Saiu na Viver do Diário de Pernambuco

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Texto abaixo

Por um lugar ao sol Nova
safra de escritores do estado chega ao mercado empenhada em buscar assento ao lado de nomes consagrados

 

Fellipe Torres
fellipetorres.pe@dabr.com.br

Publicação:23/02/2016 03:00

Márcio Monteiro (esq.), Andréa Ferraz (alto), Amâncio Siqueira (centro) e Caio Viana: livros saídos do forno e expectativas em alta para desfrutar do universo da literatura (PMOREIRA.COM/DIVULGAÇÃO)
Márcio Monteiro (esq.), Andréa Ferraz (alto), Amâncio Siqueira (centro) e Caio Viana: livros saídos do forno e expectativas em alta para desfrutar do universo da literatura

No começo dos anos 2000, houve quem enxergasse na popularização dos blogs pessoais uma ameaça ao desejo romântico – acalentado por uma parcela significativa da população – de publicar um livro. Não aconteceu. Vieram, então, as redes sociais, as plataformas de autopublicação, dentre outras possibilidades para fazer os próprios textos ganharem o mundo. Nada disso, contudo, foi capaz de substituir a sensação de segurar nas mãos a própria obra impressa, organizar um evento para lançá-la e, é claro, conceder autógrafos. No espectro dos incontáveis aspirantes a escritores surgidos todos os anos, há desde os aventureiros ocasionais, interessados em compartilhar com o mundo um punhado de acontecimentos da própria vida, até aqueles mais talentosos e obstinados em construir uma carreira sólida no mundo das letras.

O cenário não é muito receptivo para quem alimenta o sonho de conquistar espaço, reconhecimento e leitores. Se a edição do livro não for bancada por uma casa editorial (algo cada vez menos comum no caso dos iniciantes), os custos para o autor são altos. Surgem, ainda, desafios como distribuição e disponibilização em livrarias. Há histórias de todos os tipos, como a de Andréa Ferraz, 45, formada em letras e auditora fiscal de carreira. Aluna da oficina literária de Raimundo Carrero, ela investiu alto (em vários sentidos) na produção do primeiro romance, A sutileza do sangue (Coqueiro, 200 páginas, R$ 40), baseado em experiências vividas pela própria família, em Floresta, Sertão do estado. O lançamento será hoje, às 19h, na Livraria Cultura do Paço Alfândega (Rua Madre de Deus, s/n, Bairro do Recife). Conheça a trajetória de quatro pernambucanos iniciantes na literatura.

Andréa Ferraz
A sutileza do sangue
(Coqueiro, 200 pág., R$ 40)

Quando o pai de Andréa foi receber homenagem na cidade natal, Floresta, os organizadores pediram a ela uma pequena biografia do parente. Ela começou intensa pesquisa, acompanhada pelo veterano Raimundo Carrero, de cujas aulas participa há quatro anos, com interrupções. Ao avaliar os escritos sobre o próprio pai, Carrero estimulou a aluna a adaptar o texto a uma novela. “Descobri um universo novo. Diante do meu pai, descobri outra pessoa. Se antes o via como pai de família pacato, descobri uma figura interessante. O livro tem uma crueza grande, como a própria condição humana. Nele, retrato um Sertão lírico, delicado e poético, diferente do flagelado tão conhecido”, comenta. Embora seja a primeira publicação, Andréa acredita no surgimento de obra com qualidade, graças ao acompanhamento do escritor experiente. “O que já escrevi antes da oficina foi tudo para o lixo”, diverte-se. A autora se preocupou em manter a leitura fluida e acessível, sem descuidar da estética e entregar o enredo. Para Ferraz, o resultado foi uma obra tragicômica e fácil de se ler, repleta de metáforas. Ela bancou a edição.

