A César…

Procuro dar a este blogue um caráter puramente literário, ou ao menos bibliófilo, mas às vezes tenho que fugir um pouco disso. Nessa postagem vou comentar uma imagem que tem sido muito compartilhada, comparando as estrelas da seleção masculina e feminina de futebol.

Essa comparação nãmarta.jpgo tem a mínima lógica, e é tão absurda em tão diversos níveis, que não posso me furtar a comentá-la. Não assisto futebol, nem masculino nem feminino, e não considero Neymar melhor que a Marta, porém temos que entender como o mundo funciona. O primeiro absurdo, do ponto de vista econômico: Se compara dois funcionários de empresas diferentes e se estabelece um parâmetro de produtividade em relação a uma terceira empresa. Essa imagem ainda dá a entender que os salários são pagos pela seleção. Quem paga são os clubes, e pra eles se o jogador nem jogasse pela seleção seria melhor. Dão a mínima pra gols marcados pela seleção. Querem saber de quem vende ingresso e camisa e ganha títulos pelo clube (e a única importância dos títulos é aumentar o número de torcedores e, consequentemente, a venda de camisas e ingressos). David Beckham nunca prestou, mas foi mais bem pago por um bom tempo. Outro absurdo é considerar que algum(a) atleta do futebol é pago por gol marcado. Se assim fosse, coitados dos goleiros e zagueiros. Tem ainda a divisão do salário anual pelos gols marcados em toda a carreira, que é de um nonsense aberrante. Se o clube de Marta pagasse o salário de Neymar pra ela, quebraria, e essa é uma conta muito fácil de fazer.

Quem usa a imagem faz uma comparação infeliz: compara o mundo do entretenimento (sim, a remuneração esportiva se dá pelo entretenimento que proporciona: quem vende mais ganha mais) com o mundo corporativo. Reclamar dessa diferença é como reclamar que Gisele Bündchen ganhe mais que modelos masculinos, ou que Ivete Sangalo ganhe mais que Alceu Valença: algo sem nexo. As desigualdades de gênero devem ser combatidas quando não se apoiam em regras da própria indústria, sem as quais a indústria ruiria. Uma CEO de uma grande empresa traz tantos benefícios quanto um CEO, assim como seus faxineiros de ambos os sexos, mas uma cantora, um atleta, uma bailarina e qualquer outra carreira do entretenimento não podem ser comparados ente si, pois cada um gera um valor individual.

Essa imagem é compartilhada em sua imensa maioria por pessoas que não assistem esportes, que não compram ingresso, nem camisa oficial do clube, não compram pay-per-view, que não comprariam produtos se fossem anunciados por Marta… Ou seja, pessoas que podem achar alguma lógica nessa comparação, e compartilhar essa imagem um bilhão de vezes, contudo tenho que fazer-lhes um lembrete: Se todas as pessoas da Terra pararem de acreditar na gravidade, ninguém sairá flutuando por isso. O mundo vai continuar os mesmo, e a lógica que o move também: o clube que paga o salário de Marta continuará pagando o mesmo salário, pois é uma empresa e tem que se manter.

Se as pessoas quiserem que Marta ganhe igual a Neymar, ou mais que ele, têm que assistir aos jogos dela pelo clube, comprar ingressos e camisas. Terão que contribuir com o fim dessa desigualdade.

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