O Eremita

Ilustração: O Ermitão da Montanha, por Doré

Há tantos anos nascia um nobre bebê, condicionado ao luxo e à ostentação. Tornar-se Papa, seu destino. Cresceu em grandes palácios e alumiado de ricos candelabros, até que de tudo se cansou. Ou teria se esquecido de todas as juras de fidelidade que fizera aos seus pais e à riqueza? E falou o que gritava seu coração: “Como posso ser sacerdote, se jamais encontrei Deus?” O príncipe passou a viver enclausurado em seu quarto, sonhando paraísos.
Todos os pensamentos voltados para ele em uníssono clamavam: “Enlouqueceu o nobre príncipe”, “Deve estar endemoninhado”, “Seu espírito foi dominado por uma das feiticeiras que habitam os postigos imundos ao redor do palácio”. Outros pensamentos mais jocosos alegravam os aduladores mais invejosos: “O tolo sempre mostra sua verdadeira natureza…”, “Deram-lhe asas, agora quer voar para as coisas do Céu…”. E, quando todos se reuniam, ecoavam as mesmas palavras, numa harmônica repetição: “Ah, é uma pena; o nosso príncipe seria um grande Bispo…”, ao que se seguiam exclamações e longos suspiros melancólicos.
Porém, o nobre saiu do claustro apenas para dar uma decepção ainda maior ao Reino e à família real: abandonaria o palácio, a riqueza, a honra, a família e o império. E tudo em busca de algo que nem mesmo sabia se existia! Como cometeram a heresia de querer que aquele louco fosse Papa?
O príncipe partiu, coberto apenas pela roupa do corpo e as maldições do povo.
O filho ingrato passou a peregrinar pelo mundo, aprendendo coisas com as quais jamais sonhara. Aprendeu a nadar numa bela manhã em que se refugiara de alguns ladrões num lago, no qual quase se afogou. Colhia frutos à beira dos rios, aprendeu a fazer fogo e infusões com o povo das colinas; nadava com os peixes e partilhava suas aventuras com os homens. Substituiu os farrapos reais por peles de carneiro e comia carne de porco com cerveja. Escalou montanhas até a exaustão, respirando o ar rarefeito e puro, para ficar mais próximo dos céus. No cume, as geleiras derreteram, algumas plantas surgiram: tudo era belo. Nas montanhas, encontrou toda espécie de plantas venenosas e animais peçonhentos. Lá havia menos peçonha que no mundo dos homens. Percebeu que a serpente não tenta a ninguém: só os humanos podem expulsar-nos do paraíso.
“Meu Deus da Terra, o Paraíso é aqui!”, pensava consigo mesmo e, às vezes, compartilhava tal pensamento com as serpentes e as águias ou outros animais que se aproximavam. Até mesmo às plantas falava, até perceber que apenas os humanos se importavam com o que dizia. Parou de falar e apenas pensava: “Meu Deus, o paraíso é aqui.”
Até que as palavras foram perdendo seu sentido ante a verdade pura, e pouco a pouco ele foi deixando de falar até mesmo a Deus, pois este também não respondia. As palavras foram minguando em sua mente:
“Meu Deus, o paraíso!”
Deus, o paraíso!
Deus!
…!
Meu!”
E aquele passou a ser seu reino. Passou a comer apenas figos e mel silvestres e a nadar sob o sol da manhã. Em seu íntimo, aquela era a única forma de alcançar a salvação.
Alternavam-se as estações, mudavam as paisagens, os espaços modificavam-se, mas o tempo parecia o mesmo, estático e inabalável. Doravante, o príncipe sem reino não tinha pressa no nado, não recordava os nomes das espécies animais que o circundavam, não lembrava dos rostos, nomes, dos bens ou males dos humanos que conhecera. Esqueceu o significado da palavra salvação. Ainda mais só em sua velhice, guardava uma vaga lembrança dos motivos que o haviam levado àquele lugar e da felicidade que sentira em outros tempos.
Esquecera-se definitivamente das línguas dos homens, dos seus símbolos, códigos e normas, ouvindo com prazer a música da floresta e os sussurros da noite antes silenciosa. Até que lhe chegou uma serpente, animal formoso e inteligente, e sussurrou-lhe, em linguagem bifurcada, um sibilo silente e carregado de melancolia, sem que pudesse o velho eremita perceber que o escutava e compreendia: “Faz tempo que não falamos com Deus.”
Buscou meios de responder à serpente, até que dominou novamente sua língua e sua garganta, rouca e ressequida e, após articular sons sem sentido, por fim sibilou:
“Onde está?”
E a natureza calou à sua volta. E calaram-se as próprias batidas do seu coração. E o homem morreu sem jamais ter compreendido a ausência de deus.

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