Prêmio Pernambuco de Literatura

Compartilho a publicação do portal Bora Agora sobre o resultado da 5º edição do Prêmio Pernambuco de Literatura, no qual meu livro foi um dos selecionados. Necessária se faz uma correção: Absinto não é um romance, é livro de contos. Concorri pelo agreste, por residir em Garanhuns, mas sou natural de Afogados da Ingazeira, no sertão. Pertenço às duas cidades.

Conheça os vencedores do V Prêmio Pernambuco de Literatura

Cinco escritores pernambucanos foram agraciados, na noite desta terça-feira (17), com o Prêmio Pernambuco de Literatura. A cerimônia, que aconteceu no Palácio do Campo das Princesas, foi conduzida pelo governador de Pernambuco Paulo Câmara, que assinou decreto ampliando o prêmio a partir da edição de 2018 e renomeando-o de Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura. Ao lado do secretário de Cultura Marcelino Granja, da presidente da Fundarpe Márcia Souto e do presidente da Cepe Editora Ricardo Leitão, ele anunciou os vencedores.

Foram cinco os escritores pernambucanos agraciados com o prêmio: Ezter Liu, que representa o Agreste, recebeu o Grande Prêmio, com o livro de contos “Das Tripas Coração” – levando a premiação de R$ 15 mil; Walter Cavalcanti Costa, da Mata Norte, venceu com o romance O Velocista; Fred Cajú, do Recife, foi contemplado pelo livro de poemas Nada Consta; Enoo Miranda, de Nazaré da Mata, levou o prêmio pelo livro de poemas Fogo, fato; e Amâncio Siqueira, de Garanhuns, venceu com o romance Absinto. Estes últimos receberão a premiação no valor de R$ 5 mil. Os autores terão suas obras inéditas editadas pela Cepe.

Sobre a futura VI edição do prêmio, a ser realizada em 2018, o secretário de Cultura, Marcelino Granja explicou que a premiação passará de R$ 40 mil para R$ 90 mil. “Agora, iremos premiar os primeiros e segundos lugares. Um robustecimento dessa honraria, que, agora, terá no nome a grandeza de Hermilo, uma referência como escritor que marca as artes e a cultura pernambucana”, acrescentou. Serão concedidas premiações de R$ 20 mil para o grande vencedor, cinco prêmios de R$ 10 mil para os primeiros colocados nas quatro macrorregiões do estado e quatro prêmios de R$ 5 mil para os segundos colocados nas quatro Macrorregiões do Estado, conforme estipulado no Edital da seleção pública.

Conheça os vencedores do V Prêmio Pernambuco de Literatura

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De Dívidas e Dividendos

dívidas

“Não existe beleza na miséria.”

Renato Russo

“Não pode pagar sua dívida? Em primeiro lugar, nem precisa tentar: a ausência de débitos não é o estado ideal. Em segundo lugar, não se preocupe: ao contrário dos emprestadores insensíveis de antigamente, ansiosos para reaver seu dinheiro em prazos prefixados e não renováveis, nós, modernos e benevolentes credores, não queremos nosso dinheiro de volta. Longe disso, oferecemos mais créditos para pagar a velha dívida e ainda ficar com algum dinheiro extra (ou seja, alguma dívida extra) a fim de pagar novas alegrias. Somos os bancos que gostam de dizer “sim”. Seus bancos amigos. Bancos “que sorriem”, como dizia uma de suas mais criativas campanhas publicitárias.

O que nenhuma publicidade declarava abertamente, deixando a verdade a cargo das mais sinistras premonições dos devedores, era que os bancos credores realmente não queriam que seus devedores pagassem suas dívidas. Se eles pagassem com diligência os seus débitos, não seriam mais devedores. E são justamente os débitos (os juros cobrados mensalmente) que os credores modernos e benevolentes (além de muito engenhosos) resolveram e conseguiram transformar na principal fonte de lucros constantes. O cliente que paga prontamente o dinheiro que pediu emprestado é o pesadelo dos credores.

A atual “contração de crédito” não é resultado do insucesso dos bancos. Ao contrário, é o fruto, plenamente previsível, embora não previsto, de seu extraordinário sucesso. Sucesso ao transformar uma enorme maioria de homens, mulheres, velhos e jovens numa raça de devedores. Alcançaram seu objetivo: uma raça de devedores eternos e a autoperpetuação do “estar endividado”, à medida que fazer mais dívidas é visto como o único instrumento verdadeiro de salvação das dívidas já contraídas. O hábito universal de buscar mais empréstimos era visto como a única forma realista (ainda que temporária) de suspensão da execução da dívida.”

