Hesse fala sobre ler e ter livros

O pequeno ensaio que segue foi extraído de Escritos sobre literatura, de Hermann Hesse.
No hay ninguna lista de libros que sea imprescindible leer y sin la cual no existan salvación y cultura. Pero para cada uno hay un número considerable de libros en los que puede hallar satisfacción y placer. Encontrar esos libros poco a poco, establecer con ellos una relación duradera, asimilarlos gradualmente, si es posible como una propiedad externa e interna, constituye para el individuo un esfuerzo propio, personal, que no puede descuidar sin reducir de manera fundamental el círculo de su cultura y de sus placeres, y con ello, el valor de su existencia.

Igual que no se llegan a conocer a través de un libro de botánica el árbol o la flor que se ama especialmente, no se conocerán ni encontrarán los libros favoritos propios en una historia de la literatura o en un estudio teórico. El que se ha acostumbrado a ser consciente del verdadero sentido de cada acto de la vida cotidiana (y ésa es la base de toda formación), aprenderá muy pronto a aplicar también a la lectura las leyes y las diferenciaciones esenciales, aunque en un principio sólo lea revistas y periódicos.

El valor que puede tener para mí un libro, no depende de su fama y popularidad. Los libros no están para ser leídos durante algún tiempo por todo el mundo y constituir un tema fácil de conversación y ser olvidados después como la última noticia deportiva o el último asesinato: quieren ser disfrutados y amados en silencio y con seriedad. Sólo entonces revelan su belleza y su fuerza más profundas.

Sorprendentemente el efecto de muchos libros aumenta cuando son leídos en voz alta. Pero eso sólo es válido para poesías, relatos breves, ensayos cortos de forma depurada y obras parecidas. Leyendo bien en voz alta se puede aprender mucho, sobre todo se agudiza el sentido del ritmo secreto de la prosa, base de todo estilo personal.

El libro que ha sido leído una vez con placer, debe comprarse sin falta aunque no sea barato.

El que disponga de escasos recursos hará bien en comprar únicamente aquellas obras que le hayan recomendado encarecidamente sus amigos más íntimos, o las que ya conozca y aprecie, y que sepa que volverá a leer alguna vez.

El que tenga con algún libro una relación íntima, el que pueda leerlo una y otra vez y encuentre siempre nueva alegría y satisfacción, debe confiar tranquilamente en su intuición y no dejar que ninguna crítica estropee su placer. Hay quien prefiere más que nada leer libros de cuentos y quien aleja a sus hijos de esa clase de lectura. La razón la tiene el que no sigue una norma ni un esquema fijos sino su sensibilidad y las necesidades de su corazón.

Sobre los grandes (como Shakespeare, Goethe, Schiller) debe leerse poco o nada, al menos hasta conocerlos a través de sus propias obras. Cuando se leen demasiadas monografías y descripciones de la vida, es fácil estropearse el maravilloso placer de descubrir la personalidad de un autor a través de sus obras, de crear uno mismo su imagen. Y junto a las obras no debe perderse uno las cartas, los diarios, las conversaciones, por ejemplo las de Goethe. Cuando las fuentes están tan cerca y son tan fácilmente accesibles no hay que contentarse con regalos de segunda mano. En todo caso deberían leerse solamente las mejores biografías; el número de los mediocres es legión.

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A Música de Murakami

O acaso me levou a ler dois livros de Murakami que têm por título o nome de músicas pop: Norwegian Wood, dos Beatles, e Dance, Dance, Dance, do The Dells. Esse mesmo acaso que traça coincidências significativas o tempo todo. Os dois romances são tão coincidentes que decidi fazer uma resenha só.

O enredo e o gênero das duas obras é muito discrepante: em Norwegian Wood não há o elemento fantástico. Trata de um cotidiano corriqueiro de um estudante que não vê muito sentido em sua rotina. Se o leitor gostou de O Apanhador no Campo de Centeio, do Salinger, Indignation, de Phillip Roth e de O Céu dos Suicidas, do Ricardo Lísias, deve ler esse livro. Se não gostou de nenhum dos três, deve gostar também, que ao mesmo tempo em que trata de muitas questões abordadas nos citados, tem um ritmo próprio e uma profundidade marcantes.

