Isolados

Aldous Huxley retorna ao tema das topias em A Ilha. O romance é o último do autor, depois de uma carreira de mais de quarenta anos em que sua distopia Admirável Mundo Novo acabava de ser revisitada. Nesse livro, Huxley tenta traçar sua ideia de uma utopia, tomando como exemplo a ilha de Pala, minúsculo ponto de terra encravado no Oceano Índico. Apesar de haver um drama pessoal na vida do personagem central, Will Farnaby, que vai parar lá como enviado secreto de um dos maiores donos da indústria petrolífera, justamente para conseguir explorar a riqueza do pequeno país, e acaba sofrendo um acidente que o leva a necessitar dos cuidados dos nativos, a divisão dos capítulos por temas enfraquece a identificação com os personagens, que parecem surgir apenas para apresentar didaticamente a organização sociopolítica do local.

O autor traça um retrato de sua sociedade ideal: como organizar as famílias (A família não é nuclear, vários pais adotam vários filhos num club de adoção mútua, sendo essa família maior o verdadeiro cerne da sociedade); como educar sexualmente (a yoga do amor, que libera as pessoas desde a juventude para descobrir-se sexualmente de forma plena); o sistema educacional; a saúde (com vários cuidados para evitar a necessidade de cirurgia, embora tenham um excelente sistema hospitalar); a religião (as pessoas são encorajadas a duvidar da crença, a usar a fé a seu serviço, ao invés de ser servidores da fé); o governo (Farnaby tem vários diálogos com Murugan, herdeiro do rajá falecido, um jovem criado pela mãe na Europa, e portanto seduzido pelo mundo exterior, “corrompido” contra o sistema tão melhor de seu país natal, e muito amigo do ditador da ilha vizinha, Rendang, já controlada pela indústria petrolífera, o que gera certas incertezas em relação à continuidade da paz social de que desfrutam).

Obviamente, Huxley não deixaria de colocar as drogas como parte central de sua proposta de uma civilização mais avançada, e há várias páginas dedicadas ao cogumelo usado pelos ilhéus para encontrarem a si mesmos e o espírito que paira sobre as águas.

Entre as propostas para a educação, tem uma que achei particularmente interessante: todos os jovens que terminam o ensino médio devem participar de uma escalada. Talvez falte de fato um rito de passagem que traga certo perigo em ambiente controlado para nossos jovens, uma forma de reconhecimento de que demonstraram coragem e determinação e merecem o reconhecimento de que chegaram à idade adulta, diante de tantas tentativas de substituição desse rito que vemos diariamente terminar em tragédia.

A Ilha é um livro interessante como romance-ensaio, embora deixe a desejar do ponto de vista literário. Na literatura, as distopias continuam sendo mais sinceras e interessantes.

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