Versão inicial do primeiro capítulo dA Ceia das Cinzas

Natal

O ano do Senhor de mil quinhentos e trinta e um foi um ano de grandes prodígios e extraordinários acontecimentos. Um ano excepcional. Antes que o leitor mais atento e exigente contraponha-se, afirmando que todos os anos assim o são, como o demonstram as mais frugais retrospectivas, digo que em momento algum afirmei que os demais anos assim não o foram. Apenas afirmo que este o foi. Afora outros importantes feitos, as enciclopédias no futuro destacarão que neste ano que principia nossa história a vinte e seis de janeiro um terremoto em Lisboa engoliu com a bocarra da terra aberta ao menos trinta mil pecadores e alguns inocentes. Em onze de fevereiro, o rei da Inglaterra, Henrique Oitavo, pagão como seu povo, por lascívia e crueldade, sentimentos que fomentam os nascimentos das grandes religiões, cismou contra a igreja de Roma e declarou-se papa da igreja inglesa. Vinte e oito de março marcou a ascensão de Pires Aires Cabral a corregedor dos Açores. Na Cidade do México, devastada pelos espanhóis, os conquistadores fundaram a cidade-fortaleza de Puebla, em dezesseis de abril. Ainda no Novo Mundo, com o objetivo de divulgar a cristã piedade, Pizarro iniciou a conquista do selvagem Peru. Em primeiro de outubro a importante cidade de Kappel foi palco da batalha batizada com seu nome. Pestes espalhavam-se como o ar pela Europa e no Novo Mundo coroou o ano a aparição da Virgem de Guadalupe, em doze de dezembro.
Houve, porém, um fato de suma importância para nossa história e para a história nossa. Naquela época nascia Giambattista. No instante do seu nascimento passava uma estrela que caía no horizonte, atemorizando a noite e iluminando os temores daquela gente. Passou sobre a vila no momento em que sua mãe, dona Felipa, gritava, arfava e gemia, expulsando-o de si. Todos acharam que uma estrela caída seria um mau agouro, exceto sua mãe, que como qualquer outra acreditou ser um bom presságio: um anjo anunciando o salvador do mundo. E seu pai, dom Cristóbam, que não cria em bons ou maus presságios. Em verdade, dom Cristóbam só cria em Deus porque precisava de alguém para culpar pelos males do mundo. Se tais males vinham do diabo, culpado era o deus que o criara.
Os acontecimentos, à exceção do cisma inglês, levavam a crer numa vitória definitiva do cristianismo. A única coisa que matava mais que a peste, a fome e as guerras era a fogueira. O Santo Ofício apressava o Juízo Final, julgando os pecadores e enviando-os já em fogo para o inferno. Ninguém mais de deslumbrava com os avanços científicos dos renascentistas, que não explicavam os horrores da natureza, como animais disformes e chuvas de sangue. Sim, choveu sangue naqueles dias e, embora sua consistência parecesse com a de água vermelha, tais chuvas, associadas ao anjo pavoroso que passava cortando o céu com sua espada flamejante, obrigaram os europeus a abrigarem-se nas igrejas, aguardando com suplicantes orações o tão esperado fim do mundo.

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