Amâncio Siqueira
Quebra cabeças
(Giostri, 88 páginas, R$ 30)

Natural de Afogados da Ingazeira e radicado em Garanhuns, no Agreste, tem um projeto literário ambicioso. Quando estiver com todas as obras publicadas, quer ter “abarcado a totalidade do pensamento ocidental”. Não à toa, a narrativa do primeiro livro, O evangelho de São Pecador (2010), era construída em um passado longínquo. A obra quase não teve repercussão. Mas o escritor não desanimou para lançar o segundo título, cuja história acompanha um idoso desmemoriado, em 2053, ao acordar em leito de hospital. Com ajuda de 12 livros da biblioteca, tenta relembrar os acontecimentos da própria vida. “Minha próxima obra vai se passar no século 16. Quero acompanhar o início do pensamento racionalista, associando personagens reais da época e outros, fictícios”, explica. Recém-lançado, o segundo livro começa a ser mais lido. Ainda assim, lamenta a ausência de cadernos literários. “O espaço remanescente está mais voltado para autores que têm nome formado, são premiados e publicados por grandes selos. É difícil quando se está em editora pequena e vive em cidade pequena”, pontua Amâncio.

Márcio Monteiro
Sobre corações, pedras e flores
(Alhures, R$ 22)

Formado em design pela UFPE, tem vasta atuação na área editorial. Paralelamente aos trabalhos considerados por ele mais “fúteis”, desde 2008 o autor iniciante produz textos voltados ao público infantil. Em novembro, decidiu fundar a própria editora, Alhures, e publicar os dois primeiros livros, Sobre corações, pedras e flores e Lua e Sol. Além de escrever, ilustra as histórias. No site da editora (alhures.com.br), as obras podem ser baixadas gratuitamente ou compradas com frete grátis. “O livro infantil é importante para levar conhecimento, é algo que me sinto realizado quando faço. Disponibilizar gratuitamente é fazer com que chegue mais fácil às pessoas. Elas podem ver, se inteirar do que é o trabalho, comprar ou não”. Além dos títulos de estreia, já tem dois livros concluídos, à espera de ilustração, e planos para lançar outros três. Sobre o retorno recebido pelo projeto, confessa se desanimar às vezes, por esperar algo maior. “Recebi comentários legais, estimulantes. De toda forma, é complicado atuar na área. As livrarias cobram 40% de comissão para vender os livros, o distribuidor cobra 30%… Por isso, faço tudo sozinho. Não tenho interesse de ter livros caros”.

Caio Viana
Sinestesia
(Bagaço, R$ 40)

O ator pernambucano de 29 anos tem uma carreira com passagens pelo teatro e cinema, mas a literária é sonho alimentado desde os 10 anos de idade. No sábado, lançou o primeiro livro. “Estou nas nuvens”. Diz ter o hábito de escrever desde criança, embora os contos tenham surgido com mais frequência a partir de 2008, quando passou a publicar em um blog. “O ano de 2010 foi definitivo para mim. Um dia acordei e decidi ser escritor. Diferente da carreira de ator, a escrita sempre foi resposta mais pessoal e completa”. A primeira obra de Caio reúne 30 dos 86 contos da coleção. “Não podia ser nem mais, nem menos. Queria um conto para cada dia do mês. Eles são todos próximos da língua falada, mais do que da escrita. Falam de relacionamentos cotidianos”. Apesar de ter os custos do livro bancados pela Bagaço, diz ter tido trabalho com a parte burocrática. “Tive que fazer tudo por conta própria, mas não acho errado. As editoras não conseguem apostar em qualquer escritor. Acabou sendo proposta de empreendedorismo, com esforço envolvido e aprendizado”. Pretende publicar um livro por ano. “Já tenho material pronto até 2019”.

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O maior mito moderno

20160211_182112No dia 23 de abril de 2016 completam-se quatro séculos do dia mais triste para a literatura mundial: a morte de Cervantes e Shakespeare.

Inacreditavelmente, pouco li a respeito até o momento. Essa data deveria ensejar várias séries de matérias e postagens mundo afora. Esses dois gênios deveriam ser homenageados em todos os eventos de literatura que ocorrerão durante o ano. Todas as cidades com ao menos três leitores deveriam criar um evento especificamente para esta data.