Por sua vez, Dance, Dance, Dance é carregado do sobrenatural, do onírico, dessa fantasia de raízes orientais que causa estranheza por vezes até em leitores de Kafka. Principia com o personagem narrador voltando para o Hotel Delfim, em busca de Kiki, uma prostituta com a qual teve um relacionamento. Embora seja uma continuação de La Caza del Carnero Salvaje, pode ser lido como obra isolada sem problemas. Quando chega ao local, o protagonista percebe que o velho Hotel Delfim deu lugar a um novo hotel luxuoso, que manteve o nome por exigência do antigo dono. A princípio, com as investigações acerca da origem desse novo hotel e suas ligações com a máfia, intrincado com ações suspeitas dentro do governo, parece desenvolver-se uma história policial, porém logo isso é deixado de lado ao tomarmos conhecimento de que uma funcionária entrou no “hotel dentro do hotel”.

Esse “hotel dentro do hotel” descrito pela personagem remete ao clima de terror de alguns filmes orientais. A partir daí, o elemento fantástico dará as caras o tempo todo: o próprio protagonista voltará a encontrar o “homem carneiro”, recebendo instruções de como seguir a vida: continue dançando conforme a música. Surge a adolescente mediúnica que “vê” coisas dessa outra realidade, e a trama se desenvolve com a morte de Mei, outra prostituta, cuja suspeita do assassinato recai sobre o narrador, e a busca por Kiki, que leva o protagonista a rever um antigo colega de escola, atualmente uma estrela do cinema.

Manterei meu costume de não entregar muito do enredo e falar apenas das impressões de leitura, e aí entram as coincidências: Embora com enredos tão diversos, além de um ser realista e o outro fantástico, os dois romances trazem em seu bojo uma essência que cativa o leitor e faz de Murakami um escritor de “boa literatura”: vemos desfilar de forma sensível personagens complexos, o protagonista enterrado numa solidão sólida às voltas com o suicídio do amigo, a adolescente deslocada com sérios problemas com os pais, o conflito de gerações e de gêneros, as camadas de realidade que nossos vícios e vivências vão mostrando ou escondendo em véus sobre nossos olhos.

Sem esquecer o ritmo do autor japonês. Acompanhar os dramas murakamianos ao som dos clássicos do jazz e do rock é uma bela experiência.

 

Oito Detestáveis

Os 8 Odiados, novo filme de Quentin Tarantino, se passa de seis a oito anos depois do fim da Guerra Civil. A trama acompanha uma diligência qua cruza as invernais paisagens do Wyoming levando John Ruth e sua fugitiva Daisy Domergue para Red Rock. No caminho eles encontram dois estranhos Major Marquis Warren , um ex-soldado transformado em caçador de recompensas, e Chris Mannix , um renegado do sul que diz ser o novo xerife da cidade. Depois de se perder em uma tempestade, o grupo busca abrigo no Armazém da Minnie, uma parada de diligência nas montanhas. Lá, no lugar da proprietária, eles encontram mais estranhos: Bob, encarregado de cuidar do armazém enquanto ela visita a mãe, Oswaldo Mobray, o vaqueiro Joe Gage , e o General Confederado Sanford Smithers.

Esse é o enredo tirado da internete. Se não me preocupei em fazer eu mesmo meu resumo da história, é porque esse enredo é mero pretexto para que Tarantino dê vazão ao que faz de melhor: Esconder por baixo de uma aura de violência a tensão crescente de seus filmes, expressa por meio de tomadas com cenários amplos e inóspitos entremeadas com ambientes opressivos. Como sempre, o roteiro de The Hateful Eight é pura literatura, com seus diálogos cortantes, seus personagens profundos e imprevisíveis.

Embora tire seus personagens dos clássicos anti-heróis dos filmes de western, inclusive com seus códigos de conduta muito peculiares, Tarantino se utiliza de uma fórmula diferente para desenvolver sua obra: o suspense de casa fechada, por assim dizer.

Ao observarmos acuradamente, percebemos que a violência está sempre lá, comprimindo o peito daqueles que estiveram em lados diferentes de uma guerra engendrada por motivos políticos e econômicos, ideologicamente insuflada por questões raciais que parecem cada dia mais longe de se resolverem.

Mais difícil de imaginar é a possibilidade de cooperação entre esses antigos inimigos em busca de algo que transcenda  essa guerra.