Melhores Leituras 2016

Uma característica comum aos leitores, a única talvez que abarque a todos, é estar sempre em busca de novos livros. Cresce o número de listas, assim como decresce o tempo disponível. Acredito que a maioria das listas acaba sendo mais útil para seu próprio autor, tanto para passar a limpo o que tem lido, como para possíveis releituras. Esse ano, resolvi alterar a metodologia da minha. Ano passado dividi em várias categorias e quando percebi tinha indicado quase metade dos livros que li em 2015. A mudança de método se deve, portanto, a dois motivos: primeiramente, não pretendo reler metade dos livros lidos; segundamente, uma lista que nomeie metade dos livros lidos é injusta. Leitores têm pouco tempo, então as listas devem buscar o melhor entre os melhores. Buscando um equilíbrio entre as possíveis releituras e indicações para leitores ávidos por novidades, decidi nomear apenas dez livros de ficção e cinco de não ficção. Alguns já foram resenhados por aqui, então falarei apenas sucintamente sobre cada um.

Ficção:

Guerra e Paz, de Tolstoi – Uma obra prima. O gênio russo parte das guerras napoleônicas para tentar provar suas teorias acerca da História; contudo, Tolstoi é tão bom que, mesmo partindo de premissas que prometem péssimas obras, cria grandes livros. Com capítulos narrados pelo ponto de vista dos personagens principais, é uma obra gigantesca em todos os sentidos.

Mentiras Contagiosas, de Jorge Volpi. Já resenhado. Leitura deliciosa.

1Q84, de Haruki Murakami – Basta dizer que é considerado por muitos como a principal obra do escritor japonês.

Así Empieza lo Malo, de Javier Marías – Resenhado por aqui. Um grande livro, desses que a releitura é obrigatória.

A Estrada, de Cormac McCarthy – Resenhado. A forma como o escritor une vigor narrativo com rigor linguístico o tornam um dos grandes escritores que já tive o prazer de ler.

O Pintassilgo, de Donna Tartt. Um tour de force. Obra excepcional, que diz muito sobre muito e ajuda e repensar o nosso tempo e nosso lugar no mundo.

Lysistrata, de Aristófanes – Tem uma breve resenha por aqui. Existe um motivo para que os clássicos sejam clássicos.

The Mist, de Stephen King – Também resenhado. Adorei esse livro. Pretendo reler muitas vezes.

A Consciência de Zeno, de Italo Svevo – Pretendo resenhar em breve. Posso dizer que parece um romance de Machado de Assis com um personagem que não sente culpa por transmitir o legado de nossa miséria.

Leite Derramado, de Chico Buarque – resenhado. Gostei muito desse romance.

Não Ficção:

A Era dos Extremos, de Eric Hobsbawn. Um excelente livro de história, traçando um amplo panorama do curto século XX, como define seu autor, partindo da Primeira Guerra Mundial até o colapso da União Soviética.

España y Viva la Muerte, Nikos Kazantzakis. Resenhado. O monstro grego relata suas viagens pela Espanha em tempos de guerra civil.

O Herói de Mil Faces, por Joseph Campbell – O autor traça paralelos entre vários mitos das mais diferentes culturas, para montar aquilo que chama de “Jornada do Herói”. Prato cheio para escritores e para aficionados por mitologia.

Aqui listarei dois por considerá-los obras complementares acerca da (pós)modernidade: Modernidade e Holocausto, de Zigmunt Bauman, que traça relações entre a modernidade e o nazismo, e Islam y Modernidad, do Slavoj Zizek, que tenta traçar um perfil do islamismo através de uma análise lacaniana.

A Sexta Extinção, da jornalista Elizabeth Kolbert, também já resenhado.

Depois das escolhas, vem o peso na consciência pelos que ficaram de fora. Há outros livros que resenhei por aqui e que podem ser ótimas opções de leitura. Dom Quixote e Grande Sertão: Veredas não entraram na lista por ser releituras.

Boas leituras para todos.

 

Vestígios do Antropoceno

“O que a história nos revela, com seus altos e baixos, é que a vida é muito resiliente, mas não dura para sempre. Houve longuíssimos períodos sem quaisquer eventos e muito, muito de vez em quando, “revoluções na face da Terra”.
Até onde podemos identificar as causas dessas revoluções, dá para ver que são bastante variadas: glaciação, no caso da extinção no fim do Ordoviciano; aquecimento global e mudanças na química dos oceanos no fim do Permiano; o impacto de um asteroide nos derradeiros segundos do Cretáceo. A extinção em curso tem sua própria causa original — não é um asteroide ou uma erupção vulcânica maciça, mas “uma espécie daninha”. Como me disse Walter Alvarez, “estamos observando, neste mesmo instante, que uma extinção em massa pode ser causada pelos seres hufmanos”.”

