Peças do Quebra Cabeças 1

Sábado, 05 de março, tem continuidade a turnê de lançamento de Quebra Cabeças, agora em Afogados da Ingazeira. Até lá, deixarei de publicar textos meus sobre livros de outros para publicar resenhas de outros sobre o meu. Essa série de resenhas terá o título Peças do Quebra Cabeças. Começo com a de Matheus Rocha, escritor que publicou recentemente o livro de contos Inteligência das Coisas Cegas:

Encaixando Experiências

‘Quebra cabeças’, novela de Amâncio Siqueira – escritor afogadense radicado em Garanhuns -, é uma grande ode à literatura. Afunilando mais: aos clássicos. Durante as 90 páginas do livro, a literatura é o caminho possível para recuperar a vida anterior ao acidente, de ter de volta as lembranças basilares que constituem quem era a personagem de Anselmo. Talvez seja uma via para isso pelo fato de que todas as referências usadas e lidas pela personagem sejam dos livros elementares da literatura. O diálogo direto com a literatura clássica é o que move a narrativa de Amâncio, seja pelo acontecimento ou seja pela estrutura. A escrita cheia de digressões, passagens e divagações quase ensaísticas nos diálogos são marca fundamental do classicismo e, ao que parece, do escritor pernambucano.

Somos apresentados à Anselmo num leito de hospital, logo depois de um acidente. A personagem não consegue lembrar nem o nome – este lhe é revelado por uma enfermeira. Ainda sentindo dores e sem elaborar muita coisa, Anselmo vai tentando olhar para o que sua vida se tornara logo depois do acidente. Os acontecimentos que levaram à esse momento são obscurecidos propositalmente, e é nisso que consiste o enigma da novela de Amâncio Siqueira: juntar o grande quebra-cabeça da história de vida da personagem principal.

Nessa grande jogada, Anselmo conta com Socorro, a diarista que toma conta de sua casa, e Henrique, filho dela. Mas seu caminho vai ser iluminado mesmo pela literatura. Logo que volta à casa, a personagem se depara com uma biblioteca pessoal onde habitam, seguramente, boa parte dos clássicos universais da literatura. A partir da leitura (releitura, a bem da verdade, redescoberta de cada um) dos livros, Anselmo vai tomando para si as memórias afetivas que sobrepõe cada livro da estante. Uma dedicatória acende uma luz, ilumina um momento. Um título, uma passagem lança luz sobre algum momento importante de sua vida até ali. A literatura serve, então, como uma lanterna na escuridão da desmemória, provoca um ensimesmamento diário e doloroso. Ilumina, inclusive, o percurso até o acidente – e uma surpreendente entrelinha guarda o leitor.

Ao entregar a narrativa à personagem principal, Amâncio traz uma intimidade que logo é falseada, condensada. E é essa falsa terceira pessoa que vai afastar ou aproximar a narrativa de acordo com os movimentos da personagem: ora uma panorâmica com ações concretas que se passam uma sobre a outra, ora um close detalhado, emocional, ensaístico. O diálogo com os clássicos da literatura fazem emergir a leitura como uma verdadeira experiência formadora, trans-formadora e, até, deformadora. Os clássicos aparecem como verdadeiras alteridades, sem autoritarismos ou totemismo – mas frontalmente diferentes do leitor-narrador, e aí está sua força quase inesgotável. ‘Quebra cabeças’ não é puramente o encaixe para formar a grande figura da vida do protagonista: é leitura para acompanhar a reconstrução a partir do esfumaçado pós-acidente, quebrar a cabeça juntando os encaixes de uma grande experiência – a literatura.

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