No Furacão da Infância

Um sábio disse uma vez que os adultos que leem livros infantis foram crianças que liam livros adultos. O nascimento do meu filho foi a desculpa perfeita para atualizar a leitura desse gênero. O Mágico de Oz, clássico de L. Frank Baum, é um desses livros que encantam adultos. Impossível não traçar uma comparação com o filme de 1939, que traz algo que gosto muito e não está no livro, e que parece ter sido inspirado em Alice in Wonderland: a ambiguidade que gera uma dúvida sobre a realidade em que a narrativa ocorre, se no mundo concreto ou no universo onírico.
Como toda grande obra, sugere várias interpretações, e há quem diga inclusive que a estrada de tijolos amarelos é uma alegoria para a necessidade de adotar o padrão ouro na economia (o padrão monetário era ouro e prata na época).
Concordo com quem acha que a obra literária não precisa trazer uma mensagem; entretanto, quando o escritor consegue aliar uma história interessante com uma mensagem singela, nasce uma grande obra.
Percebemos que Oz é um grande trapaceiro porque dá às pessoas a ilusão daquilo que elas esperam, ao mesmo tempo em que notamos que reconhecer as próprias limitações é um passo imprescindível para superá-las. Perceber-se ignorante e querer ter um cérebro (ser sábio) é começar a sê-lo; buscar um coração é demonstrar que se tem um; assumir o medo é um ato de coragem.
Um lar, contudo, é mais difícil de se perceber como algo interno a nós. E este é um aprendizado que leva muitas infâncias para ser adquirido.

Peças de Quebra Cabeças 6

A série Peças de Quebra Cabeças foi imaginada inicialmente para trazer as resenhas antes do lançamento. Como as leituras continuam, vou manter a série, publicando impressões dos leitores para preservá-las. Se houver críticas que não constem aqui, inclusive destrutivas, só me avisar, que as publicarei.

A seguir, coloco o texto da leitora Jéssica Lira:

O que dizer de “Quebra Cabeças”?! Amei teu livro, Amâncio Siqueira! Vais construindo o enredo com criatividade, beleza e graça. Sem falar da demonstração de conhecimento e sensibilidade literário-filosófica, que vão nos conduzindo à necessidade de reflexão e de leituras diversas imediatas! Simplesmente amei teu livro! Quando lançarás o próximo mesmo?!

Das diversas passagens marcadas no livro, faço registro desta:

“Eles temiam que eu fosse me afogar, e que em meu desespero me agarrasse a eles e os levasse comigo para o fundo. Têm medo de ir para o fundo. Suas vidas são próprias para a terra, para a superfície, para o raso em que podem sentir seus pés tocarem o solo, de onde podem sair facilmente da água em segurança. Os suicidas têm a lucidez para perceber que não há um propósito para estar vivo além da própria vida. Considero que a única maneira de dignificar a vida é rejeitar sua falta de sentido, buscar encontrar a cada dia um motivo para continuar vivo. Há que se ter em conta que a morte é uma solução definitiva demais, é claro, e que encarar a vida como um suicida é agigantar-se diante dela, encará-la em toda a sua crueza e encorajar-se diante de todo desafio, sem temer inclusive a morte”.

A Morte como afirmação da Vida

O livro España y Viva la Muerte não foi imaginado por Nikos Kazantzakis como um romance, embora possa hoje, distanciado no tempo, ser lido como um. Um romance de viagem, um romance filosófico, um romance reportagem, um romance de guerra. A obra está dividida em duas partes: España, que trata de uma viagem que fez ao país em tempos de “paz”, e Viva la Muerte, em que descreve fatos testemunhados durante a guerra civil espanhola, três anos depois da primeira viagem.

Kazantzakis começa como não poderia deixar de ser: “A Espanha tem duas faces: Uma delas, o rosto ardente e anguloso do Cavaleiro da Triste Figura; a outra, a testa prática e ponderada de Sancho.” Seguem-se crônicas das principais cidades espanholas, traçando paralelos entre o presente e o passado, encaixando tudo com o seguinte mote: “Um velho camponês subia até o monte pelo leito seco do rio. Era um homem sólido, toscamente talhado, minado pela chuva e pelo sol. Tinha um bigodinho fino e uma enorme mandíbula. Em nenhuma outra ocasião cheguei a tomar consciência com tanta intensidade de até que ponto tudo – as montanhas, as árvores, os animais, os seres humanos, as ideias – está composto, em cada lugar, da matéria circundante.”

