Quebra Cabeças

Há um tempo queria escrever um romance que funcionasse como uma memória literária, uma forma de falar sobre os livros que considero importantes na minha formação literária e humanística. Não sabia como fazê-lo, já que acho intragáveis romances com adolescentes em escolas, e não encontrava uma premissa que pudesse utilizar pra fazer isso, até ler o conto de Nivaldo Tenório, Quebra Cabeça, do livro Dias de Febre na Cabeça. O tema da amnésia não é exatamente novo, e está inclusive em evidência com os Romances Inferno e O lado bom da vida, mas não os li ainda. Foi de Nivaldo que roubei a ideia. Será um livro chato para leitores de entretenimento. Um livro sobre livros, basicamente, do tipo que agrada bibliófilos como eu. Seguem os primeiros capítulos:

Quebra Cabeças

Prólogo

Um matemático britânico pediu ao filho que desse nome a um número. O garoto disse: googou. Assim surgiu o nome de dez elevado à centésima potência.
Essa foi a primeira memória que ele conseguiu desenterrar do cemitério que era sua mente.

Capítulo Um

A dor invadiu seu ser como fosse todo ele olhos, quando os abriu. Eles fitaram diretamente uma luz branca que saía de algum lugar do infinito à sua frente. Tentou interrompê-la com a mão esquerda, cobrir a luz que queimava seus olhos. Não pôde: estava engessada e amarrada à cama.
Cobriu os olhos com a direita, que tinha um fio enfiado na veia. Não sentiu nada em particular ao pensar no furo em seu braço. Sentiu-se ultrajado ao perceber que havia tubos saindo de seu pênis e ânus. O corpo inteiro doía. Estava deitado sobre um colchão de dor.
Desviou seu olhar para o lado direito. Havia duas camas. Ao lado de ambas, tripés com bolsas penduradas, derramando-se por fios enfiados em homens deitados. Vizinho a ele, um homem jovem com uma perna amputada. Três pessoas igualmente jovens ao seu redor tentavam sorrir, desviando os olhares da perna ausente. No outro leito, um idoso dormia. Só. No seu lado esquerdo havia um leito vazio. Adiante, uma mulher gorda segurava a mão de uma criança que dormia, com uma máscara na face.
Não conseguiu sentir pena de ninguém. Nem de si mesmo.
Tentou lembrar porque estava ali. Não conseguiu. Buscou saber onde deveria estar, também sem sucesso. Havia uma luz na sua cabeça, e tentar fitá-la causava dor.
Sentiu-se integrado ao conjunto dos seres brutos, de todas as criaturas que, embora desconheçam seu propósito, conhecem muito bem o que é dor.

