Quebra Cabeças – Capítulo Três

 Procurou um táxi. Queria sentar-se antes que a náusea tomasse conta de sua cabeça. Havia uma fila deles no outro lado da rua. Aproximou-se do primeiro e a porta traseira se abriu. Uma voz eletrônica disse “bom dia” e ficou sem resposta. Ele esfregou os olhos com o indicador e o polegar por alguns segundos, até sentir um pouco de alívio. Leu o endereço e disse em voz alta:

  • Rua Osvaldo Cruz, 82 – Vila Lacerda.

Uma impressora à sua frente cuspiu em amarelo, enquanto a mesma voz dizia: “São cento e oitenta reais, senhor.” Ele introduziu duas cédulas de cem, e a máquina expeliu um “Tenha uma boa viagem” junto com uma cédula de vinte reais. Torceu que a fechadura de sua casa não tivesse tranca com senha, ou não poderia entrar.

Começou a ler sua ficha. Data de entrada: catorze de março de dois mil e cinquenta e três. Anselmo Cerqueira Rocha Neto. Nascido em treze de janeiro de mil novecentos e oitenta e dois. Enfadou-o aquela ficha que não dizia nada e o táxi que demorava a ultrapassar os outros veículos. Amaldiçoou o velocímetro que não passava de sessenta por hora. Achou estranho que alguém que nada tinha pra fazer pudesse ser tão impaciente e riu e si mesmo. O riso foi mais um rosnado breve. Pegou-se a imaginar que tipo de casa encontraria. Sentiu um frio na barriga. Contudo, não teve tempo de ficar tenso: o táxi parou em frente a uma murada larga com um portão grande e uma porta, ambos de alumínio. Havia uma árvore pequena na calçada e um pinheiro enorme erguia-se sobre o muro. A porta do veículo abriu-se e a voz eletrônica soou “Agradecemos sua preferência. Tenha um bom dia.”

Tirou o chaveiro que recebera no hospital do bolso sem olhar para os lados. Não queria correr o risco de ser reconhecido por um dos vizinhos, que para seu terror poderiam abrir suas portas a qualquer momento. Testou as chaves com a angústia de um criminoso iniciante. O chaveiro chegou a cair de sua mão. Ainda por cima tinha que abrir com a mão direita. Abaixar-se para pegar as chaves lembrou-o da dor que perpassava seu corpo. Sussurrar “Caralho. Puta que pariu. Merda.” ajudou-o a levantar-se. Conseguiu abrir a porta no exato momento que a garagem da casa em frente se abria. Saltou pra dentro a tempo de não ser visto. Ou será que não? Ficou um tempo junto à porta, passando a chave lentamente, tentando não fazer barulho.

Tranquilizado pelo silêncio exterior, observou à sua volta. Um quintal de cinquenta metros quadrados. Três canteiros repletos de flores ao redor de árvores próximas ao centro e nas extremidades. No seu lado esquerdo, o canteiro estava abarrotado com pés de morango. Colheu quatro morangos vermelhos e mastigou-os. O gel que preenchia seu estômago para que não sentisse fome enquanto era alimentado apenas pelo soro enriquecido no hospital dissolveu-se, e a fome que sentiu foi excruciante. Teve que abrir duas portas, e encontrar suas chaves foi um extremo exercício de paciência. Não prestou atenção aos móveis que guarneciam a casa. Encontrou a geladeira. Bebeu um iogurte. Depois procurou nos armários até encontrar biscoitos doces. Estava só numa casa desconhecida. Tateava no escuro da memória, tentando aprender a conviver com a cegueira de não saber.

Saiu da cozinha e observou a sala. Havia um quadro grande na parede em frente à porta de entrada: dois homens cavalgam debaixo de um sol que aquece todo o céu em amarelo. Um moinho de vento ergue-se atrás deles. Ao lado, uma adega repleta de garrafas. Não quis sentar-se nos sofás confortáveis. Voltou ao jardim. As plantas estavam bem vivas, como se tivessem sido cuidadas durante sua ausência. Passou a mão pelo tronco do pinheiro, sentindo a aspereza de sua casca. Imaginou o que o pinheiro saberia que ele ignorava. Abaixo do pinheiro havia antúrios rubros. Tomou um cuidadosamente em suas mãos, as pontas dos dedos que saíam da tala sentindo a textura da grossa flor, e pensou que ele deveria significar algo.

Ajoelhou-se diante do canteiro e verteu suas primeiras lágrimas desde que acordara.

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