A Música de Murakami

O acaso me levou a ler dois livros de Murakami que têm por título o nome de músicas pop: Norwegian Wood, dos Beatles, e Dance, Dance, Dance, do The Dells. Esse mesmo acaso que traça coincidências significativas o tempo todo. Os dois romances são tão coincidentes que decidi fazer uma resenha só.

O enredo e o gênero das duas obras é muito discrepante: em Norwegian Wood não há o elemento fantástico. Trata de um cotidiano corriqueiro de um estudante que não vê muito sentido em sua rotina. Se o leitor gostou de O Apanhador no Campo de Centeio, do Salinger, Indignation, de Phillip Roth e de O Céu dos Suicidas, do Ricardo Lísias, deve ler esse livro. Se não gostou de nenhum dos três, deve gostar também, que ao mesmo tempo em que trata de muitas questões abordadas nos citados, tem um ritmo próprio e uma profundidade marcantes.

Por sua vez, Dance, Dance, Dance é carregado do sobrenatural, do onírico, dessa fantasia de raízes orientais que causa estranheza por vezes até em leitores de Kafka. Principia com o personagem narrador voltando para o Hotel Delfim, em busca de Kiki, uma prostituta com a qual teve um relacionamento. Embora seja uma continuação de La Caza del Carnero Salvaje, pode ser lido como obra isolada sem problemas. Quando chega ao local, o protagonista percebe que o velho Hotel Delfim deu lugar a um novo hotel luxuoso, que manteve o nome por exigência do antigo dono. A princípio, com as investigações acerca da origem desse novo hotel e suas ligações com a máfia, intrincado com ações suspeitas dentro do governo, parece desenvolver-se uma história policial, porém logo isso é deixado de lado ao tomarmos conhecimento de que uma funcionária entrou no “hotel dentro do hotel”.

Esse “hotel dentro do hotel” descrito pela personagem remete ao clima de terror de alguns filmes orientais. A partir daí, o elemento fantástico dará as caras o tempo todo: o próprio protagonista voltará a encontrar o “homem carneiro”, recebendo instruções de como seguir a vida: continue dançando conforme a música. Surge a adolescente mediúnica que “vê” coisas dessa outra realidade, e a trama se desenvolve com a morte de Mei, outra prostituta, cuja suspeita do assassinato recai sobre o narrador, e a busca por Kiki, que leva o protagonista a rever um antigo colega de escola, atualmente uma estrela do cinema.

Manterei meu costume de não entregar muito do enredo e falar apenas das impressões de leitura, e aí entram as coincidências: Embora com enredos tão diversos, além de um ser realista e o outro fantástico, os dois romances trazem em seu bojo uma essência que cativa o leitor e faz de Murakami um escritor de “boa literatura”: vemos desfilar de forma sensível personagens complexos, o protagonista enterrado numa solidão sólida às voltas com o suicídio do amigo, a adolescente deslocada com sérios problemas com os pais, o conflito de gerações e de gêneros, as camadas de realidade que nossos vícios e vivências vão mostrando ou escondendo em véus sobre nossos olhos.

Sem esquecer o ritmo do autor japonês. Acompanhar os dramas murakamianos ao som dos clássicos do jazz e do rock é uma bela experiência.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s