Criação Imperfeita

“Para existir, nosso cosmo precisa de desequilíbrio, e não de perfeição. (…) Talvez a verdade seja bem mais simples e mundana, que vivemos num cosmo imperfeito, muito diferente das nossas expectativas de simetria e beleza. Talvez tudo venha mesmo de uma pequena região excêntrica do cosmo.”
Marcelo Gleiser, Criação Imperfeita, pgs. 133 e 135.
Como a partir do próximo semestre vou tentar compreender o século dezesseis para escrever A Ceia das Cinzas, e as leituras de livros de história, biografias, atlas e a produção científica e literária do período vão consumir meus próximos anos, decidi distrair um pouco voltando a me divertir com livros de divulgação científica. Escolhi dois brasileiros que têm importante contribuição para suas áreas: Marcelo Gleiser e Miguel Nicolelis. O trecho acima tirei do primeiro, da segunda parte, na qual tenta explicar o Universo Inflacionário por meio do campo escalar. Na época da escritura, o bóson de Higgs ainda não tinha sido descoberto pelo THC, mas o autor explica muito bem a atuação dessas “partículas” tal qual foram teorizadas. Gleiser tem uma escrita elegante e sua maneira de explicar os conceitos torna a coisa ainda mais interessante. Mas não quero aqui falar sobre esses temas. O leitor que quiser compreender deve ler seu livro, já que ele é o especialista.
Recortei esses trechos porque se ligam de certa forma a algo que pretendo abordar no meu romance: a busca por uma elegância que talvez não seja parte da natureza. Um personagem interessantíssimo na história da ciência e que talvez apareça em algumas páginas da Ceia das Cinzas é Kepler, e ele empreendeu exatamente uma busca que quase o levou à loucura em busca da perfeição no cosmo. Ele partiu do princípio da perfeição geométrica e tentou prová-la, evidentemente sem sucesso.
Gleiser demonstra no seu ótimo livro que muitos cientistas permanecem nessa busca, o que em ciência é um contrassenso: a ciência deve partir da observação para construir hipóteses.
A ciência que busca uma Teoria de Tudo, uma Unificação, tem muito de resquício religioso, de uma escolástica do Absoluto.
É a religião que tira uma conclusão e parte em busca de provas, excluindo inclusive observações que sejam contrárias à sua verdade.
A trajetória de Kepler demonstra que agir dessa forma em ciência é contraproducente e pode ser destrutivo.