Os números de 2015

Depois de muito tempo parado, voltei a publicar no blogue na último trimestre. Prometo tentar manter o ritmo daqui pra frente. O WordPress.com preparou um relatório para o ano de 2015 deste blogue.

Aqui está um resumo:

Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 240 vezes em 2015. Se fosse um bonde, eram precisas 4 viagens para as transportar.

Clique aqui para ver o relatório completo

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Lista de Melhores do Ano

Listas de melhores do ano são uma tradição em blogues literários, então deixarei a minha, que, se não for útil para os leitores, ao menos será para o autor, num futuro longínquo em que queira rememorar quais livros merecem uma releitura (e de quais devo me afastar). Dividi em categorias aleatórias, e em alguns casos não sei bem explicar por que um livro está numa categoria e não em outra, sendo essa decisão puramente subjetiva.
Não-Ficção:
The Problems of Philosophy – Bertrand Russel
Os Dragões do Éden – Carl Sagan
A Civilização do Espetáculo – Mario Vargas Llosa
El Fin de la Fe – Sam Harris
Uma Temporada no Holiday – Giba Carvalheira

Teoria e Crítica Literária:
Clases de Literatura – Julio Cortázar
Sin Trama y sin Final – Anton Pavlovich Chejov
A Jornada do Escritor – Christopher Vogler
El Arte de La Novela – Milan Kundera
Sábados Inquietos – José Castello

Entretenimento:
A Tormenta das Espadas – George R. R. Martin
O Diamante de Jerusalém – Noah Gordon
The Walking Dead – A Ascensão do Governador – Robert Kirkman e Jay Bonansinga
O Cemitério – Stephen King
Número Zero – Umberto Eco
A Livraria 24 Horas do Mr. Penumbra – Robin Sloan
O Cavaleiro dos Sete Reinos – George R. R. Martin
The Adventures of Sherlock Holmes – Arthur Conan Doyle
As Minas do Rei Salomão – Henry Rider Haggard
A Fúria dos Reis – George R. R. Martin

Literatura:
Meridiano de Sangue – Cormac McCarthy
Ensaio Sobre a Lucidez – José Saramago
Fathers and Sons – Ivan Sergeevich Turgenev
A Trégua – Mario Benedetti
Rosshalde – Hermann Hesse
Os Maias – Eça de Queirós
Los Detectives Salvajes – Roberto Bolaño
A Imortalidade – Milan Kundera
O Silêncio das Montanhas – Khaled Hosseini
O Físico – Noah Gordon

Livros que me deram a sensação de ter sido enganado:
Eles Eram Muitos Cavalos – Luiz Ruffato
Ferdydurke – Witold Gombrowicz

Alguns dos livros que ficaram na lista de literatura poderiam ir pra de entretenimento ou vice-versa, porém creio que seria mais pela antiguidade de uns e outros que pela qualidade literária. A última categoria tem poucos livros porque alguns não consegui terminar esse ano, nem sei se conseguirei no próximo. Não julgo livros por serem “chatos”, e costumo descartar a opinião de quem faz esse tipo de crítica. Livros que me dão essa sensação de perda de tempo são aqueles que não me provocam nenhuma reflexão ou sentimento além de o de que poderia estar fazendo algo melhor. Livros sem um propósito evidente, que parecem partir de nada para lugar nenhum, com licença do clichê.

Memórias sentimentais de Martín Santomé

Em A Trégua Mario Benedetti nos permite acesso ao diário de Martín Santomé, funcionário do setor de contabilidade de uma empresa de peças, viúvo, solitário pai de três filhos cuja maior ambição é aposentar-se agora que chega aos cinquenta.
Através da ótica do mais comum dos homens, em meio ao Uruguai de meados do século vinte, o leitor percebe como a vida de cada passante pode ser prenhe de fatos fascinantes em meio ao aparente despropósito e tédio da vida.
Tédio esse que será abalado pela chegada da funcionária Avellaneda, que passa a mexer em sentimentos que Santomé imaginava enterrados com sua esposa falecida há vinte anos. Sua relação se desenvolve rapidamente de uma desconfiança por trabalhar com uma mulher até uma paixão que o leva a um comportamento adolescente de dedicar várias páginas do diário apenas a ela.
Às preocupações de cunho existencial somam-se outras mais práticas, como o medo de ser chifrado por uma mulher muito mais jovem e a busca por uma reaproximação com os filhos. E, é claro, a pergunta que permeia toda a narrativa: o que fazer com o ócio?

Um terror Metafísico

Não à toa o conto The Black Cat (O Gato Preto) tornou-se, ao lado de O Corvo, o texto mais cultuado de Edgar Allan Poe. O terror é um gênero tão atraente porque leva o ser humano a encarar de uma distância quase sempre segura aquela crueldade encravada no mais recôndito do seu ser, e que temos tentado esconder por meio da civilização.

Neste conto, Poe cria uma obra-prima do gênero. O verdadeiro monstro do livro é o narrador/protagonista, que tenta justificar seus crimes por meio da embriaguez, da autocomiseração e do sobrenatural. A narrativa tem um ritmo tão arrebatador que o sobrenatural prevalece, sendo inevitável aquele arrepio do desconhecido que está sempre a nos lembrar que nosso monstro interior está à espreita, gemendo escondido nas paredes que nos cercam.

Uma história da pedra

“O historiador superou o especialista em pedras preciosas, e quase com reverência Harry pensou nas eras e nos eventos aos quais aquele diamante havia sobrevivido.”

Esse trecho do capítulo dezoito de “O Diamante de Jerusalém”, de Noah Gordon, pode ter sido a primeira frase que lhe veio à mente quando teve a ideia do livro. Se não foi, ao menos é o mote do romance. Embora o personagem central seja um judeu novaiorquino contemporâneo, Harry, que divide sua vida profissional entre sua paixão pela história e a vocação familiar para o trabalho com pedras preciosas, a verdadeira figura central é um grande diamante amarelo que passou por mais de três mil anos de guerras religiosas.

Viajamos no tempo, de forma não linear, testemunhando esse diamante passar de genizah do templo de Salomão, sendo retirado e escondido por Baruch antes do saque do templo pelos babilônios, passando pelas mãos de Saladino, até relíquia católica, sendo engastado na mitra do papa pelas mãos de um hábil joalheiro judeu em plena inquisição (por isso recebe o título de diamante da inquisição).

Depois de perdido após ser furtado do vaticano, vira objeto de cobiça e disputa entre as três religiões abraâmicas, num leilão secreto (embora pareça que todo mundo sabe), que terá Harry e o homem de confiança de Farouk, rei deposto e morto do Egito, como figuras centrais.

O romance tem como pano de fundo o conflito no oriente médio e a indústria das joias, o que exige em alguns momentos um tom enciclopédico que eu particularmente aprecio, mas que pode ser considerado maçante por outros leitores.

Mais uma vez Noah Gordon, autor de “O Físico”, acerta ao combinar uma bela narrativa, com vários momentos instigantes, com o plano de fundo mais amplo da história, em especial do judaísmo.