Reading Upward, artigo de Tim Parkes no site da The New York Review of Books

Apresento abaixo uma versão do artigo Reading Upward, de Tim Parkes. Como é um tema que sempre surge nas conversas informais e formais sobre literatura de que participo, inclusive na que participei ontem no SESC Garanhuns, com Fernando Monteiro, considero interessante a opinião do articulista. Minha versão está abaixo de cada parágrafo original. Se o leitor encontrar alguma inconsistência na minha versão, por favor me corrija.
“Frankly, I don’t mind what they’re reading, Twilight, Harry Potter, whatever. So long as they are reading something there’s at least a chance that one day they’ll move on to something better.”
“Francamente, não importa o que estão lendo, Crepúsculo, Harry Potter, o que for. Desde que estejam lendo algo há pelo menos a chance de que um dia eles passarão para algo melhor.”
How many times have we heard this opinion expressed? On this occasion the speaker was a literary critic on Canadian radio with whom I was discussing my recent blog post “Reading: The Struggle.” Needless to say the sentiment comes along with the regret that people are reading less and less these days and the notion of a hierarchy of writing with the likes of Joyce and Nabokov at the top and Fifty Shades of Grey at the bottom. Between the two it is assumed that there is a kind of neo-Platonic stairway, such that from the bottom one can pass by stages to the top, a sort of optimistic inversion of the lament that soft porn will lead you to hard and anyone smoking marijuana is irredeemably destined to descend through coke and crack to heroin. The user, that is, is always drawn to a more intense form of the same species of experience.
Quantas vezes já ouvi essa opinião? Nessa ocasião o falante era um crítico literário com quem eu discutia a postagem recente do meu blog “Leitura: A labuta”, numa rádio Canadense. Desnecessário dizer o sentimento de pesar que me vem ao pensar que pessoas estão lendo cada vez menos esses dias e a noção das pessoas de que há uma hierarquia de livros com aqueles como Joyce e Nabokov no topo e Cinquenta Tons de Cinza na base. Entre a base e o topo, assume-se que há uma espécie de escada neo-platônica, através da qual se pode passar pelos degraus de uma ao outro, um tipo de inversão otimista do lamento de que pornografia leve pode levar à pesada ou que alguém que fuma maconha está irremediavelmente destinado, passando por cocaína e crack, a chegar à heroína. Ou seja, o usuário vai sempre em busca de maior intensidade na mesma espécie de experiência.
Of course, while the fear that one will descend from soft to hard drugs tends to be treated as a near certainty, the hope that one might ascend from Hermione Granger to Clarissa Dalloway is usually expressed as a tentative wish. Nevertheless, it serves to justify the intellectual’s saying, “Frankly, I don’t mind what they’re reading, etc.” (as if this were some kind of concession), and underwrites our cautious optimism when we see an adolescent son or daughter immersed in George R.R. Martin. It’s not Dostoevsky, but one day it might be, and in any event it’s better than a computer game or TV since these are not part of the reading stairway.
Claro, enquanto o medo de que alguém cairá de drogas leves para pesadas tende a ser tratado quase como uma certeza, a esperança de alguém pode ascender de Hermione Granger [acho que personagem de Harry Potter] para Clarissa Dalloway [da escritora Virginia Woolf] é comumente expressa sem muita convicção. De qualquer forma, serve para justificar a fala do intelectual que diz “Francamente, não importa o que estão lendo…” (como se fosse uma espécie de concessão), e sublinha nosso cauteloso otimismo quando vemos um filho adolescente imerso em George R. R. Martin [Game of Thrones – Crônicas de Gelo e Fogo]. Não é Dostoievsky, mas um dia poderá ser, e de todo modo é melhor que um vídeo game ou TV, já que esses não são degraus da escada da leitura.
Is any of this borne out by reality? Do people really pass from Fifty Shades of Grey to Alice Munro? (Through how many intermediate steps? Never to return?) And if it is not true why does a certain kind of intellectual continue to express them? To what end?
Há algum embasamento na realidade para esta opinião? As pessoas realmente passam de Cinquenta Tons de Cinza para Alice Munro? (Através de quantos níveis intermediários? E nunca voltam?) E, se não é verdade, por que um certo tipo de intelectual continua a afirmá-lo? Com que finalidade?