Analisando a matéria circundante, o gênio grego busca traçar perfis dos grandes de Espanha, de Santa Tereza, Quevedo, Dom Afonso II, Goya, Unamuno, Ortega y Gasset, El Greco, Averróis e tantos outros, ao tempo em que vê pairar sobre todos e a todo o país justificar o espírito duplo Quixote/Sancho.

Uma busca incansável do escritor se mostra ainda mais desesperada aqui: a busca pelo espírito. O veremos exaltar os êxtases práticos de Santa Teresa, o cristianismo magro e ossudo de El Greco, o gênio moral de Averróis, a religião de Maomé que ensina a não fugir dos prazeres da carne e justamente nesses prazeres buscar a união com deus, através da comida, do sexo e da guerra, a capacidade do espanhol de conviver com a realidade de que “somos nada” e de que “o paraíso não existe”. Ao narrar uma tourada, traça um paralelo com o homem primitivo, que ao vislumbrar um animal às portas de sua caverna, sentiria que era um deus que vinha matar sua fome. Essa luta do homem com o animal mais poderoso, que traduz a luta do homem com a natureza, rememorada no espetáculo violento da praça de touros, “essa sangrenta pantomima cujos protagonistas são Deus e o homem” porque “assim era a primitiva Sagrada Comunhão, com carne e sangue reais”, já que “às vezes o Deus se nega a ser sacrificado”.

Nesse momento, traça uma síntese de nossa espécie admirável e cruel: “O matrimônio sagrado e o assassinato sagrado são idênticos. Essa identidade pode parecer aos espíritos ingênuos e de bom gosto uma completa demência, mas todo aquele que tiver conhecido o verdadeiro amor a compreenderá. O sangue, a união por meio do sangue, a imortalização do Amor por intermédio da Morte, não são nada além de profundas necessidades humanas.” Ao fim de tantas experiências religiosas, Kazantzakis reafirma que o verdadeiro deus é o coração do homem, e conclui a primeira parte: “Naquele dia meu coração se comoveu profundamente, porque agora estava seguro: a vida é uma luta mortal do Amor e da Morte; uma terrível aventura de Dom Quixote, desesperada e valente.”

Essa sensualidade, esse desespero e esse desejo de sangue se condensam na segunda parte, que recebe o título de Viva la Muerte, brado usado pelos falangistas.Sentimentos que unem os irmãos divididos entre as bandeiras azul e vermelha. O grego busca traçar fotografias da guerra como um correspondente estrangeiro imparcial, no que falha fragorosamente. Seu espírito nunca se permitiria a imparcialidade. Cada página traz a emoção contraditória de um mundo dividido. Vemos diante de nós o cerco a Madri, e fica impossível não traçar um paralelo com o Brasil atual, em que políticos usam o horário eleitoral para afirmar que só estarão dispostos a acabar com o atual impasse e permitir que o país volte a crescer com a saída do atual governo:

— Você não se lastima por ela? Perguntei a um oficial que estava perto de mim.

Por quem?

Por Madri.

É vermelha… Quando voltar a ser azul…

Senti-me atemorizado. Durante muito tempo mirei insaciavelmente para Madri, como se estivesse lhe dizendo adeus para sempre. Agora estava seguro de que a época que estamos vivendo é abominável e de que o espírito está em perigo. Temos que nos apressar agora, se quisermos ver as coisas belas que restam ainda sobre a terra. E isto antes de amanhã. Ou com certeza antes de depois de amanhã, quando as bombas, os aviões e todos esses poderes sombrios virão e as destruirão. Um eclipse. Vemos com nitidez e plenos de tormento como as negras asas de estendem, envolvendo o espírito em trevas.”

