Eram um Homem e um Menino

“Tentou se lembrar do sonho mas não conseguiu. Tudo o que restava era a sensação. Pensou que talvez eles tivessem vindo avisá-lo. De quê? De que ele não podia acender no coração da criança o que eram cinzas no seu próprio.”

“O velho sacudiu a cabeça. Já deixei tudo isso para trás. Faz anos. Onde os homens não podem viver deuses também não se sentem bem. Você vai ver. É melhor ficar sozinho. Então espero que não seja verdade o que você disse pois estar na estrada com o último deus seria uma coisa terrível então espero que não seja verdade. As coisas vão melhorar quando todos tiverem morrido.”
Cormac MacCarthy, A Estrada

Literatura é feita entre dois extremos que muitas vezes se complementam: há os livros que tratam de personagens sentados à margem de um lago, refletindo sobre entrar nele, e livros em que os personagens são arrastados por um rio que os leva em direção a uma queda d’água. Embora os autores que fazem o primeiro modo funcionar sejam gênios, e possa listar entre grandes obras do tipo as Memórias Póstumas de Brás Cubas e Oblomov, confesso que o segundo modo me agrada mais, e nesse Cormac MacCarthy é um verdadeiro titã.
Seus livros são tsunamis, atingindo o leitor na praia e arrastando-o para o meio dos escolhos. Não há incolumidade depois de entrar nos mundos que o escritor estadunidense cria.
Cormac mostra que a grande literatura se faz independentemente do gênero escolhido, criando obras primas com um profundo trabalho da linguagem, adaptando-a desde westerns até distopias pós-apocalípticas, como A Estrada (The Road), vencedor do Pulitzer em 2007. O curto romance nos leva a acompanhar de perto a épica jornada do homem e do menino, pai e filho, por um mundo morto. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu, ou quando, e são perguntas irrelevantes quando a própria linguagem do mundo que se foi começa a desvanecer, quando apenas algumas vezes não se tem inveja dos mortos. Quando o próprio planeta parece ter se entregue à morte com alívio.

A sensação de peregrinar junto com eles é muito forte, de sentir o frio, a chuva, o perigo, a fome e a incerteza. A ausência opressiva da mulher/mãe, em sua dura decisão. Levamos golpes a cada frase, e metáforas aparentemente deslocadas (“vasculhavam a casa como compradores céticos” ou “caminhavam pela estrada como hamsters em suas rodinhas”) criam potentes contrastes entre o que é e o que foi, além de brincar com a “segurança” que sentimos em nosso mundo “civilizado”. A épica de McCarthy não é uma épica de exaltação da civilização, mas de questionamento da mesma, embora esse questionamento leve a uma admiração pelo ser humano.

Os personagens de MaCarthy sempre estão procurando atravessar uma fronteira, seguindo em frente apesar de todas as forças contrárias, embora nunca saibamos ao certo (e eles tenham sérias dúvidas) se serão recompensados se chegarem ao outro lado, ou se não seria melhor apenas sentarDownload-A-Estrada-Cormac-McCarthy-em-ePUB-mobi-e-PDF à margem e esparar que o mundo siga seu curso.

Um questionamento que todos nos fazemos, mesmo inconscientemente, a cada dia.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s