Futuro do Pretérito

“Tenéis razón; se trata de una mezcla de todas las cosas en las que hemos pensado despiertos, una quimera monstruosa, una conjunción de cuestiones confusas que nos presenta desordenadas la fantasía, que en el sueño no cuenta con la guía de la razón y de las que creemos conocer el verdadero sentido a base de retorcerlas, extrayendo de los sueños, como de los oráculos, una ciencia del porvenir. Pero voto a tal que no encuentro ninguna otra relación entre ellas salvo el hecho de que los sueños, como los oráculos, no pueden entenderse.”

Cyrano de Bergerac, História Cômica dos Estados e Impérios do Sol

O libertino, boêmio, pensador Cyrano de Bergerac é um dos personagens icônicos do ocidente, popularizado pela peça de Edmond Rostand, que associou o longo nariz, o bigode fino e a pena no chapéu a cenas cômicas de balcão.

Em Os Estados e Imperios da Lua encontramos um precursor da ficção científica, com a viagem do autor até nosso satélite. Cyrano lança mão do instrumento de divulgação científica universal desde Platão: o diálogo, muito utilizado pelos pensadores até então, desde Maquiavel até Galileu, e só abandonado depois de Newton para esse fim. O principal interlocutor do nosso viajante é o demônio de Sócrates. Embora seja um livro de aventuras (como toda boa ficção científica) cheio de prisões, ameaças de morte e julgamentos, é quando eles conversam ou nas descrições do utópico mundo da lua que encontramos o verdadeiro Cyrano, o pensador libertino, divulgador do atomismo, do ateísmo, da ciência experimental.

Habilmente o autor se defende de tais idéias, afirmando perceber a maldade do demônio de Sócrates e fugir do mesmo como se fora o próprio anticristo.

Enquanto nessa primeira obra encontramos o alquimista/pensador/cientista, inclusive antevendo em 1640 a existência de audiolivros, na história cômica dos estados e Impérios do Sol ele parece juntar sem muito critério fantasias, fábulas e anedotas, apesar de iniciar com uma máquina voadora, vemos um filósofo ácido, uma ironia absurda. Infelizmente, é seu último trabalho e não está finalizado. Ao ser julgado pelos pássaros, faz um julgamento do ser humano radical até em relação a muitos ambientalistas atuais.

Falando sobre a morte, faz uma defesa do atomismo que preconiza o eterno retorno nietzscheano:

“Y además reconóceme que el que no ha nacido no es desgraciado. Por tanto, vas a ser como quien no ha nacido. Un instante después de la vida serás lo que eras un instante antes de nacer. Y una vez transcurrido aquel instante llevarás muerto tanto tiempo como quien murió hace mil siglos. En todo caso, supuesto que la vida sea un bien, la misma casualidad que hace que seas ahora en la infinidad del tiempo, ¿no podrá hacer que vuelvas a ser otra vez? La materia que a fuerza de mezclarse alcanza por fin esa cantidad, esa disposición y ese orden necesarios para la construcción de tu ser ¿acaso no puede volver a mezclarse a fin de llegar a la disposición necesaria para hacer que sientas ser de nuevo? Sí, me dirás, pero no recordaré haber sido. ¡Ah, querido hermano! ¿Qué te importa con tal de que sientas que eres? Y además, ¿no podrá ser que para consolarte de la pérdida de la vida te imagines las mismas razones que yo te expongo ahora?”

Ao interpretar o sistema solar como um sistema fechado, embora cometa um equívoco, cria uma bela imagem da radiação solar:

“Los polos son las bocas del cielo a través de las cuales éste recupera la luz, el calor y las influencias que ha diseminado por la tierra, porque si todos los tesoros del Sol no volvieran a su fuente, haría mucho tiempo que se hubiera extinguido (ya que todo su fulgor no es otra cosa que un polvo de átomos inflamados que se desprenden de su globo).”

Cyrano faz um apanhado de várias teorias filosóficas, incluindo intuições sobre o darwinismo. Tem, é óbvio, muitos erros, como as distâncias entre os astros, como imagina a composição dos mesmos, e a existência do éter (elemento que até Eintein buscou em algum momento), além de engraçadas hipóteses acerca do corpo humano. Contudo, perceber a imaginação deste sábio do século dezessete é um alento, e verdadeiramente prazeroso ler sua prosa.

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