Retrato do artista quando velho

Nessa obra-prima da literatura W Somerset Maugham nos apresenta um desses personagens que causam tamanho fascínio que não conseguimos votar-lhes o ódio merecido, apesar de sua crueldade. Charles Strickland, burguês padrão, casado, trabalhador pai de um casal, decide abandonar essa vida. As desconfianças de todos caem no óbvio: deve ter uma amante. O personagem narrador, incumbido de ser o emissário que deverá trazer o quarentão iludido de volta ao seio familiar, descobre que nada com Strickland será óbvio: ele foi embora porque precisa pintar, como um homem que se afoga precisa nadar, independentemente de seu talento para isso. Vemos um artista obsecado por sua arte, indiferente a qualquer conforto ou a qualquer sentimento de terceiros, não se importando se destruirá o lar e mesmo a vida de quem lhe estender a mão. Os personagens que emolduram a perspectiva de Strickland são também memoráveis. Como as mais belas naturezas mortas, a crueza dos tons chama a atenção para todos os detalhes, lançando luz e sombras sobre a nossa compreensão do humano.