Entre os dedos

Em Isso que Escorre (u-Carboreto, 2016, 96 páginas) Wagner Marques, estreante autor garanhuense, mostra inventividade em quinze contos curtos, com temática variada, embora tragam em si um tema maior que os une: a dor que cerca as vidas que escorrem entre dedos incertos. A notícia policial deixa de ser algo impessoal, adentra o mundo do leitor, faz as tripas revirarem, parafusam no juízo.

Inventividade levada ao máximo em O Saco. O conto Coisa de Deus poderia incorrer em algo que não gosto em Eça de Queiroz: o moralismo do pecado feminino sempre punido, disfarçado no realismo da narrativa. O título, contudo, e os questionamentos suscitados, levaram minha leitura por outro caminho. É de se destacar, ao lado da inventividade, a liberdade criativa do autor. Em nenhum dos contos usa a si mesmo como personagem, ou deixa entrever suas opiniões, inclusive em muitos momentos ouvindo – e calando diante de – perguntas iconoclásticas de seus personagens. Mesmo o conto que traz a frase que dá título ao livro, A Marca Intensa, que poderia facilmente descambar para um panfleto contra o aborto, torna-se uma problematização a respeito do desgaste das relações, escorrendo junto dos grãos de areia da ampulheta.

Não há tentativas de poesia gratuita. Os poucos trechos poéticos são bem selecionados e postos em pontos certos, auxiliando na fluidez da narrativa, escorrendo junto com a violência relatada, sem buscar o paliativo.

Particularmente, não gostei do uso de colchetes. Na maioria dos casos, creio que as falas e pensamentos dentro do próprio parágrafo funcionariam melhor. Um pouco mais de estudo do discurso indireto livre poderá fazer os escritos de Wagner Marques ainda mais interessantes.

Seres fantásticos

Em O Centauro no Jardim, Moacyr Scliar dá uma demonstração de sua poderosa imaginação, contando a história de Guedali, um centauro nascido no interior do Rio Grande do Sul, filho de um casal de judeus fugido da Europa. O início do livro remete a outro escritor judeu, Kafka, embora o desenrolar dos fatos leve por outro caminho.

A narrativa não apenas trata de centauros, como também de outras criaturas fantásticas, inclusive seres humanos. A estrutura da narrativa, com a trama principal se desenrolando sem questionamentos por todo o livro e um último capítulo, quase um epílogo, trazendo uma versão mais “realista” da história, mostra que Yann Martel, autor de As Aventuras de Pi, não se inspirou apenas em Max e os Felinos para tecer seu livro.

Embora o romance de Scliar deixe clara a tentativa de retorno ao frescor do romance pré-século dezenove, buscando traduzir a realidade sem necessariamente ser realista, e consiga ser literatura séria com sua fantasia bem trabalhada, o ponto baixo são as coincidências, que me fizeram pensar estar lendo quadrinhos do Homem Aranha ou programas de humor da Globo em alguns momentos: Guedali foge de casa e encontra um circo, foge do circo e encontra uma centaura, exatamente no único dia em que ela saiu de casa, entra num táxi em São Paulo e o taxista é Pedro Bento, um cara com quem teve problemas na infância na fazenda no Rio Grande, e esse mesmo Pedro Bento torna-se segurança num condomínio em que ele vai morar, além de ter sido namorado da domadora do circo em que ele ficou um tempo, e do qual teve que fugir justamente depois de ter tentado ter relações com ela. E isso é só o começo.

As coincidências apequenam um mundo que deveria se ampliar diante do leitor, repovoado com centauros, esfinges e sereias.