Apelos

Nos seus poemas de guerra, Siegfried Sassoon (1886-1967) traz numa perfeita linguagem poética todo o sentimento que o campo de batalha lhe causou durante a Primeira Guerra Mundial, na qual lutou pelos aliados, sendo condecorado por bravura. O poeta não se vê, contudo, como um grande soldado, não tem rompantes de bravura em seus versos, ou certezas que só o militarismo consegue dar.
Ao lado do cinismo em relação aos sentimentos patrióticos, da ironia com aqueles que pensam na bravura dos combatentes ao pé da lareira ou nos desfiles, ele demonstra que a trincheira é um espaço de morte, mutilação e desespero, que unem os irmãos em armas não por um sentimento elevado de honra e patriotismo, mas pela piedade e pela busca de sobrevivência.
Um relato cru de atos sem sentido, o livro é também um apelo pela paz e união dos povos, que tem no seu poema “Reconciliação” um dos mais belos testemunhos:
“Homens lutaram como brutos; abomináveis coisas foram feitas;
E você nutriu um ódio duro e cego.
Mas talvez encontre naquele Gólgota
As mães dos homens que mataram seu filho.”

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Nota sobre 1Q84

Em 1Q84, Murakami não homenageia apenas a obra mais conhecida de George Orwell: há as obras e autores que são suas eternas influências desfilando ao longo das páginas, desde a toca do coelho que leva Aomame, uma jovem massagista assassina nas horas vagas a outra realidade, que ela passa a chamar de 1Q84, passando pela arma de Chekov e situações kafkianas que vão criando um crescendo de absurdo que estranhamente torna a narrativa cada momento mais “realista”. O revólver de Chekov, aliás, está lá o tempo todo, sem ser disparado, desde a Crisálida de Ar até um homicídio sem solução.

Entretanto, deixo as histórias paralelas de Tengo e Aomame para o deleite do leitor, que deve descobri-las na narrativa, construindo aos poucos a empatia que a leitura exige para alcançar seu máximo efeito. Aqui quero destacar apenas um aspecto da trama: Murakami traça paralelos da seita Vanguardia/Amanecer com a Aum Shinrikyo (“Verdade suprema”), criada nos anos 1980, que no início misturava crenças hinduístas e budistas, mas depois incluiu na salada de sua ortodoxia algumas profecias cristãs. Seu fundador, Shoko Asahara, declarou ser, ao mesmo tempo, Jesus Cristo e o primeiro “iluminado” a chegar à Terra desde Buda. Em 1989, a Aum ganhou status de organização religiosa no Japão. Assim, atraiu dezenas de milhares de seguidores pelo mundo – Asahara escreveu livros e chegou a dar palestras em universidades. Muitos dos entusiastas da seita eram, inclusive, estudantes de renomadas instituições japonesas. Em 20 de março 1995, ela foi responsável por um ataque que matou 13 pessoas e feriu outras 5 mil no metrô de Tóquio. Nele, usou gás sarin, letal para o sistema nervoso.
No mundo de 1Q84, a organização ganha status de religião mais cedo, assim como tem uma escalada de violência, com um tiroteio contra a polícia em que resultam várias mortes. Há então a criminalização de Amanecer, que passa à clandestinidade, enquanto Vanguardia continua a crescer. No mundo de Murakami, o líder da seita tem realmente poderes sobrenaturais, através do contato com a Little People, mas aqui já estamos fugindo do assunto desta nota.

Mais uma vez o autor japonês alia a uma história envolvente, a personagens muito complexos, citações a fatos corriqueiros e os perigos que eles atraem, envolvendo desde a Yakusa até seitas violentas em suas tramas.

Lixo

Procurando nos meus cadernos da adolescência algo que pudesse aproveitar para um conto, consegui salvar umas duas páginas em quatro cadernos. Três foram pro lixo. Impressionante como eu tinha capacidade de escrever porcaria há quinze anos. Espero que daqui a outros quinze não olhe pros livros publicados e tenha essa mesma sensação.