Imediatemente esse terror é mesclado à admiração de uma batalha aérea que se desenrola diante de seus olhos, com aviões parecendo aves de rapina despejando ovos explosivos. Sabendo que os marroquinos lutam a guerra, e informado por um oficial que são os melhores soldados, faz uma reflexão que talvez tivesse sido útil para as potências que armaram tantos grupos da África e Oriente Médio para depois fazer guerra contra eles:

Não disse nada. Mas um dia lamentaremos amargamente ter-lhes ensinado a lutar e a matar-nos. Estamos sacrificando o futuro a nossas necessidades mais imediatas. Um dia, todas essas raças vigorosas cairão sobre nós. Porém hoje, ninguém presta a isto a menor atenção. Agradou-me a visão desta lei histórica. Os descendentes dos bárbaros, avançando assim, sem piedade, aplanando o caminho. Na realidade, nós mesmos estamos aplanando o caminho para que acampem entre nós. Mas ninguém se dará conta disto até que o transcurso do tempo o faça evidente. O tempo falará por si mesmo, mas então será tarde demais.”

As passagens mais belas e intrigantes são aquelas em que dá voz às pessoas que sofrem a guerra sem participar das decisões superiores, como quando ouve uma senhora falar de como atearam fogo a seu marido junto de outros grandes da aldeia:

— Em que você acredita, tia Juanita? Todos esses assassinos irão pro inferno?

Pro inferno? – Exclamou surpresa a anciã – Por quê? Pode ser que sintam lástima depois de matá-los. Se você mata alguém e depois o olha e diz: Ah, pobrezinho! Deus lhe perdoará.”

O correspondente de guerra ouve com lamento a notícia da morte de Lorca, e com assombro percebe que o povo espanhol fala sobre os mortos como se tivessem ido a outro país, sem nunca mencionarem que desse país nunca poderão retornar.

Ao terminar o livro, senti minha fé na humanidade ainda menor, embora tenha tido meu momento de eucaristia e renovado minha fé em Kazantzakis e em escritores que, como ele, não aceitam escrever nada que não seja sua própria carne e seu próprio sangue.

Peças do Quebra Cabeças 5

É hoje o lançamento de Quebra Cabeças em Afogados da Ingazeira. Fecho essa série de resenhas sobre o livro com a do contista Nivaldo Tenório, já citado na resenha de Fernando Monteiro publicada ontem:

Embora seja um anônimo, Amâncio Siqueira não é um iniciante na literatura. Foi finalista do Prêmio SESC há seis anos, com um livro de contos ainda inédito (felizmente, pois destoa muito de seus romances já publicados). No romance, diria que alcançou a maturidade já na estreia. Seu “O Evangelho de São Pecador” me surpreendeu muito positivamente, e merece uma edição mais cuidadosa e uma distribuição decente. Com seu “Quebra Cabeças” (Giostri, 2015), essa impressão é aprofundada. É visível que, mesmo numa obra sem a mesma pretensão da anterior, o autor continua buscando conciliar à forma bem acabada, ao apreço com a linguagem, o enredo instigante. Siqueira é um contador de histórias, profissão que está meio abandonada na literatura moderna. Um contador de histórias que não se impôs amarras de um estilo ou uma época, nem se entrega facilmente à auto-complacência. Do romance anterior até este viajou do passado distante (século II DC), até o futuro próximo (2053). Estreando com um romance histórico em estilo épico, agora envereda pela ficção científica. O que sua obra apresenta até aqui, contudo, é uma preocupação com o homem, que pouco mudou de uma época à outra. A unidade de sua obra dá-se pelo comprometimento com um novo humanismo. “Quebra Cabeças” não se encaixa muito bem num gênero. A princípio uma ficção científica, pois inicia com um homem acordando em um hospital em 2053, com células tronco, carros dirigindo-se a si mesmos, pessoas com chips identificadores (impressão acentuada pela capa, com seu quebra-cabeça montado numa cabeça cibernética, colorida, assemelhada às formas futuristas imaginadas em meados do século passado, num retro-futurismo), logo descobrimos que a amnésia do personagem-leitor (uma figura bastante difícil, da qual falarei adiante) é um ensejo para que o romance seja voltado não para o futuro, mas para o passado. Siqueira é um bibliófilo, e escreveu uma obra que transparece sua paixão quase sensual pelos livros. São esses objetos que servirão como guia para o personagem-leitor, num Mapa de Viagem, como bem pontuou Fernando Monteiro. E aí o livro se revela um romance de formação dos mais estranhos, muito bem disfarçado. Os trechos escolhidos das obras que vão montando ao longo da narrativa a história oculta de Anselmo dão pistas de outro aspecto do livro: é um livro que penetra fundo na problemática da memória e do esquecimento. O leitor é levado a perguntar-se a todo instante se valerá a pena lembrar, se não seria melhor afogar-se nas águas do Lete. Dialogando com seus mestres, extrai algumas belas passagens, como esta: “Riobaldo explica-lhe o motivo de querer lembrar: ‘Não gosto de me esquecer de coisa nenhuma. Esquecer, pra mim, é quase igual a perder dinheiro.’ Esquecer tudo, é, então, perder tudo, cair na mais absoluta miséria, pois que é perder até a si mesmo.” O domínio dos diálogos é um ponto a se destacar. A crueza com que Anselmo trata Henrique (ao qual reluta em chamar pelo nome, apelidando-o de Jerimum) não esconde muito bem o cuidado que tem com seu “aprendiz”. Talvez de maneira não totalmente proposital, os diálogos trazem uma carga de tensão e alívio cômico (às vezes concomitantes) que criam uma empatia imediata com seus personagens. É um livro sobre livros, mas é também um livro sobre pessoas; não pessoas abstratas, idealizadas: pessoas concretas, que sangram, choram, comem e se masturbam. E não se orgulham de nada disso. A empatia é também adquirida pela voz narrativa adotada: a segunda pessoa. O autor envereda por um caminho perigoso, um terreno pantanoso que poucos adentraram, do qual a saída com sucesso é incerta. E se sai muito bem do desafio auto-imposto, com poucas manchas e arranhões. O leitor imerge no personagem, descobrindo suas memórias ao mesmo tempo que ele, chegando mesmo a sentir suas dores ou sua confusão, e também seus prazeres. Siqueira nos dá uma bela obra, cativante na forma, surpreendente no conteúdo. Ou vice-versa.