In 1948 W.H. Auden published an essay, “The Guilty Vicarage,” on what he calls his “addiction” to detective novels. The point he makes is that these schematic narratives serve the escapist needs of readers who share his particular psychological make-up. These people will not, as a rule, Auden claims, with some elaborate argument, be the same readers as readers of light romances or thrillers, or fantasy fiction. Each genre has its pull on different types of minds. In any event, if he, Auden, is to get any serious work done, he has to make sure that there are no detective novels around, since if there are he can’t resist opening them, and if he opens them he won’t close them till he’s reached the end. Or rather, no new detective novels; for Auden notes this difference between the stuff of his addiction and literature: that the detective novel is no sooner read than forgotten and never invites a second reading, as literature often does.
Em 1984 W. H. Auden publicou um ensaio, “O Vicariado Culpado [não sei como se chama o local que o vicário habita em português, acho que não existe palavra correlata, talvez algo como casa paroquial, embora aqui pareça indicar mais uma função que o lugar]”, no qual ele invoca seu vício por romances policiais. Ele defende que essas narrativas esquemáticas servem às necessidades de fuga da realidade de leitores que partilham um tipo psicológico particular. Tais leitores não serão, como regra, Auden afirma, com alguns argumentos elaborados, os mesmos leitores que os de romances melosos ou suspense, ou fantasia. Cada gênero tem seu nicho de tipos diferentes de mentes. De qualquer modo, se ele vai fazer qualquer trabalho sério, tem que manter à distância qualquer romance policial, pois se abri-lo não poderá fechá-lo até terminar. Ou melhor, romances policiais novos: para Auden há uma clara diferença entre seu vício e literatura: tão logo o romance policial é lido, é esquecido e não demanda uma segunda leitura, o que a literatura faz amiúde.
The implications are clear enough. Auden denies any continuity between literary novels and genre novels, or indeed between the different genres. One does not pass from lower to higher. On the contrary one might perfectly well fall from the higher to the lower, or simply read both, as many people eat both good food and junk food, the only problem being that the latter can be addictive; by constantly repeating the same gratifying formula (the litmus test of genre fiction) it stimulates and satisfies a craving for endless sameness, to the point that the reader can well end up spending all the time he has available for reading with exactly the same fare. (My one powerful experience of this was a spell reading Simenon’s Maigret novels; after five or six it gets harder and harder to distinguish one from another, and yet one goes on.)
As implicações são claras o suficiente. Auden nega qualquer continuidade entre romances literários e romances de gênero, ou mesmo entre gêneros diferentes. Não se passa do mais baixo para o mais alto. Pelo contrário, é perfeitamente possível que se caia do mais alto para o mais baixo, ou simplesmente ler a ambos, assim como as pessoas comem tanto comida rápida como requintada, sendo o grande problema qual será a mais viciante; pela repetição constante da mesma gratificante fórmula (a prova de fogo da ficção de gênero [obs. litmus test se refere ao teste químico para saber se uma substância é ácida ou alcalina, e usada nesse contexto fica sem sentido em português, o mais próximo no meu entender seria a navalha de Occam, mas muito longe de um uso mais massivo como o outro]) ele estimula e satisfaz a ânsia pela mesmice sem fim, a ponto do leitor acabar dispendendo todo seu tempo disponível em ler exatamente a mesma coisa. (Minha própria experiência poderosa disto foi a leitura das histórias de Maigret, de Simenon: depois de cinco ou seis fica cada vez mais difícil distinguir uma da outra, e mesmo assim a gente continua.)
Auden, it should be noted, does not propose to stop reading detective novels—he continues to enjoy them—and expresses no regret that people read detective novels rather than, say, Faulkner or Charlotte Brontë, nor any wish that they use detective novels as a stepping stone to “higher things.” He simply notes that he has to struggle to control his addiction, presumably because he doesn’t want to remain trapped in a repetitive pattern of experience that allows no growth and takes him nowhere. His essay, in fact, reads like the reasoning of someone determined to explain to himself why he must not waste too much time with detective novels, and at the same time to forgive himself for the time he does spend with them. If anything, genre fiction prevents engagement with literary fiction, rather than vice versa, partly because of the time it occupies, but more subtly because while the latter is of its nature exploratory and potentially unsettling the former encourages the reader to stay in a comfort zone.
