplicável (embora já bastante idoso) enquanto pesquisava a respeito do culto, que tem sua existência evidenciada por um inspetor de polícia, Legrasse, ao relatar descobertas que realizou em ocorrências policiais a um grupo de acadêmicos durante um simpósio. O culto, porém, logo deixa de ser relevante, quando vários acontecimentos insólitos ao redor do globo, ocorridos numa mesma época, mostram que algo muito terrível despertou.call_of_cthulhu_400x600

O próprio nome Cthulhu é uma tentativa de vocalizar algo que não pode ser dito por linguagens humanas. Como diz o narrador: “We live on a placid island of ignorance in the midst of black seas of infinity, and it was not meant that we should voyage far. The sciences, each straining in its own direction, have hitherto harmed us little; but someday the piecing together of dissociated knowledge will open up such terrifying vistas of reality, that we shall either go mad from the revelation or flee from the deadly light into the peace and safety of a new dark age.” (Vivemos numa plácida ilha de ignorância em meio a escuros mares de infinitude, e não havia meios de sair dali. As ciências, cada uma espalhando-se em sua própria direção, têm amiúde nos iluminado; mas um dia a junção de conhecimentos dissociados nos desvendará uma vista tão terrível da realidade, que ou ficaremos ensandecidos com a revelação ou fugiremos dessa luz mortal direto para a paz e a segurança de uma nova idade das trevas.) A ilha de Cthulhu, com sua geometria não euclidiana, é o cume do estranhamento que a narrativa causa.

Por meio de capítulos que passeiam entre estudos científicos, relatos policiais e narrativas de aventurescas viagens marinhas, Lovecraft começa a extrair do barro a forma de seus contos, tal qual ele declarou numa carta de 1927: “Todos os meus contos são baseados na premissa fundamental de que as leis, interesses e emoções que os seres humanos compartilham não têm validade ou significado no vasto cosmos ao redor.”

Sem Crise de Consciência

“A vida assemelha-se um pouco à enfermidade, à medida que procede por crises e deslizes e tem seus altos e baixos cotidianos. À diferença das outras moléstias, a vida é sempre mortal. Não admite tratamento. Seria como querer tapar os orifícios que temos no corpo, imaginando que sejam feridas. No fim da cura estaríamos sufocados.”

Ítalo Svevo, A Consciência de Zeno

Em sua obra-prima, Ítalo Svevo apresenta recortes da mais fina ironia. Zeno Cosini, o personagem que tem seus “cadernos de terapia” publicados à sua revelia pelo seu psicanalista depois de uma desavença, lembra os personagens de Machado de Assis, em especial Brás Cubas, embora não tenha nenhum receio de “transmitir a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.” O terapeuta, que não diz seu nome ao publicar os textos, assemelha-se mais ao Bento Santiago.

Os cadernos de Zeno não estão ordenados por ordem cronológica. Seguindo os padrões da nossa consciência, as coisas são arranjadas por assuntos, e os assuntos vão fazendo ligações e construindo uma trama. O livro inicia pelo tema do vício em cigarro, e já aí vemos desenhar-se o personagem que nos conduzirá até seu íntimo através das memórias: Zeno parece ter uma única resolução na vida: a de não cumprir nenhuma de suas resoluções. Desde as várias últimas vezes em que fumaria até a forma como corrompe a funcionária da clínica de reabilitação para poder fugir, ele disseca e demonstra de forma “científica” a anatomia do fracasso.

No casamento, acaba por vangloriar-se de ter casado com a única das três irmãs que nunca quis, por achá-la feia, e termina sendo o melhor amigo do cunhado, aquele mesmo que pensara empurrar da ponte quando percebeu que sua pretendida se afastava na direção do outro.

Quando se trata da amante, suas crises de consciência são tão rompantes, passageiras e inócuas como com o fumo.

O mais prazeroso na leitura é o fato de seu narrador não tentar esconder nada, lançando tudo o que pensa no papel sem qualquer filtro. a-consciencia-de-zeno-italo-svevo-186x300A narrativa garante boas risadas para quem gosta de rir de nossas misérias, e promete deixar ao final um alfinete latejando no juízo.