Elizabeth Kolbert, A Sexta Extinção – Uma História não Natural

Nesta obra de divulgação científica vencedora do Pulitzer de 2015, Kolbert relata as várias viagens que realizou nos últimos anos e as opiniões de grandes especialistas acerca do período geológico que estamos vivendo, o antropoceno, e suas implicações para o meio ambiente.

Traçando paralelos com outros períodos geológicos igualmente dramáticos para a biodiversidade, traz relatos das prováveis causas das cinco grandes extinções que ocorreram nos bilhões de anos em que a vida tem insistido em subsistir em nosso planeta. Passando por cavernas de morcegos dizimados por fungos, corais ameaçados pela acidificação dos oceanos, lagoas agora sem os anfíbios que lhes davam nome, montanhas já quase sem as neves que alentavam rios, vemos em nosso horizonte uma tenebrosa paisagem.

O livro está muito bem amarrado e documentado, e é um alerta contundente para aqueles que acreditam ser grande a diferença entre ter um livro nas mãos ou um machado:

“Embora seja ótimo imaginar que houve um tempo em que o homem vivia em harmonia com a natureza, não existem evidências de que isso tenha de fato acontecido.”

O ser humano destruiu e tem destru inúmeras espécies desde que pôs fim à megafauna, inclusive extinguindo outras espécies humanas. A autora pergunta “até onde iremos?” quando cita uma frase do ecologista de Stanford Paul Ehrlich: AO PRESSIONAR OUTRAS ESPÉCIES PARA A EXTINÇÃO, A HUMANIDADE ESTÁ SERRANDO O GALHO SOBRE O QUAL ESTÁ SENTADA.

De aceitar o que se foi

500_9789722038386_chico_buarque_leite derramado.jpg“Na velhice a gente dá para repetir casos antigos, porém jamais com a mesma precisão, porque cada lembrança já é um arremedo de lembrança anterior.

(…)
E debaixo do banho observei meu corpo fremente, só que neste momento minha cabeça fraquejou, não sei mais de que banho estou falando. São tantas as minhas lembranças, e lembranças de lembranças de lembranças, que já não sei em qual camada da memória eu estava agora.

(…)
Mas se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida.
Chico Buarque, Leite Derramado

Em Leite Derramado encontrei pela primeira vez em muito tempo uma narrativa confusa que me encantou. A obra de Chico Buarque não usa a confusão como marca de qualidade textual: é parte da trama, ou a própria trama. A confusão é o próprio caráter do personagem que faz um monólogo, contando fragmentos de sua história pra quem quer que esteja próximo o bastante para ouvir (algo comum aos velhos).

O centenário Eulálio D’Assumpção poderia lembrar o personagem principal de “O Ladrão do Tempo”, de John Boyne, com sua vivência permeada pelos grandes acontecimentos dos tempos vividos. Mas as duas obras não poderiam ser mais diferentes: Eulálio está internado num estabelecimento de saúde, doente, fragilizado, sem privacidade, e se refugia num passado de glória, nos Eulálios D’Assumpção que remontam até a sexta, sétima, oitava, talvez décima geração, sempre figuras ilustres, convivendo com o Marquês de Pombal, com o presidente Deodoro, o Imperador Pedro II… Sempre enlaçados ao poder, seja feudalista, escravagista, abolicionista, capitalista e quiçá comunista, se tal regime viesse a vigorar no Brasil.

O passado, contudo, esconde mais dores que prazeres, e logo percebemos que o saudosismo não consegue esconder aquilo que o corpo mostra: a decadência. A decadência que parece uma marca do país, e que acompanha os D’Assumpção. O narrador em alguns momentos, tentando destacar o “p” mudo, vai aos poucos demonstrando sua dificuldade em adaptar-se aos acontecimentos, embora tente manter as aparências. Entre as diversas camadas de memória, estão as mentiras criadas para justificar o desaparecimento de Matilde, a mãe de sua filha, o único amor de sua vida. Ao lado da trama dos Eulálios e do país, floresce a do abandono de Matilde, de como se conheceram, de como se amaram. Camadas e mais camadas de fatos, alusões e mentiras vão se justapondo para que o leitor tente remontar a história.

Leite Derramado é uma bela obra sobre a memória e o esquecimento, e também sobre a senilidade de uma classe que se recusa a aceitar que os tempos mudaram e se aferra ao passado, mesmo que tenha que se mudar para um puxadinho de uma igreja evangélica para se manter ao lado dos vencedores. Ou dos menos derrotados.