Capítulo Dois

O garoto foi o primeiro a perceber que ele se mexia. Apontou para ele sem nada dizer. Todos no quarto perceberam, com exceção do homem que dormia. Depois de semanas dormindo, seu leito parecia a todos tão ou mais vazio que o do lado, que recebera oito pacientes no mesmo período.
Após alguns instantes entreolhando-se, uma jovem saiu e gritou da porta:
– Enfermeira, ele acordou!
Não sentiu vontade de retribuir o sorriso que a enfermeira lhe atirou quando chegou à sua cama.
– Como se sente, senhor Anselmo?
As palavras foram atiradas em sua direção, o que o levou a deduzir que lhe eram endereçadas, embora o nome Anselmo lhe fosse tão familiar quanto as próprias pessoas que o cercavam, e faria o mesmo sentido se fosse atribuído a qualquer uma delas.
Tinha muitos questionamentos, mas todos eles pragmáticos. Parecia não ter grandes pendores filosóficos, pois não lhe passaram pela mente questões cruciais como quem era ou qual o sentido de ali estar. Queria apenas saber o que lhe acontecera e como poderia de lá sair. De qualquer maneira, não conseguiu formulá-las. Mal pôde abrir os lábios, um pigarro tapava sua garganta e a língua estava dormente. A enfermeira poupou-o do esforço de tentar falar, colocando uma mão sobre seu ombro:
– Não esforce-se, o senhor deve estar cansado. Passou três semanas em coma. Vou chamar o doutor.
Pareceu-lhe ilógico que alguém pudesse ficar cansado por dormir demais, mas, talvez pela dor que sentia, de fato achou melhor ficar calado. O médico chegou depois de quarenta minutos. Sua face não trajava a surpresa dos companheiros de quarto ou a alegria da enfermeira. Vestia algo entre o enfado e a indiferença. Falava a mesma língua que a sua. Falou de maneira direta, sem fingir simpatia, e ele se sentiu respeitado por tal atitude:
– Seu Anselmo, o senhor sofreu um acidente grave. Aparentemente, não prestou atenção à faixa de pedestres, ou enganou-se com o sinal. Foi atropelado. Quebrou um braço e duas costelas. Bateu com a cabeça. Tivemos que tirar um coágulo do seu cérebro. O cérebro do senhor conseguiu manter as atividades vitais básicas, mas o coma persistiu por três semanas. Pela sua musculatura, creio que tenha se dedicado à musculação por muitos anos. Isso provavelmente salvou o senhor de lesões mais graves nas pernas, que já estão praticamente recuperadas das luxações…
Ele interrompeu com o homem com enfado na voz:
– Quero sair.
O médico não estava acostumado a ser interrompido, em especial naquele tom. Entretanto, diante da selvageria no olhar daquele paciente que não fizera exatamente grandes amizades no hospital, decidiu ser complacente:
– Vamos fazer alguns exames. Se estiver tudo oquei, o senhor terá alta.
Um enfermeiro de nome Pedro foi enviado para acompanhá-lo ao laboratório. Antes, foi ao banheiro e percebeu-se no espelho: um homem idoso, cerca de setenta anos, barba irregular, tez rígida. Olhos raivosos. Achou que combinava com seu caráter de velho rabugento.
Não demonstrou dor durante os exames. Não seria a dor um empecilho ainda maior. Seu propósito era sair, embora não soubesse exatamente por que, ou para onde ir. Ninguém perguntou se estava com amnésia, tampouco ele o diria.
No dia seguinte outro médico procurou-o apenas para anunciar sua alta. Não gostou dele. Simpático demais. Instintivamente, desconfiava de pessoas muito educadas e bem vestidas, como se se preparassem para enganá-lo. Ao menos os exames tiveram resultados rápidos. À direção do hospital devia ter parecido vantajoso liberar seu leito. Na recepção encontrou uma moça de nome Vanessa, responsável por sua liberação.
– Aqui estão seus documentos, senhor Anselmo. Por sorte as pessoas que o socorreram não deixaram que sua carteira fosse roubada. Através deles consegui encontrar seu endereço no Google, para preencher sua ficha. Tentei entrar em contato com seu filho, mas ele está na Espanha e, depois do atentado em Bilbao as comunicações e o trânsito ficaram restritos. Ele não pôde vir acompanhá-lo.
Sua primeira memória veio na forma de um número. Seria um matemático? Provavelmente não, pois os números na ficha e nas telas o enfadavam. Tinha um filho, então. O que mais seu passado esconderia?
– Você poderia anotar o endereço, para o táxi? Não posso escrever com o braço assim.
– Já imprimi sua ficha. Seu endereço consta nela. O senhor deverá voltar em uma semana, para retirar o gesso. Seu Anselmo, sei que há uma resistência natural das pessoas a serem monitoradas, mas aconselharia o senhor a usar o chip. Facilitaria em muito sua vida. Até para informar o endereço ao táxi. Ou para acionar o plano de saúde. Aliás, o senhor sabia que houve um escritor com o mesmo nome do senhor?
– Não. Agradeço sua atenção. Até breve.
Pegou a ficha impressa, seus pertences e saiu. Por ter sido tão frio com a moça, sentiu um certo arrependimento, que só durou os passos no corredor até a porta. A luz do sol feriu seus olhos.

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