Zigmunt Baumann, Vida a Crédito

“A incapacidade parcialmente irracional de tentar resolver problemas pode surgir de conflitos entre motivos de curto e de longo prazo do mesmo indivíduo. Os camponeses de Ruanda e do Haiti, além de bilhões de outras pessoas no mundo atual, são desesperadamente pobres e só pensam no que vão comer no dia seguinte. Pobres pescadores em áreas de recifes coralígenos tropicais usam dinamite e cianeto para matar peixes (e incidentalmente matam também o recife) de modo a alimentar seus filhos hoje, mesmo sabendo que estão destruindo sua futura fonte de alimento.”
Jared Diamond, Colapso

“Se o planejamento financeiro familiar pode ser comparado à rotina de atividades saudáveis e à dieta alimentar da família, associo as dívidas à gordura de nosso corpo. Podemos viver perfeitamente sem elas, mas um pouquinho de gordura não faz mal a ninguém; pelo contrário, é até sinal de que aqueles menos enxutos vivem uma vida mais indulgente e prazerosa.
Entretanto, o excesso de gorduras não indica maior nível de satisfação, mas sim de problemas. A obesidade financeira, se não diagnosticada e controlada a tempo, certamente resulta em sofrimento, seja na convivência com ela, seja na tentativa de eliminá-la.”
Gustavo Cerbasi

Esse será provavelmente o texto mais longo que já publiquei nesse blogue. E será justamente por não se tratar dos assuntos a que me propus quando o iniciei. A Ceia das Cinzas tem como assuntos principais literatura e filosofia, com alguma coisa sobre divulgação científica, artes e história. Essa postagem, entretanto, é sobre economia e finanças pessoais, e será longa justamente porque quero tentar esgotar o que tenho a dizer aqui. Talvez daqui a dez ou vinte anos decida abordar esse assunto novamente, mas não será um tema recorrente. Até porque não sou especialista nem estou perto disso, e há muito material disponível para aqueles que, espero, passem a se interessar pelo assunto após meu apelo.

Sim, esse texto é, mais do que uma crônica, artigo ou resenha, um apelo. Um apelo para nós enquanto povo. Estou convencido que o grande salto que o Brasil precisa é o salto educacional, e um de seus alicerces será a educação financeira. Sem uma mudança total na forma como vemos e convivemos com o dinheiro, não deixaremos nunca de ser um país feliz em chafurdar na lama.

Devo falar de meu exemplo pessoal, não apenas por acreditar na força do exemplo, como para justificar ter passado tantos meses sem publicar por aqui. Desde que comecei a trabalhar, sempre tive salários pelo menos cinquenta por cento superiores à média salarial do mercado, além de outras vantagens econômicas, como, por exemplo, participação nos lucros quando trabalhei na iniciativa privada. Participação esta que eu utilizava de maneira bem racional: ia à Livraria Cultura e gastava inteira com livros, muitos dos quais ainda não li. Alguns anos depois, dívidas contraídas para quitar um acordo de divórcio, uma reforma no imóvel para a chegada de um filho, muitas latas de Nan e pacotes de Pampers depois, tive que me abster de comprar livros, e descobri que não fazer por opção é bem mais prazeroso que por necessidade. Mesmo sempre tendo criticado o consumismo, hoje percebo que eu era consumista e inconsequente. Muitas das dificuldades que passei foram reflexo de péssimas escolhas, de uma cegueira em relação ao futuro. O fato de ter um salário “garantido” me dava a falsa noção de não necessitar de uma reserva de emergência. Não tinha a consciência de que imprevistos são as coisas mais previsíveis na vida.

Percebi que estava tocando o fundo do poço quando passei a pagar setecentos reais de juros no cheque especial. Todos os meses. Alguma coisa tinha que ser feita, e logo. Eu tinha dois anos do meu salário inteiramente destinados para o pagamento de juros bancários. A primeira coisa que fiz foi cancelar a conta que me dava um limite alto no cheque especial. Precisava me adequar aos meus ganhos, parar de recorrer a empréstimos para suprir minhas necessidades. Após muitas noites de sono perdido, em que contava juros e encargos ao invés de contar carneirinhos, decidi fazer o que sempre faço quando minha atenção se volta para algum assunto: fui estudar. Baixei dezenas de livros sobre economia e finanças pessoais, desde os destaques da seção de autoajuda até livros mais técnicos, buscando entender o macro e o micro, a cabeça dos endividados e os anseios do mercado. Foram seis meses basicamente afastado da literatura, focado nesses assuntos. Minha conclusão é que não apenas eu preciso mudar meus hábitos. Milhões de pessoas se encontram em situação ainda pior que a minha, vivendo em patamares de consumo insustentáveis e acreditando que estão dando prejuízos aos bancos quando dão calote ou renegociam pelo “mínimo”.

