Zeitgeist

O romance histórico é uma ponte para compreender o tempo em que seu autor está inserido. Deve projetar-se em algo mais que um livro de curiosidade sobre determinada época, ou um livro de história. Para tanto o escritor deve escolher épocas que sirvam como espelho para a sua própria. Quanto mais estudo a transição da Idade Média ao Renascimento e os rudimentos do Iluminismo, mais percebo que a escolha desse período para A Ceia das Cinzas foi acertada.
Como a Europa do século dezesseis assemelha-se ao nordeste brasileiro em que cresci. Saber sobre o aconteceu ali é como ver um esboço dos movimentos que ocorrem aqui. O movimento de reforma questionando o catolicismo, sábios secularistas, circulação de ideias antes fechadas em círculos quase secretos, convivência entre superstição e cientificismo.
Um trecho do terceiro volume da História da Vida Privada, do artigo de Roger Chartier, As Práticas da Escrita, enche-me de esperança:
“‘Gabinete: local isolada nas casas comuns onde as pessoas estudam, onde se furtam ao resto do mundo e onde guardam o que têm de mais precioso. O local que contém uma biblioteca também se chama gabinete.’ Essa definição do Dictionnaire de Furetière indica claramente a nova condição da biblioteca: ela não é mais – ou nem sempre – local de ostentação social, destinado ao encontro mundano ou à ‘exibição’, para retomar a palavra de Pascal, mas torna-se o local onde as pessoas entesouram ‘o que têm de mais precioso’, livros úteis ou raros, naturalmente, porém sobretudo a si mesmas. O livro de propriedade pessoal e o local onde é guardado e consultado constituem, assim, objeto de atenções particulares, de uma multiplicidade de gestos.”

São cada vez mais comuns residências com gabinetes, embora num movimento ligeiramente diverso daquele: as que eu conheço pertencem em sua quase totalidade a leitores assíduos, livre-pensadores, escritores. Em essência, o protestantismo brasileiro ainda se assemelha muito ao catolicismo das massas medieval, com pouco espaço para livros diversos. Contudo, a ausência de símbolos também aqui deve impulsionar a necessidade da alfabetização, pois o único contato do fiel com o sagrado se dá por meio da leitura.

Os livros levaram a Europa à Idade Moderna. E nos levarão ao futuro.

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