Note-se que Auden não pretende parar de ler romances policiais – ele continua curtindo-os – nem expressa qualquer pesar pelas pessoas lerem mais romances policiais que, digamos, Faulkner ou Charlotte Brontë, ou qualquer desejo que eles usem esses romances como um degrau para “coisas mais elevadas”. Ele simplesmente nota que tem dificuldade de controlar seu vício, provavelmente porque não quer ficar acorrentado a um modelo repetitivo de experiências que não leva a crescimento e não o leva a lugar nenhum. Seu ensaio, de fato, soa como uma racionalização de alguém determinado a explicar para si mesmo porque não deve gastar muito tempo lendo romances policiais ao mesmo tempo em que perdoa a si mesmo pelo tempo que gasta com eles. Se há uma relação, ficção de gênero impede envolvimento com ficção literária mais do que o contrário, em parte em virtude do tempo que ela ocupa, mas mais sutilmente porque, enquanto a última tem como essência territórios inexplorados e potencialmente desconfortáveis, a primeira encoraja o leitor a permanecer numa zona de conforto.
I’m forced to pause here to admit the objection that much supposedly literary fiction also repeats weary formulas, while some novels marketed as genre fiction move toward the exploratory by denying readers the sameness the format led them to expect. And of course many literary writers have made hay “subverting” genre forms. However, if the “I-don’t-mind-people-reading-Twilight-because-it could-lead-to-higher-things” platitude continues to be trotted out, it is because despite all the blurring that has occurred over recent years, we still have no trouble recognizing the difference between the repetitive formula offering easy pleasure and the more strenuous attempt to engage with the world in new ways.
Sou forçado a dar uma pausa para admitir que muito provavelmente a literatura de ficção também repete fórmulas, enquanto alguns romances anunciados como de gênero movem-se em novos terrenos negando aos leitores a mesmice que eles esperam. E com certeza muitos escritores literários cresceram “subvertendo” os gêneros. De qualquer forma, se o lugar-comum “Eu não me preocupo se leem Crepúsculo, pois pode levar a leituras mais elevadas” continua a ser bradado é porque, a despeito de toda a atenuação que ocorreu nos últimos anos, ainda não temos dificuldade de reconhecer a diferença entre a fórmula repetitiva oferecendo lazer fácil e a mais extenuante tentativa de despertar novos rumos.
So do people pass from the genre to the literary up our neo-Platonic ladder? Do they discover Stieg Larsson and move on to Pamuk? With no studies or statistics available to settle the question—at least I have not come across any—I can only resort to anecdotal evidence, as a father of three and a university teacher for many years. And the first thing to say is that no one has ever spoken to me of making this progression. My children all enjoyed listening to the classic canon of children’s stories in their infancy, but this did not automatically lead to “serious reading” later on, despite, or quite possibly because of, their parents’ highly developed reading habit. My son spent his adolescence switching back and forth between computer games and compulsive rereadings of The Lord of the Rings, equally happy with both forms of entertainment. Later, he gathered together complete collections of Jo Nesbø and Henning Mankell. When I have suggested trying the work of certain novelists I like—Coetzee, Moravia—his complaint is invariably that they are too disturbing and too close to home. My eldest daughter oscillates between pulp fiction and literary fiction with the greatest of ease, perfectly aware of the entirely different pleasures they offer. My youngest daughter pursues vast fantasy chronicles and seems entirely happy with them; they have never prompted her to consider opening any of the more literary works our bookshelves are stacked with. In fact she reads fantasy chronicles because they are not to be found on the family bookshelves and offer a distinctly different experience from literary fiction. She does not want, she says, to be troubled with the kind of realities she sees quite enough of. She likes the costumed world of bold exploits and special powers.
