Ponto Cego

“That was when it started getting dark … but no, that’s not exactly right. My thought at the time was not that it was getting dark but that the lights in the market had gone out. I looked up at the fluorescents in a quick reflex action, and I wasn’t alone. And at first, until I remembered the power failure, it seemed that was it, that was what had changed the quality of the light, Then I remembered they had been out all the time we had been in the market and things hadn’t seemed dark before. Then I knew, even before the people at the window started to yell and point.
The mist was coming.” (Foi quando começou a ficar escuro… não, não exatamente escuro. Meu pensamento na hora não foi foi de que estava ficando escuro, mas que as luzes do mercado tinham sido desligadas. Olhei pra cima, pras lâmpadas fluorescentes por reflexo, e não fui só eu. primeiramente, até lembrar da falta de energia, pareceu que fosse isso a causa da mudança na luz. Então eu me lembrei de que elas estavam desligadas o tempo inteiro no mercado e ainda assim não parecia tão escuro antes. Então eu soube, antes mesmo das pessoas nas janelas começarem a gritar e apontar.

O nevoeiro estava chegando.”

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O Nevoeiro (The Mist) é uma novela de Stephen King inicialmente publicada em coletâneas nos anos oitenta e que só em 2007, quando do lançamento do filme homônimo, ganhou edição própria. King afirma ter vivido algo parecido a situação inicial do livro, quando David Drayton, após uma tempestade de grandes proporções, sai com seu filho de cinco anos, Billy, para comprar mantimentos num supermercado, deixando a esposa em casa. O livro está repleto de pensamentos e sentimentos que uma situação assim podem suscitar, iniciando com os cabos de eletricidade partidos na propriedade e indo num crescendo de horror claustrofóbico com a chegada do nevoeiro e os horrores que ele esconde (“One of the tentacles brushed delicately past my cheek and then wavered in the air, as if debating. I thought of Billy then. Billy was lying asleep in the market by Mr. McVey’s long white meat cooler. I had come in here to find something to cover him up with. If one of those things got hold of me, there would be no one to watch out for him-except maybe Norton” – Um dos tentáculos roçou delicadamente minha bochecha e então ondulou no ar, como se estive deliberando. Pensei em Billy então. Billy dormia no supermercado, perto do longo e pálido frigorífico de seu McVey. Eu tinha vindo ali para procurar algo com que enrolá-lo. Se uma dessas coisas me pegasse, não restaria ninguém para cuidar dele – exceto talvez Norton).

O livro é narrado em primeira pessoa por Drayton, que ganha a vida como pintor comercial, e King consegue dar credibilidade à narrativa mostrando a história desse ponto de vista. O narrador, muito ligado ao lado visual, está o tempo inteiro criando metáforas visuais, fazendo comparações das criaturas que surgem com os monstros infernais pintados pelos mestres do renascimento. Dá pra sentir o pânico que alguém tão ligado à luz e às cores sente ao não poder enxergar literalmente a mais que um palmo do seu nariz, numa situação limite bem próxima ao “Ensaio Sobre a Cegueira”, de Saramago, com sua cegueira branca revelando os horrores que se escondem na alma humana. A Senhora Carmody é uma excelente personagem, desenvolvendo-se junto com a trama de maneira precisa e mostrando como fanáticos, dignos apenas de riso em situações normais, podem com sua lógica contorcida arrebatar rebanhos de pessoas desesperadas pela adversidade: (I took her arm and recapped my discussion with Dan Miller. The riddle of the cars and the fact that no one from the pharmacy had joined us didn’t move her much. The business about Mrs. Carmody did. “He could be right,” she said. “Do you really believe that?” “I don’t know. There’s a poisonous feel to that woman. And if people are frightened badly enough for long enough, they’ll turn to anyone that promises a solution.” – Eu pegue-a pelo braço e recapitulei minha discussão com Dan Miller. O enigma dos carros e o fato de que ninguém da farmácia tinha vindo atrás da gente não a fizeram mudar de ideia. O caso de dona Carmody conseguiu. “Ele pode estar certo”, ela disse. “Você realmente acredita nisso?” “Não sei. Tenho um sentimento muito ruim sobre ela. Como se fosse venenosa. E se as pessoas estão bastante assustadas, por tempo bastante, elas se voltarão para qualquer um que prometa uma solução”)

O autor vai direto ao ponto, adotando um estilo bem diverso dos livros dele que li até o momento, em que metade da narrativa transcorre na mais absoluta rotina, com um ou outro episódio “sobrenatural”, até as coisas começarem a acontecer. A narrativa envolve o leitor como o nevoeiro, e fica difícil de sair. Mesmo conhecendo o filme, que é uma adaptação bem fiel ao original, com exceção do final, a cada página o suspense me arrebatou com mais força, tateando na palidez da neblina com seus personagens. Aliás, prefiro o final do filme, assim como o próprio autor já afirmou preferir. Em determinado momento o narrador fala sobre as críticas de seu pai aos finais de Hitchcock, apenas para terminar da mesma forma ambígua.

The Mist, no fim das contas, é a história de um pai tentando proteger seu filho de um mundo grande demais, absurdo demais, buscando fazer o melhor e descobrindo a cada passo que dá em direção ao futuro que o melhor que se pode fazer não é bom o bastante, e que em muitas ocasiões a tentativa de proteger pode ser pior que os perigos que espreitam lá fora.

A seguir deixo o link para a página da wikipedia sobre a história, para quem se interessar pelo histórico de sua publicação: https://en.wikipedia.org/wiki/The_Mist

Hesse em pequenas doses

Cuentos I, o primeiro volume dos contos de Hermann Hesse traduzidos para o espanhol, é uma coletânea capaz de enlouquecer aqueles que buscam “unidade” num livro de contos. Este primeiro tomo é um retrato da inventividade do autor, prêmio Nobel quando a academia premiava escritores de ficção. O conto “Karl Eugen Eiselein” lembra o “Aurora sem Dia”, de Machado de Assis, embora um tanto menos irônico. Acompanhamos um típico adolescente com um futuro brilhante que muda seu pensamento ao vento das estações depois de ir morar fora, e os conflitos que sua “alma de artista” suscita em relação aos seus pais. “El Reformador” tem semelhanças com o “Karl…”, embora aqui haja uma “alma religiosa” e o conflito seja com a pragmática namorada. Em ambos percebemos que o espírito hippie não é tão novo assim.

“De la infancia” é uma pérola de sensibilidade, que reflete a experiência do narrador com a doença de um amigo e suas reflexões acerca do primeiro contato com a perda. “El alumno de latín” traz um personagem que deixa de lado as aspirações artísticas e individuais em busca do amor físico. Tanto ele como “La marmolería” e “Mes de Julio”, parecem releituras do Werther de Goethe, tratando do louco e desesperado amor dos jovens, tão perigoso e facilmente esquecível. Os três formam um belo e trágico conjunto de possibilidades.

“Bajo el viejo sol”, “El lobo” e “Del taller” são pré-kafkianos, cada um à sua maneira, especialmente o último, que abre um recorte poderoso sobre o absurdo cotidiano.

“El enano” remete às novelas de Bocaccio ou de Cervantes, com seu narrador que conta numa taberna a história de uma bela princesa que vive feliz com seu papagaio e seu culto anão num palácio em Veneza, até que chega o amor na figura de um nobre voltando do oriente. Esse conto traz um rico universo, mostrando que a Itália foi o primeiro oriente dos alemães, e guarda surpresas que farão desvanecer a ideia de idílio que poderia a princípio evocar. É o meu conto preferido, embora seja difícil apontar um sócuentos-hesse.