Peças do Quebra Cabeças 4

Hoje publico o texto de Fernando Monteiro, que dispensa apresentações. Como o texto foi publicado originalmente antes do lançamento em Garanhuns, tomei a liberdade de alterar a data e o local:

MAIS UM VEZ ESTÁ VINDO DE GARANHUNS um texto ficcional cuja tessitura revela a mesma paixão literária de um Nivaldo Tenório (cujo “Dias de Febre na Cabeça” a Confraria Do Vento relançou ano passado, amplificando o alcance dessa que é uma das melhores coletâneas de contos brasileiros publicadas nos últimos anos). Agora, é a vez de Amâncio Siqueira lançar “Quebra Cabeças”, uma espécie de “carta de navegação” — em forma de romance — pelos livros que formaram a sensibilidade do jovem escritor de Afogados da Ingazeira (1982) radicado em Garanhuns. O lançamento é amanha (05), na Câmara de Vereadores da princesa do Pajeú e atual jardim de atividades literárias em ebulição. Não é uma hipérbole. Você lê o novo romance de Siqueira (o primeiro foi “O Evangelho de São Pecador”, de 2010), e percebe que não poderia ter sido escrito com o morno temperamento literário de tantas obras ficcionais que têm aparecido, no Brasil inteiro, apenas como desnorteada expressão de uma — vaga — “vontade de escrever”. Nivaldo Tenório e Amâncio Siqueira, em Garanhuns, sinalizam noutra direção: a do empenhamento em obras que revelam leituras verticais, vida interior e capacidade imaginativa de fazer a literatura interrogar o nosso tempo.

Peças de Quebra Cabeças 3

Terceiro dia da série, com a resenha do poeta e professor Adelmo Camilo:

QUEBRA CABEÇAS de Amâncio Siqueira
SIQUEIRA, Amâncio. Quebra Cabeças. Giostri Editora Ltda. 1. Ed. São Paulo. 2015. 87 p.