O que escrevemos tem também isso de semelhante ao que vivenciamos: precisamos de um certo distanciamento para poder julgar.

¿Para qué sirve la literatura? – Zenda

Descobri o saite Zenda por meio do Homoliteratus e dei de cara com esse belo texto:
Cuenta la historia que un reportero le preguntó una vez al gran José Saramago para qué servía la literatura. El premio Nobel le contestó: “La literatura no sirve para nada“. Y dio gracias al Creador, (bueno, no precisamente al creador, porque Saramago era ateo, pero a algo le dio las gracias) porque en este mundo tan… Leer más

Fonte: ¿Para qué sirve la literatura? – Zenda

Entre deuses e homens

Embora fã de cinema, não posso dizer que tenha qualquer propriedade como crítico de cinema. Entretanto, me considero um especialista em histórias, e é por esse viés que analiso aqui Batman v Superman.

Primeiramente, devo bater palmas para Zack Snyder, diretor corajoso, que desafia os grandes estúdios para criar filmes que façam sentido para ele. O universo DC nos cinemas ganha identidade, e uma identidade que me agrada muito. A Marvel tornou-se maior que a DC nos quadrinhos por trazer personagens mais críveis, profundos, e a DC correu atrás nos anos oitenta com a linha Vertigo. Nos cinemas, vemos algo oposto: em nenhum momento a Marvel conseguiu passar credibilidade em seus personagens. O mundo está ruindo ao redor e eles estão fazendo stand up comedy. Um deus caminha na Terra e as pessoas estão preocupadas com seu abdômen.

Desde o início de Batman v Superman, sentimos o impacto absurdo de deuses caminhando entre nós. A impotência do ser humano diante de um ser capaz de derrubar prédios, e as questões que isso levantaria. O mundo mudou, e isso não é engraçado. A participação do Neil Degrasse Tyson é emblemática: “A chegada do Superman me remete a Copérnico, que recolocou o sol no centro do nosso sistema solar, colocando a Terra à margem; depois, Darwin nos mostrou que não somos especiais em nosso planeta, mas apenas uma espécie entre tantas. Agora percebemos que não somos sequer especiais no universo: existe um Superman no universo. Fizemos contato.”

Embora não tenha gostado de seus trejeitos, muito coringados, as intervenções de Lex Luthor são muito acertadas: deuses brincam com os humanos, e devem ser confrontados. Nenhum poder pode ser inocente. Algumas falas do filme, sem associar aos personagens: “No nosso planeta, todo ato é um ato político.” “Os homens criaram um mundo em que não podemos ficar juntos.” “Nesse mundo não se pode ser bom por muito tempo.” “Você não é valente. Humanos são valentes.” Se os homens não são bons, seria um alienígena ou uma deusa a solução? Muitos deuses já surgiram, e nenhum deixou de ser parte do problema.

O filme não é feito pra crianças. Não encontraremos um roteiro com verbetes da wikipedia explicando cada personagem e o expectador terá que tentar juntar as peças e entender o que está acontecendo. A maioria das críticas negativas que vi até o momento reclamam disso, e mais uma vez aplaudo Snyder: não subestime o público. As pessoas têm cérebros, são capazes de raciocinar. Não entregue tudo mastigado, deixa-as pensar a respeito.

Batman v Superman é uma grande história. As grandes histórias trazem grandes personagens, mas não se sustentam apenas neles. Me vi assistindo ao embate entre Gilgamesh e Enkidu, ou Aquiles contra Heitor. Dom Quixote investindo contra um moinho de vento com uma lança de kriptonita. O uso da coincidência dos nomes das mães dos antagonistas remete a essas histórias que compuseram o arcabouço cultural que há de nos acompanhar como espécie durante nossa errância pelo frio cosmo.

Como as grandes histórias fazem, não consegui sentar, esquecer  do mundo e imediatamente esquecer o filme. Pensei a realidade durante o filme, penso o filme em minha realidade.