Zeitgeist II

Mais uma vez o volume 3 da História da vida privada, dessa vez o artigo A Distinção pelo Gosto, de Jean-Louis Flandrin, página 267:

“Sem dúvida, não foi por acaso que essas distinções sociológicas se multiplicaram no momento em que os utensílios de mesa se tornaram mais complexos. Não só se procura a distinção de modo mais sistemático que na Idade Média, como é possível obtê-la sem maiores esforços, adotando-se utensílios aos quais os pobres dificilmente tinham acesso. Assim, da mesma forma que a depuração da língua ou os progressos da cultura escrita, as novas maneiras de comportar-se à mesa sem dúvida ampliaram o fosso entre as elites sociais e as massas populares.”

Essa busca pela distinção através de barreiras sociais persegue os países católicos até o presente. De outro país católico de terceiro mundo vem a melhor paródia disso: quem não conhece a frase “Venha, tesouro, não se misture com essa gentalha”? Esse sentimento de Dona Florinda é generalizado, em especial nas classes médias. É comum ver membros da classe média irritados com a presença da “gentalha” em espaços que deveriam demarcar condições financeiras, como shopping centers e restaurantes, preferindo que tais locais encareçam produtos e serviços como forma de garantir a manutenção das barreiras.

É comum ouvir o discurso da meritocracia, embora quando se vai a fundo nos paradigmas percebamos que a meritocracia tem relação não com o esforço individual, e sim com o privilégio de classe. Não se reconhece, por exemplo, o mérito do pobre que estuda ao mesmo tempo em que trabalha, e não tem acesso aos melhores colégios e cursinhos. Apenas aquele que nunca trabalhou, sempre pode dedicar-se exclusivamente ao estudo, tem o verdadeiro “mérito”. É horrível que este jovem que tanto estudou seja sujeitado a conviver com a “gentalha”.

Esse sentimento gera fatos hilários, como a pessoa de baixa estratificação social que considera símbolo de status comer no McDonald’s, aqueles que veem glamour em frequentar aeroportos, o sujeito que passa a usar havaianas em público quando o uso passa a ser socialmente aceitável (é comum que manifestações de cunho popular, na culinária ou nas artes, sejam desprezadas pela classe média até que ganhem a licença das classes mais altas). A situação mais engraçada é a do público que reclama que o espaço VIP em vestas é cada vez maior. Se cada vez mais pessoas querem pagar pela distinção de ser VIP, aqueles que pagavam por isso antes já não se sentem tão VIP’s assim.

Obviamente, o movimento de distinção atinge todos os extratos sociais. É comum ver pessoas com subempregos destilarem ódio contra beneficiários de programas governamentais de assistência. Se a classe média considera vagabundos aqueles que não estudam para melhorar de vida e ficam presos a trabalhos manuais, esses se distinguem pelo trabalho dos “vagabundos” que não têm emprego. Por outro lado, os ricos também querem distanciar-se da classe média.

Perceba que é comum ouvir daqueles que defendem o mérito frases como “Meu avô veio da Itália sem nada” ou “Meu pai passou fome antes de construir o que tem”. O mérito é hereditário e transmissível, e dá àqueles que o possuem pelo sangue direitos que deveriam ser vedados aos demais.

É de se destacar que o conceito de “meritocracia” foi erigido numa sociedade bacharelesca, em que cursar uma faculdade tinha a ver com conseguir um cargo ou função pública, e não com trabalho. O romance Memórias Póstumas de Brás Cubas nos dá uma visão crua do “mérito” defendido pela classe média, naquela época intimamente vinculada ao conceito de corte. O importante é o jaleco branco ou a toga negra, e não o que se faz com eles. Essas vestes não simbolizam um serviço, mas uma nobreza. Uma tradição que chegou até nós.

Com a expansão da educação pública e os canais de acessibilidade da “gentalha”, não será surpreendente quando as faculdades privadas mais caras passarem a ser as mais conceituadas pela classe média. Afinal, quanto mais caro mais difícil que o filho do porteiro venha ousar sentar na mesma sala ao lado do meu “tesouro”.

 

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