Pessoas passam dos gêneros para a literatura em nossa escala neo-platônica? Descobrem Stieg Larsson e passam a Pamuk? Sem estudos ou estatísticas para responder esta questão – ao menos eu não tenho nenhuma – só posso recorrer ao que percebo enquanto pai de três crianças e professor universitários por vários anos. E a primeira coisa que devo dizer é que ninguém jamais me falou sobre alguma progressão desse tipo. Todos os meus filhos gostavam de ouvir os clássicos infantis “canônicos” em sua infância, mas isso não os levou automaticamente a “leituras sérias” posteriormente, a despeito de ou talvez por causa dos elevados hábitos de leitura de seus pais. Meu filho passou sua adolescência em idas e vindas entre jogos de videogame e releituras de O Senhor dos Anéis, igualmente feliz com ambas as formas de entretenimento. Mais tarde, reuniu coleções completas de Jo Nesbø e Henning Mankell [escritores do norte europeu que desconheço]. Quando eu sugeria que tentasse ler algum romancista que eu gosto – Coetzee, Moravia – sua resposta era invariavelmente que eles são muito perturbadores e mechem muito com a gente. Minha filha mais velha oscila com considerável leveza entre ficção pulp e literária, perfeitamente cônscia dos prazeres totalmente diferentes que elas proporcionam. Minha caçula se ocupa com grandes livros de fantasia e parece inteiramente feliz com eles, os quais nunca a incitaram a pensar em abrir nenhuma das muitas obras literárias das quais nossas estantes estão cheias. Na verdade, ela lê fantasia porque não a encontra nas estantes da família e oferece uma experiência bem distinta da ficção literária. Ela não quer, afirma, se envolver com o tipo de realidade da qual ela já tem o bastante. Gosta do mundo caracterizado por atos de bravura e heroísmo e poderes especiais.
When I speak to my students, what is most striking is that the majority of them, who are content on a diet made up exclusively of genre fiction, simply do not perceive any difference in kind between these and literary works; they do not see the essentially conservative nature of the one and the exploratory nature of the other. They register no need to widen their reading experiences. Often they propose theses on genre works of no distinction whatsoever, unable to understand why their teachers might put these in a different category from, say, Doris Lessing or D.H. Lawrence.
Quando converso com meus alunos, o que é mais impactante é que a maioria deles, que estão satisfeitos com uma dieta exclusiva de ficção de gênero, simplesmente não percebem qualquer diferença entre aquela e obras literárias; não conseguem enxergar a natureza conservadora de uma e a exploratória da outra. Destacam ser desnecessário compartilhar suas experiências de leitura. Várias vezes defendem a tese de que livros de gênero não têm diferença dos outros, inaptos a entender porque seus professores colocam-nos numa categoria diferente de, digamos, Doris Lessing ou D. H. Lawrence.
If we assume, then, for the sake of argument and in the absence of persuasive information to the contrary, that narratives do not form a continuum such that one is naturally led from the simpler to the more complex, but offer quite different experiences that mesh with readers’ psyches and requirements in quite different ways, why do the right-thinking intellectuals continue to insist on this idea, even encouraging their children to read anything rather than nothing, as if the very act of reading was itself a virtue?
Se assumirmos, então, pelo bem do argumento e na ausência de dados persuasivos em contrário, que narrativas não formam um continuum tal que alguém é levado naturalmente da mais simples para a mais complexa, mas oferecem experiências completamente diferentes que envolvem a psique dos leitores e os engaja de maneiras completamente diferentes, por que intelectuais honestos continuam insistindo nessa ideia, e mesmo encorajando seus filhos a ler qualquer coisa (ensinando que ler qualquer coisa é melhor do que nada), como se o simples ato de ler fosse em si mesmo uma virtude?
It’s evident that publishers have a commercial interest in the comforting notion that any reading is better than none. They can feel virtuous selling a hundred million copies of Fifty Shades, strong in the hope that at least some of those folks might move on to Pulitzer and Nobel winners, and perhaps eventually to some of the more obscure and adventurous writers in their stables — just as, in Fifty Shades itself, the heroine Anastasia can indulge in a little S&M as part of a project to lead Christian Grey out of his perversion and on to the joys of the missionary position in conventional wedlock. It’s always a relief to have reasons for supposing that what one is doing might have a bit more to it than the merest self-interest.
É evidente que as editoras têm um interesse comercial na noção confortante de que qualquer leitura é melhor que nenhuma. Eles podem se sentir virtuosos ao vender cem milhões de cópias de Cinquenta Tons de Cinza, firmes na esperança de que no fim alguns desses leitores podem migrar para ganhadores do Pulitzer ou do Nobel, e talvez, eventualmente, para alguns dos mais obscuros e intrépidos escritores em suas fileiras – assim como, em Cinquenta tons, a heroína Anastásia pode prover um pouco de sadomasoquismo como parte de um projeto para livrar Christian Grey de sua perversão e se entregar às delícias do papai e mamãe do matrimônio convencional.