 

O Vão Combate

“Dizia a mim mesmo, com rebeldia, que a natureza é injusta com os que obedecem suas leis mais claras, posto que cada nascimento põe em perigo duas vidas. Todos fazemos sofrer quando nascemos e sofremos quando morremos.

(…)

A vida me fez o que sou, prisioneiro (como queira) de instintos que não escolhi, mas aos quais me resigno, e essa aceitação, espero, na falta da felicidade, me trará a serenidade. Minha amiga, sempre te acreditei capaz de compreender, o que é mais difícil que perdoar.”

Marguerite Yourcenar

Em “Alexis ou o Tratado do Vão Combate”, Marguerite Yourcenar lança mão do romance (uni)epistolar para refletir de forma profunda e certeira acerca da vida. A longa carta de separação que Alexis escreve para sua esposa Mônica poderia facilmente cair na aridez do discurso e tornar-se entediante. A genialidade de Yourcenar não permite que tal ocorra, e o leitor encontrará em cada parágrafo uma pérola de estilo.

Alexis tenta traçar um esboço de sua vida, em especial antes de conhecer a esposa, e nessa rememoração busca a compreensão dela e também a reconciliação consigo mesmo. Embora o tema central seja um homem em conflito com a própria sexualidade, vemos descortinar-se um drama maior: o de homens e mulheres que vivem existências infelizes, amarrados a deveres sociais que os levam ao fundo de um oceano de dissabores, para o qual muitas vezes levam consigo outras pessoas, numa cadeia intrincada de obrigações que sufoca a todos. A metáfora perfeita aqui é a incompatibilidade entre o casamento do personagem e a música. Em certo momento, Alexis pede desculpas não por partir, mas por ter ficado tempo demais.

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Numa teia de acontecimentos bem montada, Yourcenar prende a atenção e conclui de maneira magistral seu pensamento: Não há combate mais vão que lutar contra a própria natureza.

 

Melhores Leituras 2016

Uma característica comum aos leitores, a única talvez que abarque a todos, é estar sempre em busca de novos livros. Cresce o número de listas, assim como decresce o tempo disponível. Acredito que a maioria das listas acaba sendo mais útil para seu próprio autor, tanto para passar a limpo o que tem lido, como para possíveis releituras. Esse ano, resolvi alterar a metodologia da minha. Ano passado dividi em várias categorias e quando percebi tinha indicado quase metade dos livros que li em 2015. A mudança de método se deve, portanto, a dois motivos: primeiramente, não pretendo reler metade dos livros lidos; segundamente, uma lista que nomeie metade dos livros lidos é injusta. Leitores têm pouco tempo, então as listas devem buscar o melhor entre os melhores. Buscando um equilíbrio entre as possíveis releituras e indicações para leitores ávidos por novidades, decidi nomear apenas dez livros de ficção e cinco de não ficção. Alguns já foram resenhados por aqui, então falarei apenas sucintamente sobre cada um.

Ficção:

Guerra e Paz, de Tolstoi – Uma obra prima. O gênio russo parte das guerras napoleônicas para tentar provar suas teorias acerca da História; contudo, Tolstoi é tão bom que, mesmo partindo de premissas que prometem péssimas obras, cria grandes livros. Com capítulos narrados pelo ponto de vista dos personagens principais, é uma obra gigantesca em todos os sentidos.

Mentiras Contagiosas, de Jorge Volpi. Já resenhado. Leitura deliciosa.

1Q84, de Haruki Murakami – Basta dizer que é considerado por muitos como a principal obra do escritor japonês.

Así Empieza lo Malo, de Javier Marías – Resenhado por aqui. Um grande livro, desses que a releitura é obrigatória.

A Estrada, de Cormac McCarthy – Resenhado. A forma como o escritor une vigor narrativo com rigor linguístico o tornam um dos grandes escritores que já tive o prazer de ler.

O Pintassilgo, de Donna Tartt. Um tour de force. Obra excepcional, que diz muito sobre muito e ajuda e repensar o nosso tempo e nosso lugar no mundo.

Lysistrata, de Aristófanes – Tem uma breve resenha por aqui. Existe um motivo para que os clássicos sejam clássicos.

