E o resto fica escondido

E o resto fica escondido

Juan de Vere é muito mais que um personagem narrador em Así Empieza lo Malo, embora só consigamos perceber seu verdadeiro interesse em contar a história do casal Eduardo Muriel e Beatriz com a narrativa bastante avançada. E esse destaque não se dá apenas pela relação do seu sobrenome com a verdadeira identidade de Shakespeare, aventada por um dos orgulhosos frequentadores da casa do cineasta caolho que lhe dá seu primeiro emprego, como seu secretário particular, que o marcará para sempre. É inclusive um verso de Shakespeare que inspira o título do romance.
Na Espanha pós-franquista, numa incipiente democracia sustentada por uma lei de Anistia que leva a todos a buscar o perdão e o esquecimento, há um fato no passado do casal que jamais pôde ser perdoado por Muriel, fazendo com que a vida de ambos seja o espelho de uma sociedade na qual a influência da igreja católica impede os casais de buscarem novos rumos, diante da falta de uma lei de divórcio há muito esperada.
Depois de quase um século de guerras civis e ditaduras, os cidadãos buscam na liberalidade sexual uma atuação social que a política desacreditada já não inspira. Muriel então incumbe a Juan a tarefa de introduzir o médico Van Vechten, amigo da família e pediatra dos quatro filhos, inclusive daquele que morreu na infância, nesse novo mundo de sexo e drogas, embora sua verdadeira incumbência seja descobrir a verdade sobre seu passado obscuro durante o regime de Franco.

O autor faz engenhosamente essa ponte entre as épocas, traçando um retrato em perspectiva do século espanhol.
Com personagens marcantes e uma excelente história, o que mais me chamou atenção foi o estilo de Javier Marías, cheio de digressões e rodeios, de reflexões que fogem do foco narrativo constantemente, lembrando outro narrador ibérico que é cadeira cativa em minhas leituras: Saramago.
Foi o primeiro Marías que li, mas não será o único.

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Isolados

Isolados

Aldous Huxley retorna ao tema das topias em A Ilha. O romance é o último do autor, depois de uma carreira de mais de quarenta anos em que sua distopia Admirável Mundo Novo acabava de ser revisitada. Nesse livro, Huxley tenta traçar sua ideia de uma utopia, tomando como exemplo a ilha de Pala, minúsculo ponto de terra encravado no Oceano Índico. Apesar de haver um drama pessoal na vida do personagem central, Will Farnaby, que vai parar lá como enviado secreto de um dos maiores donos da indústria petrolífera, justamente para conseguir explorar a riqueza do pequeno país, e acaba sofrendo um acidente que o leva a necessitar dos cuidados dos nativos, a divisão dos capítulos por temas enfraquece a identificação com os personagens, que parecem surgir apenas para apresentar didaticamente a organização sociopolítica do local.

O autor traça um retrato de sua sociedade ideal: como organizar as famílias (A família não é nuclear, vários pais adotam vários filhos num club de adoção mútua, sendo essa família maior o verdadeiro cerne da sociedade); como educar sexualmente (a yoga do amor, que libera as pessoas desde a juventude para descobrir-se sexualmente de forma plena); o sistema educacional; a saúde (com vários cuidados para evitar a necessidade de cirurgia, embora tenham um excelente sistema hospitalar); a religião (as pessoas são encorajadas a duvidar da crença, a usar a fé a seu serviço, ao invés de ser servidores da fé); o governo (Farnaby tem vários diálogos com Murugan, herdeiro do rajá falecido, um jovem criado pela mãe na Europa, e portanto seduzido pelo mundo exterior, “corrompido” contra o sistema tão melhor de seu país natal, e muito amigo do ditador da ilha vizinha, Rendang, já controlada pela indústria petrolífera, o que gera certas incertezas em relação à continuidade da paz social de que desfrutam).

Obviamente, Huxley não deixaria de colocar as drogas como parte central de sua proposta de uma civilização mais avançada, e há várias páginas dedicadas ao cogumelo usado pelos ilhéus para encontrarem a si mesmos e o espírito que paira sobre as águas.

Entre as propostas para a educação, tem uma que achei particularmente interessante: todos os jovens que terminam o ensino médio devem participar de uma escalada. Talvez falte de fato um rito de passagem que traga certo perigo em ambiente controlado para nossos jovens, uma forma de reconhecimento de que demonstraram coragem e determinação e merecem o reconhecimento de que chegaram à idade adulta, diante de tantas tentativas de substituição desse rito que vemos diariamente terminar em tragédia.

A Ilha é um livro interessante como romance-ensaio, embora deixe a desejar do ponto de vista literário. Na literatura, as distopias continuam sendo mais sinceras e interessantes.

O Silêncio do Casulo

Hannibal Lecter é um dos mais icônicos personagens do século vinte. A transposição do clássico O Silêncio dos Inocentes, de Thomas Harris, para o cinema, com a incrível atuação de Anthony Hopkins, tornou o livro indissociável do filme, ambos obras primas em seus gêneros.
Acompanhamos a aspirante a agente do FBI Clarice Starling numa missão assustadora: entrevistar o médico canibal. As entrevistas tomam um rumo inesperado quando Lecter começa a decifrar as intenções de Buffalo Bill, um assassino em série de mulheres investigado pelo chefe de Clarice, Crawford, que trabalha na busca pelo assassino mesmo com sua esposa doente em fase terminal.
Harris é um mestre na construção dos personagens e dos cenários. O desenvolvimento dos agentes, das vítimas e especialmente dos assassinos impressionam. Suas tramas são construídas com elementos de psicologia, criminalística, química e muita literatura, costuradas de forma fluida e muito prazerosa, levando o leitor a cumprir o quid pro quo sugerido pelo doutor Lecter.