At a deeper level, there is a desire to believe in an educational process that puts the intellectual in a pastoral relationship to an ingenuous public who must be coaxed in a positive direction; that is, the notion of this pathway upward from pulp to Proust allows for the figure of the benign educator who takes the hands of blinkered readers and leads them from the stable to the stars, as the Italians say. It’s good to posit a scheme of things in which possibly obsolete skills like close reading and critical analysis in fact have an important social role.
Num nível profundo, há o desejo de acreditar num processo educacional que coloca o intelectual numa relação pastoral em relação a um público ingênuo que deve ser colocado no bom caminho; isto é, a noção deste terreno elevado ascendendo do pulp para Proust permite à figura do bom educador segurar a mão de leitores cegos e levá-los do estábulo até as estrelas, como dizem os italianos. É bom postar-se num sistema de coisas no qual habilidades possivelmente obsoletas como leitura acurada e análise crítica têm sua importância social.
What no one wants to accept—and no doubt there is an element of class prejudice at work here too—is that there are many ways to live a full, responsible, and even wise life that do not pass through reading literary fiction. And that consequently those of us who do pursue this habit, who feel that it enriches and illuminates us, are not in possession of an essential tool for self-realization or the key to protecting civilization from decadence and collapse. We are just a bunch of folks who for reasons of history and social conditioning have been blessed with a wonderful pursuit. Others may or may not be enticed toward it, but I seriously doubt if E.L. James is the first step toward Shakespeare. Better to start with Romeo and Juliet.
O que ninguém quer aceitar – e não há dúvidas de que há um sentimento de classe que também prejudica essa tarefa – é que há muitas maneiras de viver uma vida plena, responsável e até mesmo sábia que não passa pela leitura de literatura. E que, consequentemente, aqueles que, como nós, mantêm esse hábito, que se sentem enriquecidos e iluminados por ele, não possuem uma ferramenta essencial de auto-realização ou uma chave para proteger a civilização da decadência ou colapso. Somos apenas um povo que, por razões de condicionamento histórico e social, foi abençoado com um hábito maravilhoso. Outros podem ou não ser atraídos por ele, mas eu sinceramente duvido que E. L. James seja o primeiro passo para Shakespeare. Melhor começar com Romeu e Julieta.

Anúncios

Fogueira de LED

O encontro sobre Literatura e outras mídias, que se iniciou ontem no Sesc Garanhuns, promete muito pra hoje, com Wilson Freire. Ontem, Lourival Holanda e Renata Pimentel deram um verdadeiro espetáculo. Confesso que a primeira vez que ouvi o Lourival, em outro evento do Sesc, fiquei meio decepcionado. Mas ontem ele mostrou que é foda mesmo. Definições incríveis em poucas palavras, e uma paixão genuína pela literatura.
Destaque para a falta de luz. A conversa ficou ainda mais intimista, e o público sentiu-se mais à vontade para participar. Uma única luz de led iluminando a biblioteca, senti-me em volta de uma antiga fogueira, ouvindo e interagindo com os sábios da tribo.
Não seria de todo ruim de faltasse energia hoje novamente.

Novas maneiras de avaliar a leitura

Com o advento do formato digital, a venda de exemplares pura e simples tende a deixar de ser o principal objetivo do mercado editorial. Abaixo um artigo de Matthew Yglesias que traduzi livremente, que mostra como o negócio de aluguel de livros tende a tornar ser lido mais importante que ser vendido:
The biggest difference between Web journalism and print journalism is that on the Web both publishers and advertisers have some idea about what readers are actually doing, and this naturally ends up informing both the commercial and editorial sides of what we do. Thanks to e-readers, similar analytic power is coming to the world of books:
Scribd is just beginning to analyze the data from its subscribers. Some general insights: The longer a mystery novel is, the more likely readers are to jump to the end to see who done it. People are more likely to finish biographies than business titles, but a chapter of a yoga book is all they need. They speed through romances faster than religious titles, and erotica fastest of all.
At Oyster, a top book is “What Women Want,” promoted as a work that “brings you inside a woman’s head so you can learn how to blow her mind.” Everyone who starts it finishes it. On the other hand, Arthur M. Schlesinger Jr.’s “The Cycles of American History” blows no minds: fewer than 1 percent of the readers who start it get to the end.