The Mist, de Stephen King – Também resenhado. Adorei esse livro. Pretendo reler muitas vezes.

A Consciência de Zeno, de Italo Svevo – Pretendo resenhar em breve. Posso dizer que parece um romance de Machado de Assis com um personagem que não sente culpa por transmitir o legado de nossa miséria.

Leite Derramado, de Chico Buarque – resenhado. Gostei muito desse romance.

Não Ficção:

A Era dos Extremos, de Eric Hobsbawn. Um excelente livro de história, traçando um amplo panorama do curto século XX, como define seu autor, partindo da Primeira Guerra Mundial até o colapso da União Soviética.

España y Viva la Muerte, Nikos Kazantzakis. Resenhado. O monstro grego relata suas viagens pela Espanha em tempos de guerra civil.

O Herói de Mil Faces, por Joseph Campbell – O autor traça paralelos entre vários mitos das mais diferentes culturas, para montar aquilo que chama de “Jornada do Herói”. Prato cheio para escritores e para aficionados por mitologia.

Aqui listarei dois por considerá-los obras complementares acerca da (pós)modernidade: Modernidade e Holocausto, de Zigmunt Bauman, que traça relações entre a modernidade e o nazismo, e Islam y Modernidad, do Slavoj Zizek, que tenta traçar um perfil do islamismo através de uma análise lacaniana.

A Sexta Extinção, da jornalista Elizabeth Kolbert, também já resenhado.

Depois das escolhas, vem o peso na consciência pelos que ficaram de fora. Há outros livros que resenhei por aqui e que podem ser ótimas opções de leitura. Dom Quixote e Grande Sertão: Veredas não entraram na lista por ser releituras.

Boas leituras para todos.

 

Vestígios do Antropoceno

“O que a história nos revela, com seus altos e baixos, é que a vida é muito resiliente, mas não dura para sempre. Houve longuíssimos períodos sem quaisquer eventos e muito, muito de vez em quando, “revoluções na face da Terra”.
Até onde podemos identificar as causas dessas revoluções, dá para ver que são bastante variadas: glaciação, no caso da extinção no fim do Ordoviciano; aquecimento global e mudanças na química dos oceanos no fim do Permiano; o impacto de um asteroide nos derradeiros segundos do Cretáceo. A extinção em curso tem sua própria causa original — não é um asteroide ou uma erupção vulcânica maciça, mas “uma espécie daninha”. Como me disse Walter Alvarez, “estamos observando, neste mesmo instante, que uma extinção em massa pode ser causada pelos seres hufmanos”.”

Elizabeth Kolbert, A Sexta Extinção – Uma História não Natural

Nesta obra de divulgação científica vencedora do Pulitzer de 2015, Kolbert relata as várias viagens que realizou nos últimos anos e as opiniões de grandes especialistas acerca do período geológico que estamos vivendo, o antropoceno, e suas implicações para o meio ambiente.

Traçando paralelos com outros períodos geológicos igualmente dramáticos para a biodiversidade, traz relatos das prováveis causas das cinco grandes extinções que ocorreram nos bilhões de anos em que a vida tem insistido em subsistir em nosso planeta. Passando por cavernas de morcegos dizimados por fungos, corais ameaçados pela acidificação dos oceanos, lagoas agora sem os anfíbios que lhes davam nome, montanhas já quase sem as neves que alentavam rios, vemos em nosso horizonte uma tenebrosa paisagem.

O livro está muito bem amarrado e documentado, e é um alerta contundente para aqueles que acreditam ser grande a diferença entre ter um livro nas mãos ou um machado:

“Embora seja ótimo imaginar que houve um tempo em que o homem vivia em harmonia com a natureza, não existem evidências de que isso tenha de fato acontecido.”

O ser humano destruiu e tem destru inúmeras espécies desde que pôs fim à megafauna, inclusive extinguindo outras espécies humanas. A autora pergunta “até onde iremos?” quando cita uma frase do ecologista de Stanford Paul Ehrlich: AO PRESSIONAR OUTRAS ESPÉCIES PARA A EXTINÇÃO, A HUMANIDADE ESTÁ SERRANDO O GALHO SOBRE O QUAL ESTÁ SENTADA.