“Por ser de lá do sertão (…) Na certa, por isso mesmo”. Por ser Amâncio Siqueira, pernambucano sertanejo do Vale do Pajeú, especificamente da cidade de Afogados da Ingazeira. Lá nascido em 1982, atualmente reside em Garanhuns-PE. Por ele morar em Garanhuns, diríamos: – Graças a Deus! Mas sua escrita nos alerta que “São necessários muitos acasos para compor uma coincidência e muitas coincidências para criar um destino.” E cá ele está em meio a outros escritores. Estreou na cena literária em 2010 com o romance histórico “O Evangelho de São Pecador”.
Mas não vamos aqui ‘quebrar a cabeça’ com o pecado de ninguém. “Pecado mesmo é começar um livro e não terminar”. Preferimos falar das indulgências recebidas ao ler cada ‘oração’ de Quebra Cabeças. É uma novela. A narrativa conta a história de Anselmo que ao retornar de um coma – causado por um acidente de trânsito – depara-se no ano 2053. Passa-se trinta e oito anos. Anselmo não é muito simpático. “Instintivamente, desconfia de pessoas muito educadas e bem vestidas,” Mas é capaz de sorri. É humano. Também ‘verte suas lágrimas’. O núcleo da narrativa é a perda da memória do protagonista. “Talvez seu problema de memória não seja consequência do acidente”. Passados quase 40 anos os táxis estão modernizados, ainda existe celular, algumas redes sociais já foram extintas – caso do face book – e, os clássicos continuam sendo clássicos mesmo que tenham surgido na cena literária: ‘Tenório, Herik, Rodrigues, Siqueira’ etc. São alguns dos maiores clássicos da história que subsidiam Anselmo a livrar-se do cativeiro do esquecimento. Amâncio consegue uma façanha em 18 curtos capítulos que no total fecham em 87 páginas.
O que dizer mais da obra Quebra Cabeças? “Cada livro é um objeto que vai além das palavras nele impressas.” E muito mais além das impressões de leitura de um mortal (como eu). Li com uma dupla postura. Ora mergulhado na história do Anselmo. Ora analisando a construção do texto do Amâncio. Acabei, dessa forma, me perdendo. Pois, cheguei ao fim da história sem saber se era o Anselmo que nos ensinava (e testemunhava) o poder da leitura no que diz respeito a ressuscitação dos vivos. Ou se o Amâncio que demonstra (va) o que ele ‘pode fazer com as palavras e conosco’. Pois, me ajudou a não pecar durante 38 anos. Abri seu livro no ano de dois mil e quinze e só o fechei em 2053 para atravessar a Avenida Rui Barbosa com medo de ser atropelado.
Se eu indico o livro Quebra Cabeças de Amâncio Siqueira? Se eu pudesse, obrigaria muita gente a ler e “sem pecar”. Mas não é assim que se presta serviço à arte literária. É recomendando a leitura sim de obras como Quebra Cabeças. Para pretensos escritores e também para alguns ‘PhDeus’ da literatura que já estão prestes a perder a memória e ainda não aprenderam a escrever. Voltem para a biblioteca e comecem a ler Amâncio Siqueira.

Peças de Quebra Cabeças 2

Continuando a série de resenhas do livro que lanço sábado, cinco de março, em Afogados da Ingazeira, segue a do escritor Wagner Marques, cujo primeiro livro de contos sai ainda no primeiro semestre desse ano:

AMÂNCIO E SEU “QUEBRA CABEÇAS”

Nunca havia lido nada do escritor-amigo Amâncio Siqueira (Nascido em Afogados da Ingazeira, reside em Garanhuns). Sequer cheguei a apreciar seu livro de estreia. No entanto, acabo de ler o seu “Quebra Cabeças” (novela), recém lançado. Fiquei pra lá de satisfeito e convencido. Na narrativa, o Amâncio não só externa sua paixão pela Literatura bem como, nos aspectos formais, mostra rigor em sua prosa, apresentando esmero na construção da linguagem e das vozes das personagens, sendo cuidadoso para não cair no trivial, dando um “drible da vaca”, portanto, numa escrita menor.

 

Quanto ao enredo, “Quebra Cabeças” apresenta como temática central a perda quase total da memória do protagonista Anselmo, que – após ser vítima de acidente e ter passado certo período se recuperando em um hospital (acorda no ano 2053) – retorna a seu lar/biblioteca onde vai travar luta contra a perda da memória para reconstituir diversos episódios de sua vida, através de alguns livros que compuseram sua formação existencial e humana. Claro que não irei entrar na senda dos pormenores.

Pois bem, dito isto, seria injusto encerrar minha impressão de leitura do “Quebra Cabeças em poucas linhas. Isso porque o livro, apesar de apresentar um texto relativamente curto, está inundado de abordagens literárias, psíquicas, filosóficas e existenciais. Enfim, acredito que com esse livro o Amâncio se credencia como voz promissora de uma respeitável obra literária.