Entre deuses e homens

Embora fã de cinema, não posso dizer que tenha qualquer propriedade como crítico de cinema. Entretanto, me considero um especialista em histórias, e é por esse viés que analiso aqui Batman v Superman.

Primeiramente, devo bater palmas para Zack Snyder, diretor corajoso, que desafia os grandes estúdios para criar filmes que façam sentido para ele. O universo DC nos cinemas ganha identidade, e uma identidade que me agrada muito. A Marvel tornou-se maior que a DC nos quadrinhos por trazer personagens mais críveis, profundos, e a DC correu atrás nos anos oitenta com a linha Vertigo. Nos cinemas, vemos algo oposto: em nenhum momento a Marvel conseguiu passar credibilidade em seus personagens. O mundo está ruindo ao redor e eles estão fazendo stand up comedy. Um deus caminha na Terra e as pessoas estão preocupadas com seu abdômen.

Desde o início de Batman v Superman, sentimos o impacto absurdo de deuses caminhando entre nós. A impotência do ser humano diante de um ser capaz de derrubar prédios, e as questões que isso levantaria. O mundo mudou, e isso não é engraçado. A participação do Neil Degrasse Tyson é emblemática: “A chegada do Superman me remete a Copérnico, que recolocou o sol no centro do nosso sistema solar, colocando a Terra à margem; depois, Darwin nos mostrou que não somos especiais em nosso planeta, mas apenas uma espécie entre tantas. Agora percebemos que não somos sequer especiais no universo: existe um Superman no universo. Fizemos contato.”

Embora não tenha gostado de seus trejeitos, muito coringados, as intervenções de Lex Luthor são muito acertadas: deuses brincam com os humanos, e devem ser confrontados. Nenhum poder pode ser inocente. Algumas falas do filme, sem associar aos personagens: “No nosso planeta, todo ato é um ato político.” “Os homens criaram um mundo em que não podemos ficar juntos.” “Nesse mundo não se pode ser bom por muito tempo.” “Você não é valente. Humanos são valentes.” Se os homens não são bons, seria um alienígena ou uma deusa a solução? Muitos deuses já surgiram, e nenhum deixou de ser parte do problema.

O filme não é feito pra crianças. Não encontraremos um roteiro com verbetes da wikipedia explicando cada personagem e o expectador terá que tentar juntar as peças e entender o que está acontecendo. A maioria das críticas negativas que vi até o momento reclamam disso, e mais uma vez aplaudo Snyder: não subestime o público. As pessoas têm cérebros, são capazes de raciocinar. Não entregue tudo mastigado, deixa-as pensar a respeito.

Batman v Superman é uma grande história. As grandes histórias trazem grandes personagens, mas não se sustentam apenas neles. Me vi assistindo ao embate entre Gilgamesh e Enkidu, ou Aquiles contra Heitor. Dom Quixote investindo contra um moinho de vento com uma lança de kriptonita. O uso da coincidência dos nomes das mães dos antagonistas remete a essas histórias que compuseram o arcabouço cultural que há de nos acompanhar como espécie durante nossa errância pelo frio cosmo.

Como as grandes histórias fazem, não consegui sentar, esquecer  do mundo e imediatamente esquecer o filme. Pensei a realidade durante o filme, penso o filme em minha realidade.

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