Oyster data shows that readers are 25 percent more likely to finish books that are broken up into shorter chapters. That is an inevitable consequence of people reading in short sessions during the day on an iPhone.
One difference between books and periodicals is that since the book publishing industry has never been based on advertising, getting people to actually read books has never been a particularly important part of the book industry. The point is to sell books. A beloved book might be passed around between friends and family, checked out of libraries, re-read every two or three years, or whatever. Alternatively, some new founding fathers biography might be bought as a gift for thousands and thousands of people who leave it on the coffee table for a few months without ever really reading it. It’s the latter scenario where the publisher actually makes money.
At any rate, articles on the use of analytics in media production are supposed to feature some hand-wringing about the nature of the creative process. But I think only uncreative people use data to stymie creativity. And certainly that’s an option. The more you know about your audience, the more precisely you can implement a strategy of “precisely copy what’s working elsewhere.” But a person who wants to innovate can also take advantage of data to do so. After all, suppose you want to try some new things. Wouldn’t you like to know which of those things works so you can iterate?
Matthew Yglesias is Slate’s business and economics correspondent. He is the author of The Rent Is Too Damn High.
Tradução Livre:
A maior diferença entre jornalismo digital e impresso é que no digital tanto editores quanto anunciantes têm alguma ideia sobre o que os leitores realmente estão fazendo, e isso naturalmente acaba informando-os os caminhos que devem trilhar os departamentos editoriais e comerciais. Graças aos leitores digitais, uma possibilidade de análise similar está chegando ao mundo dos livros:
O Scribd está só começando a analisar os dados dos seus assinantes. Alguns vislumbres iniciais: Quanto mais longo um romance de mistério, maior a chance de leitores pularem para o fim para saber o resultado da investigação (quem é o criminoso). Pessoas terminam com mais frequência biografias que livros de negócios, mas um capítulo de um livro de yoga é tudo de que precisam. Eles passam mais rápido (diria que a melhor tradução seria leem, mas não posso afirmar com certeza, tendo em vista a não disponibilização dos dados completos) por histórias de amor que por títulos religiosos, e eróticos mais rápido do que todos.
Para a Oyster, um grande livro (no sentido da pesquisa) é “What Women Want” (O que as mulheres querem), propagandeado como uma obra que “leva você pra dentro da cabeça de uma mulher até que você aprenda a moldar (controlar – conquistar) sua mente”. Todo mundo que começa a lê-lo termina. Por outro lado, “Os Ciclos da História Americana”, de Arthur M. Schlesinger Jr., não molda (controla – conquista) mentes: menos de um por cento dos leitores que o iniciam chegam ao final.
Os dados da Oyster mostram que 25 por cento mais leitores terminam livros divididos em capítulos curtos. Uma inevitável consequência de as pessoas dividirem as leituras em pequenos intervalos para leitura no iPhone ao longo do dia. (Dessa análise eu discordo – leitores do livro de papel também tendem a ler um capítulo por vez, e capítulos longos acabam afastando-os da leitura).
Uma diferença entre livros e periódicos é que propaganda nunca foi a base da indústria livreira: levar pessoas a realmente ler os livros nunca foi seu foco. O foco sempre foi vender os livros. Um livro amado pode passar do dono para familiares e amigos, encontrado fora das livrarias, relido a cada dois ou três anos et Cetera. Alternativamente, uma nova biografia de um dos Pais Fundadores pode ser adquirida como presente por milhares e milhares de pessoas, para ser posta numa mesa de café por alguns meses sem jamais ser de fato lida. E é com este último cenário que os editores de livros ganham dinheiro. (Isso é particularmente verdadeiro com livros religiosos).
De qualquer forma, o uso de artigos com análises de produção de mídia deveria ser importante no trabalho sobre a natureza no processo criativo. Só acho contraproducente que pessoas usem esses dados para frear a criatividade. E isso certamente é uma opção. Quanto mais você conhece sobre seu público, mais precisamente você pode implementar uma estratégia de “copiar precisamente o que funciona”. Mas uma pessoa que quer inovar também pode tirar vantagem desses dados para fazer isso. Concluindo, suponhamos que você queira tentar algo novo: você não gostaria de saber qual dessas coisas funciona, para que possa (re) utilizá-la?