Um rei mago

Livro Um

Capítulo Um

Os Reis Magos

Falar que chora o coração é mais que pura metáfora. Nosso coração pranteia mais do que poderiam nossos olhos suportar. Felizmente, não há vias naturais pelas quais possam esvair-se as lágrimas sangrentas que o coração derrama pelo nosso corpo quando lamuria-se no silêncio de uma dor aprisionada. Assim soluçaram os corações de Cristóbam e Felipa ao chegarem a Veneza, a belamente livre e livremente bela terra em que haviam batido ao mesmo ritmo pela primeira vez. A crônica sobrepusera-se à poesia de tal maneira que tais dias de felicidade pareciam pertencer a outros. A antiga felicidade ficou-lhes ainda mais alheada quando Cristóbam descobriu por intermédio de seu banqueiro que não havia qualquer ordem de pagamento em seu benefício. Seus corações choraram o desgosto de um paraíso perdido e de uma traição que os impediria de reavê-lo.
Somente o indulgente auxílio de Ariosto poderia salvaguardar aquela família errante. Os corações murmurando uma súplica, abalados pela expectativa, finalmente ultrapassaram a Porta Degli Angeli e viram-se cercados pelas seguras muralhas de Ferrara. A família Este transformara toda a cidade num gigantesco monumento em homenagem à arte e à ciência. Em meio à suntuosidade dos palácios e obras de arte, não era difícil identificar a simples casa de Ludovico Ariosto, com sua fachada de tijolos avermelhados e as nove largas janelas gravitando em torno de uma grande porta ovalar. Cristóbam leu a inscrição da fachada antes de bater: “Parva, sed apta mihi, sed nulli obnoxia, sed non sordida, parta meo, sed tamen aere domus”. Relembrou o orgulho que aquele homem sábio e importante guardava pela sua casa simples, porém aconchegante e, o mais importante, comprada com seu próprio dinheiro. Recobrou a esperança de auxílio de um homem simples e bom, e bateu a aldraba.
O largo e bondoso rosto de Alessandra Benucci surgiu na porta entreaberta, e logo expandiu-se num largo sorriso que os envolveu no aconchego da casa. Em poucos instantes surgia Ariosto de braços abertos, ao abraço de Cristóbam e Felipa. A simpatia entre o idoso e a criança foi mútuo. Antes que Cristóbam pudesse explicar a visita, o poeta falou-lhe:
– Lembra-te do meu poema Orlando Furioso? Acabo de receber alguns exemplares de sua edição definitiva – ao menos assim espero. Espera que já te trago um.
Daí a instantes voltou com um grosso volume ricamente encadernado.
– Dedicar-vos-ei este volume.
– Temo não poder pagá-lo por agora, Don Ludovico.
– Ora, Cristóbam. Não te devo dinheiro e nem poderia, já que não devo a ninguém. Contudo, contraí outras dívidas contigo. Vosso amor muito me inspirou, de modo que há versos nesse livro que vieram de tal fonte. Percebi que em eras de loucura é preciso lutar e amar loucamente. Quando assisti a vosso matrimônio, percebi quanto o amor é importante. Aceitai, se não como presente para vós, como um legado para vosso filho. Vosso amor motivou-me a trazer Alessandra para cá, mesmo sob o risco de perder os benefícios eclesiásticos.
– Amigo, foi nosso amor que aqui nos trouxe, em busca de tua mercê, pois ele não foi suficiente para evitar nossa ruína.
– Seria demasiado fácil acalentar um amor louco se não houvesse riscos. Os riscos e as penas nos mostram o valor do prêmio. Não merecerei ser criticado se vos der pouco, pois dar-vos-ei o que puder dar.