O maior mito moderno

20160211_182112No dia 23 de abril de 2016 completam-se quatro séculos do dia mais triste para a literatura mundial: a morte de Cervantes e Shakespeare.

Inacreditavelmente, pouco li a respeito até o momento. Essa data deveria ensejar várias séries de matérias e postagens mundo afora. Esses dois gênios deveriam ser homenageados em todos os eventos de literatura que ocorrerão durante o ano. Todas as cidades com ao menos três leitores deveriam criar um evento especificamente para esta data.

Inicio abaixo, com um trecho do meu romance Quebra Cabeças, em que o protagonista fala sobre o mito de Cervantes:

“Dom Quixote é muito mais que um livro. É um verdadeiro monumento da literatura. Sem ele, não haveria literatura moderna. Não foi à toa que um livro escrito para ridicularizar os romances de cavalaria tornou-se o maior romance de cavalaria. Dom Quixote e Sancho Pança fazem parte do ideário e da iconografia eruditos e populares; o próprio Cervantes criou o molde da iconografia dos personagens, descrevendo-os através de uma gravura do livro de Cid Hamete; desde então não se concebe representá-los senão de uma forma caricaturesca. Dom Quixote tornou-se um símbolo e, como todo grande símbolo, está envolto em diversas camadas de significação, como uma cebola cujo primeiro contato deixa perceber apenas a casca. Você tem sorte de lê-lo aos catorze anos. Poderá relê-lo muito mais vezes do que eu, que só li aos vinte, conseguirei, e adivinhar muito mais sentidos do que eu. Posso apenas adiantar-lhe os caminhos que já percorri; mas, tão logo terminados estes, outros se abrirão pra você. Não apenas dentro do livro, também e principalmente ao redor dele. Cervantes inspirou gênios como Defoe, Flaubert, Dostoiévski, Melville, Greene, Joyce, Carlos Fuentes, Kazantzakis, Borges. Livro de cabeceira de outros tantos. Aquele “velho doido” pode simbolizar a senilidade da literatura cavaleiresca que mexe com a cabeça dele, e também um coração que se entrega à mais árdua batalha por uma fé cega e inabalável, capaz de convencer um cético medroso como Sancho Pança a segui-lo. Seus personagens são geniais, sendo praticamente arquétipos de todos os personagens surgidos posteriormente. A forma em que foi concebido é genial, a junção de diversos gêneros textuais, da crítica literária do cura ao decidir junto do barbeiro quais os livros queimar até o discurso, que na voz de Dom Quixote ganha belos exemplos de lucidez entremeados aos seus rompantes de loucura. Aliás, Cervantes teve a audácia de falar sobre o absurdo da queima de livros no período mais sombrio da Inquisição espanhola. Impressiona a metalinguagem, o livro falando de si mesmo, revelando sua origem em textos obscuros, uma ficção sobre a ficção, inclusive discutindo se é verdadeiro o texto em árabe que ele pede a outro que traduza; o encontro dos personagens principais com Sansão Carrasco, que teria lido a segunda parte da aventura, e como aqueles negam ter vivido as aventuras da segunda parte apócrifa, legitimando apenas Cervantes a falar de seus feitos. Pode-se dizer que ele lança um olhar sobre a diferença entre autor e narrador, embora os cantares de amigo do trovadorismo já demonstrassem isso na prática. Foi o primeiro livro a popularizar a leitura entre as classes burguesas, que ainda aprendiam a ler e viram-se finalmente descritas nas vendas que Dom Quixote confundia com castelos, nos pastores dos rebanhos que ele identificava como exércitos. Ante a ilusão dos romances de cavalaria estava a vida real, destruindo os castelos da ficção para em seguida destruir os castelos reais, até que a burguesia novamente viesse a alimentar as ilusões quixotescas que tornam suas vendas castelos e suas filhas princesas. Há algo mais quixotesco do que um homem da envergadura de Balzac considerar seu casamento aristocrático mais decisivo do que a escrita da Comédia Humana? Enfim, é uma obra tão magistral que se tornou muito maior que seu criador. Quando nos referimos a um amor espiritual, despido de desejo carnal, o chamamos platônico; se contamos uma aventura épica ou uma viagem cheia de contratempos, dizemos que é homérica; o adjetivo para um cenário de tragédia e dor é dantesco; descrevemos pessoas e ações pragmáticas, que sacrificam a ética em prol do resultado, de maquiavélicas. Porém, quando o amor é fantasioso, a aventura é impossível, a moral afasta-se do cotidiano para tornar-se irrealizável, não dizemos que essa atitude pouco pragmática é cervantesca. Dizemo-la quixotesca.”

Está na hora de algum editor publicar uma edição reunindo as duas partes do Quixote de Cervantes e o Quixote apócrifo de Avellaneda, que o próprio Cervantes utilizou como parte do cânone, ao citá-lo em várias passagens da segunda parte, inclusive fazendo Dom Quixote desviar-se de seu caminho até Zaragoza, ao saber que esta cidade estaria em seu caminho de acordo com o autor aragonês.

Um dos pontos altos da mitologia quixotesca é justamente o encontro do protagonista com Dom Álvaro, personagem do apócrifo, que confirma ter encontrado Dom Quixote e Sancho Pança, embora não esses que têm sua história contada por Cide Hamete Benengeli. Prova de que os quixotes e sanchos são muitos, em número infinito, buscando aventuras por todo o globo terrestre, quiçá pelo espaço afora.

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