Nota sobre 1Q84

Em 1Q84, Murakami não homenageia apenas a obra mais conhecida de George Orwell: há as obras e autores que são suas eternas influências desfilando ao longo das páginas, desde a toca do coelho que leva Aomame, uma jovem massagista assassina nas horas vagas a outra realidade, que ela passa a chamar de 1Q84, passando pela arma de Chekov e situações kafkianas que vão criando um crescendo de absurdo que estranhamente torna a narrativa cada momento mais “realista”. O revólver de Chekov, aliás, está lá o tempo todo, sem ser disparado, desde a Crisálida de Ar até um homicídio sem solução.

Entretanto, deixo as histórias paralelas de Tengo e Aomame para o deleite do leitor, que deve descobri-las na narrativa, construindo aos poucos a empatia que a leitura exige para alcançar seu máximo efeito. Aqui quero destacar apenas um aspecto da trama: Murakami traça paralelos da seita Vanguardia/Amanecer com a Aum Shinrikyo (“Verdade suprema”), criada nos anos 1980, que no início misturava crenças hinduístas e budistas, mas depois incluiu na salada de sua ortodoxia algumas profecias cristãs. Seu fundador, Shoko Asahara, declarou ser, ao mesmo tempo, Jesus Cristo e o primeiro “iluminado” a chegar à Terra desde Buda. Em 1989, a Aum ganhou status de organização religiosa no Japão. Assim, atraiu dezenas de milhares de seguidores pelo mundo – Asahara escreveu livros e chegou a dar palestras em universidades. Muitos dos entusiastas da seita eram, inclusive, estudantes de renomadas instituições japonesas. Em 20 de março 1995, ela foi responsável por um ataque que matou 13 pessoas e feriu outras 5 mil no metrô de Tóquio. Nele, usou gás sarin, letal para o sistema nervoso.
No mundo de 1Q84, a organização ganha status de religião mais cedo, assim como tem uma escalada de violência, com um tiroteio contra a polícia em que resultam várias mortes. Há então a criminalização de Amanecer, que passa à clandestinidade, enquanto Vanguardia continua a crescer. No mundo de Murakami, o líder da seita tem realmente poderes sobrenaturais, através do contato com a Little People, mas aqui já estamos fugindo do assunto desta nota.

Mais uma vez o autor japonês alia a uma história envolvente, a personagens muito complexos, citações a fatos corriqueiros e os perigos que eles atraem, envolvendo desde a Yakusa até seitas violentas em suas tramas.

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