Peças do Quebra Cabeças 5

É hoje o lançamento de Quebra Cabeças em Afogados da Ingazeira. Fecho essa série de resenhas sobre o livro com a do contista Nivaldo Tenório, já citado na resenha de Fernando Monteiro publicada ontem:

Embora seja um anônimo, Amâncio Siqueira não é um iniciante na literatura. Foi finalista do Prêmio SESC há seis anos, com um livro de contos ainda inédito (felizmente, pois destoa muito de seus romances já publicados). No romance, diria que alcançou a maturidade já na estreia. Seu “O Evangelho de São Pecador” me surpreendeu muito positivamente, e merece uma edição mais cuidadosa e uma distribuição decente. Com seu “Quebra Cabeças” (Giostri, 2015), essa impressão é aprofundada. É visível que, mesmo numa obra sem a mesma pretensão da anterior, o autor continua buscando conciliar à forma bem acabada, ao apreço com a linguagem, o enredo instigante. Siqueira é um contador de histórias, profissão que está meio abandonada na literatura moderna. Um contador de histórias que não se impôs amarras de um estilo ou uma época, nem se entrega facilmente à auto-complacência. Do romance anterior até este viajou do passado distante (século II DC), até o futuro próximo (2053). Estreando com um romance histórico em estilo épico, agora envereda pela ficção científica. O que sua obra apresenta até aqui, contudo, é uma preocupação com o homem, que pouco mudou de uma época à outra. A unidade de sua obra dá-se pelo comprometimento com um novo humanismo. “Quebra Cabeças” não se encaixa muito bem num gênero. A princípio uma ficção científica, pois inicia com um homem acordando em um hospital em 2053, com células tronco, carros dirigindo-se a si mesmos, pessoas com chips identificadores (impressão acentuada pela capa, com seu quebra-cabeça montado numa cabeça cibernética, colorida, assemelhada às formas futuristas imaginadas em meados do século passado, num retro-futurismo), logo descobrimos que a amnésia do personagem-leitor (uma figura bastante difícil, da qual falarei adiante) é um ensejo para que o romance seja voltado não para o futuro, mas para o passado. Siqueira é um bibliófilo, e escreveu uma obra que transparece sua paixão quase sensual pelos livros. São esses objetos que servirão como guia para o personagem-leitor, num Mapa de Viagem, como bem pontuou Fernando Monteiro. E aí o livro se revela um romance de formação dos mais estranhos, muito bem disfarçado. Os trechos escolhidos das obras que vão montando ao longo da narrativa a história oculta de Anselmo dão pistas de outro aspecto do livro: é um livro que penetra fundo na problemática da memória e do esquecimento. O leitor é levado a perguntar-se a todo instante se valerá a pena lembrar, se não seria melhor afogar-se nas águas do Lete. Dialogando com seus mestres, extrai algumas belas passagens, como esta: “Riobaldo explica-lhe o motivo de querer lembrar: ‘Não gosto de me esquecer de coisa nenhuma. Esquecer, pra mim, é quase igual a perder dinheiro.’ Esquecer tudo, é, então, perder tudo, cair na mais absoluta miséria, pois que é perder até a si mesmo.” O domínio dos diálogos é um ponto a se destacar. A crueza com que Anselmo trata Henrique (ao qual reluta em chamar pelo nome, apelidando-o de Jerimum) não esconde muito bem o cuidado que tem com seu “aprendiz”. Talvez de maneira não totalmente proposital, os diálogos trazem uma carga de tensão e alívio cômico (às vezes concomitantes) que criam uma empatia imediata com seus personagens. É um livro sobre livros, mas é também um livro sobre pessoas; não pessoas abstratas, idealizadas: pessoas concretas, que sangram, choram, comem e se masturbam. E não se orgulham de nada disso. A empatia é também adquirida pela voz narrativa adotada: a segunda pessoa. O autor envereda por um caminho perigoso, um terreno pantanoso que poucos adentraram, do qual a saída com sucesso é incerta. E se sai muito bem do desafio auto-imposto, com poucas manchas e arranhões. O leitor imerge no personagem, descobrindo suas memórias ao mesmo tempo que ele, chegando mesmo a sentir suas dores ou sua confusão, e também seus prazeres. Siqueira nos dá uma bela obra, cativante na forma, surpreendente no conteúdo. Ou vice-versa.

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