Inicio abaixo, com um trecho do meu romance Quebra Cabeças, em que o protagonista fala sobre o mito de Cervantes:

“Dom Quixote é muito mais que um livro. É um verdadeiro monumento da literatura. Sem ele, não haveria literatura moderna. Não foi à toa que um livro escrito para ridicularizar os romances de cavalaria tornou-se o maior romance de cavalaria. Dom Quixote e Sancho Pança fazem parte do ideário e da iconografia eruditos e populares; o próprio Cervantes criou o molde da iconografia dos personagens, descrevendo-os através de uma gravura do livro de Cid Hamete; desde então não se concebe representá-los senão de uma forma caricaturesca. Dom Quixote tornou-se um símbolo e, como todo grande símbolo, está envolto em diversas camadas de significação, como uma cebola cujo primeiro contato deixa perceber apenas a casca. Você tem sorte de lê-lo aos catorze anos. Poderá relê-lo muito mais vezes do que eu, que só li aos vinte, conseguirei, e adivinhar muito mais sentidos do que eu. Posso apenas adiantar-lhe os caminhos que já percorri; mas, tão logo terminados estes, outros se abrirão pra você. Não apenas dentro do livro, também e principalmente ao redor dele. Cervantes inspirou gênios como Defoe, Flaubert, Dostoiévski, Melville, Greene, Joyce, Carlos Fuentes, Kazantzakis, Borges. Livro de cabeceira de outros tantos. Aquele “velho doido” pode simbolizar a senilidade da literatura cavaleiresca que mexe com a cabeça dele, e também um coração que se entrega à mais árdua batalha por uma fé cega e inabalável, capaz de convencer um cético medroso como Sancho Pança a segui-lo. Seus personagens são geniais, sendo praticamente arquétipos de todos os personagens surgidos posteriormente. A forma em que foi concebido é genial, a junção de diversos gêneros textuais, da crítica literária do cura ao decidir junto do barbeiro quais os livros queimar até o discurso, que na voz de Dom Quixote ganha belos exemplos de lucidez entremeados aos seus rompantes de loucura. Aliás, Cervantes teve a audácia de falar sobre o absurdo da queima de livros no período mais sombrio da Inquisição espanhola. Impressiona a metalinguagem, o livro falando de si mesmo, revelando sua origem em textos obscuros, uma ficção sobre a ficção, inclusive discutindo se é verdadeiro o texto em árabe que ele pede a outro que traduza; o encontro dos personagens principais com Sansão Carrasco, que teria lido a segunda parte da aventura, e como aqueles negam ter vivido as aventuras da segunda parte apócrifa, legitimando apenas Cervantes a falar de seus feitos. Pode-se dizer que ele lança um olhar sobre a diferença entre autor e narrador, embora os cantares de amigo do trovadorismo já demonstrassem isso na prática. Foi o primeiro livro a popularizar a leitura entre as classes burguesas, que ainda aprendiam a ler e viram-se finalmente descritas nas vendas que Dom Quixote confundia com castelos, nos pastores dos rebanhos que ele identificava como exércitos. Ante a ilusão dos romances de cavalaria estava a vida real, destruindo os castelos da ficção para em seguida destruir os castelos reais, até que a burguesia novamente viesse a alimentar as ilusões quixotescas que tornam suas vendas castelos e suas filhas princesas. Há algo mais quixotesco do que um homem da envergadura de Balzac considerar seu casamento aristocrático mais decisivo do que a escrita da Comédia Humana? Enfim, é uma obra tão magistral que se tornou muito maior que seu criador. Quando nos referimos a um amor espiritual, despido de desejo carnal, o chamamos platônico; se contamos uma aventura épica ou uma viagem cheia de contratempos, dizemos que é homérica; o adjetivo para um cenário de tragédia e dor é dantesco; descrevemos pessoas e ações pragmáticas, que sacrificam a ética em prol do resultado, de maquiavélicas. Porém, quando o amor é fantasioso, a aventura é impossível, a moral afasta-se do cotidiano para tornar-se irrealizável, não dizemos que essa atitude pouco pragmática é cervantesca. Dizemo-la quixotesca.”

Está na hora de algum editor publicar uma edição reunindo as duas partes do Quixote de Cervantes e o Quixote apócrifo de Avellaneda, que o próprio Cervantes utilizou como parte do cânone, ao citá-lo em várias passagens da segunda parte, inclusive fazendo Dom Quixote desviar-se de seu caminho até Zaragoza, ao saber que esta cidade estaria em seu caminho de acordo com o autor aragonês.

Um dos pontos altos da mitologia quixotesca é justamente o encontro do protagonista com Dom Álvaro, personagem do apócrifo, que confirma ter encontrado Dom Quixote e Sancho Pança, embora não esses que têm sua história contada por Cide Hamete Benengeli. Prova de que os quixotes e sanchos são muitos, em número infinito, buscando aventuras por todo o globo terrestre, quiçá pelo espaço afora.