A Morte como afirmação da Vida

O livro España y Viva la Muerte não foi imaginado por Nikos Kazantzakis como um romance, embora possa hoje, distanciado no tempo, ser lido como um. Um romance de viagem, um romance filosófico, um romance reportagem, um romance de guerra. A obra está dividida em duas partes: España, que trata de uma viagem que fez ao país em tempos de “paz”, e Viva la Muerte, em que descreve fatos testemunhados durante a guerra civil espanhola, três anos depois da primeira viagem.

Kazantzakis começa como não poderia deixar de ser: “A Espanha tem duas faces: Uma delas, o rosto ardente e anguloso do Cavaleiro da Triste Figura; a outra, a testa prática e ponderada de Sancho.” Seguem-se crônicas das principais cidades espanholas, traçando paralelos entre o presente e o passado, encaixando tudo com o seguinte mote: “Um velho camponês subia até o monte pelo leito seco do rio. Era um homem sólido, toscamente talhado, minado pela chuva e pelo sol. Tinha um bigodinho fino e uma enorme mandíbula. Em nenhuma outra ocasião cheguei a tomar consciência com tanta intensidade de até que ponto tudo – as montanhas, as árvores, os animais, os seres humanos, as ideias – está composto, em cada lugar, da matéria circundante.”

Analisando a matéria circundante, o gênio grego busca traçar perfis dos grandes de Espanha, de Santa Tereza, Quevedo, Dom Afonso II, Goya, Unamuno, Ortega y Gasset, El Greco, Averróis e tantos outros, ao tempo em que vê pairar sobre todos e a todo o país justificar o espírito duplo Quixote/Sancho.

Uma busca incansável do escritor se mostra ainda mais desesperada aqui: a busca pelo espírito. O veremos exaltar os êxtases práticos de Santa Teresa, o cristianismo magro e ossudo de El Greco, o gênio moral de Averróis, a religião de Maomé que ensina a não fugir dos prazeres da carne e justamente nesses prazeres buscar a união com deus, através da comida, do sexo e da guerra, a capacidade do espanhol de conviver com a realidade de que “somos nada” e de que “o paraíso não existe”. Ao narrar uma tourada, traça um paralelo com o homem primitivo, que ao vislumbrar um animal às portas de sua caverna, sentiria que era um deus que vinha matar sua fome. Essa luta do homem com o animal mais poderoso, que traduz a luta do homem com a natureza, rememorada no espetáculo violento da praça de touros, “essa sangrenta pantomima cujos protagonistas são Deus e o homem” porque “assim era a primitiva Sagrada Comunhão, com carne e sangue reais”, já que “às vezes o Deus se nega a ser sacrificado”.

Nesse momento, traça uma síntese de nossa espécie admirável e cruel: “O matrimônio sagrado e o assassinato sagrado são idênticos. Essa identidade pode parecer aos espíritos ingênuos e de bom gosto uma completa demência, mas todo aquele que tiver conhecido o verdadeiro amor a compreenderá. O sangue, a união por meio do sangue, a imortalização do Amor por intermédio da Morte, não são nada além de profundas necessidades humanas.” Ao fim de tantas experiências religiosas, Kazantzakis reafirma que o verdadeiro deus é o coração do homem, e conclui a primeira parte: “Naquele dia meu coração se comoveu profundamente, porque agora estava seguro: a vida é uma luta mortal do Amor e da Morte; uma terrível aventura de Dom Quixote, desesperada e valente.”

Essa sensualidade, esse desespero e esse desejo de sangue se condensam na segunda parte, que recebe o título de Viva la Muerte, brado usado pelos falangistas.Sentimentos que unem os irmãos divididos entre as bandeiras azul e vermelha. O grego busca traçar fotografias da guerra como um correspondente estrangeiro imparcial, no que falha fragorosamente. Seu espírito nunca se permitiria a imparcialidade. Cada página traz a emoção contraditória de um mundo dividido. Vemos diante de nós o cerco a Madri, e fica impossível não traçar um paralelo com o Brasil atual, em que políticos usam o horário eleitoral para afirmar que só estarão dispostos a acabar com o atual impasse e permitir que o país volte a crescer com a saída do atual governo:

— Você não se lastima por ela? Perguntei a um oficial que estava perto de mim.

Por quem?

Por Madri.

É vermelha… Quando voltar a ser azul…

Senti-me atemorizado. Durante muito tempo mirei insaciavelmente para Madri, como se estivesse lhe dizendo adeus para sempre. Agora estava seguro de que a época que estamos vivendo é abominável e de que o espírito está em perigo. Temos que nos apressar agora, se quisermos ver as coisas belas que restam ainda sobre a terra. E isto antes de amanhã. Ou com certeza antes de depois de amanhã, quando as bombas, os aviões e todos esses poderes sombrios virão e as destruirão. Um eclipse. Vemos com nitidez e plenos de tormento como as negras asas de estendem, envolvendo o espírito em trevas.”

Imediatemente esse terror é mesclado à admiração de uma batalha aérea que se desenrola diante de seus olhos, com aviões parecendo aves de rapina despejando ovos explosivos. Sabendo que os marroquinos lutam a guerra, e informado por um oficial que são os melhores soldados, faz uma reflexão que talvez tivesse sido útil para as potências que armaram tantos grupos da África e Oriente Médio para depois fazer guerra contra eles:

Não disse nada. Mas um dia lamentaremos amargamente ter-lhes ensinado a lutar e a matar-nos. Estamos sacrificando o futuro a nossas necessidades mais imediatas. Um dia, todas essas raças vigorosas cairão sobre nós. Porém hoje, ninguém presta a isto a menor atenção. Agradou-me a visão desta lei histórica. Os descendentes dos bárbaros, avançando assim, sem piedade, aplanando o caminho. Na realidade, nós mesmos estamos aplanando o caminho para que acampem entre nós. Mas ninguém se dará conta disto até que o transcurso do tempo o faça evidente. O tempo falará por si mesmo, mas então será tarde demais.”

As passagens mais belas e intrigantes são aquelas em que dá voz às pessoas que sofrem a guerra sem participar das decisões superiores, como quando ouve uma senhora falar de como atearam fogo a seu marido junto de outros grandes da aldeia:

— Em que você acredita, tia Juanita? Todos esses assassinos irão pro inferno?

Pro inferno? – Exclamou surpresa a anciã – Por quê? Pode ser que sintam lástima depois de matá-los. Se você mata alguém e depois o olha e diz: Ah, pobrezinho! Deus lhe perdoará.”

O correspondente de guerra ouve com lamento a notícia da morte de Lorca, e com assombro percebe que o povo espanhol fala sobre os mortos como se tivessem ido a outro país, sem nunca mencionarem que desse país nunca poderão retornar.

Ao terminar o livro, senti minha fé na humanidade ainda menor, embora tenha tido meu momento de eucaristia e renovado minha fé em Kazantzakis e em escritores que, como ele, não aceitam escrever nada que não seja sua própria carne e seu próprio sangue.

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