A primeira coisa que devemos ter em mente é que bancos são empresas de intermediação financeira. Eles pegam dinheiro barato e emprestam caro. Num ambiente financeiramente saudável, são importantes veículos de incentivo à produção. O problema é que não vivemos num ambiente assim, e o principal sintoma é que os bancos lucram muito mais do que as empresas que realmente produzem algo. O Brasil está correndo para copiar um modelo que gerou a crise de 2008 e deve sofrer com o estouro de uma super bolha até o fim desta década. Uma bolha que terá inclusive participação da China, que também entrou nos últimos anos no modelo de crescimento “artificial”, baseado em dinheiro sem lastro e elevado spread bancário para compensar os altos riscos de emprestar a quem não tem capacidade de pagar. Trocando em miúdos, empréstimos de moeda nominal, sem bens reais que justifiquem sua criação. A China vinha crescendo nas últimas décadas de forma sustentável, conforme bem resume Fernando Ulrich, no livro Bitcoin, A Moeda na Era Digital: “Para que haja investimento, é preciso haver poupança. É o investimento que permite o acúmulo de capital, que, por sua vez, possibilita uma maior produtividade da economia. Mas sem poupança prévia não é possível investir. A expansão do crédito pelo sistema bancário sob um regime de reservas fracionárias permite que os bancos concedam empréstimos às empresas e indivíduos como se houvesse poupança disponível, quando, na verdade, isso não ocorreu. Logo, os empresários investem como se houvesse recursos disponíveis para levar a cabo seus empreendimentos, criando um auge econômico que contém as sementes de sua própria ruína. Cedo ou tarde, alguns investimentos não poderão ser concluídos (pois simplesmente não há recursos suficientes para que sejam completados lucrativamente), devendo ser liquidados o quanto antes. Esse é o momento da recessão, quando os excessos cometidos durante o boom precisam ser sanados para que a estrutura produtiva da economia retome o seu rumo de forma sustentável.” O Brasil sofrerá ainda mais com a próxima crise, pois não fez poupança suficiente depois de 2008.

Algo espantoso é que a maioria dos brasileiros acredita que não apenas não é problema, mas é algo natural e mesmo desejável viver devendo aos bancos e financeiras. O ritual de trocar de carro assim que se termina o financiamento, para não ficar sem parcelas fixas para pagar, é incentivado nos círculos de nossa classe média, e as classes mais baixas estão internalizando essa prática para eletrodomésticos. O vício do carnê voltou com força total depois dos carnês do baú terem saído de moda há alguns anos. Até mesmo esse voltou. As grandes varejistas não vendem produtos: vendem crédito. “Fidelizam” os clientes em pequenas parcelas. E estes não conseguem perceber o quadro geral, nem mesmo da dívida contraída. Acrescente-se a isso o fato que parcelas fixas enrijecem o orçamento familiar e torna o ambiente propício para que um único imprevisto dê início a uma bola de neve, por não deixar margem para cobrir o gasto extra sem recorrer a algum empréstimo.

Chega dessa ladainha de dizer que o dinheiro não é importante. Aqueles que não acham que o dinheiro é importante serão dominados pelos que acham. Todo o quadro político e social que vivemos é um exemplo claro e gritante disso. Nossa democracia nunca deixou de ser censitária, desde as primeiras eleições em 1532, quando apenas estavam aptos para votar e concorrer às eleições os chamados “homens bons”, ou seja, indivíduos oriundos de famílias abastadas, com títulos nobiliárquicos ou donos de muitas propriedades. Não à toa nosso Congresso a cada eleição tem um número maior de milionários, mesmo escondendo a maior parte de seu patrimônio, enquanto nossa classe média destila seu ódio contra todo político que não seja um “homem bom”, hoje chamado de “cidadão de bem”. A mentalidade do nosso povo deve mudar, e logo. Talvez devamos almejar e perseguir o primeiro milhão. Se todos formos ricos, todos teremos voz.

O dinheiro é a melhor medida de tempo que dispomos, e não nos apercebemos disso. O dinheiro é uma forma de mensurar o tempo despendido, guardar algum valor pelo tempo que já gastamos, e pode, se usado de forma inteligente, garantir a compra de um tempo extra no futuro, com uma aposentadoria mais cedo, ou com melhor qualidade de vida, ou ainda com uma sobrevida maior pelo aumento da saúde geral. Antes de comprar qualquer coisa, deveríamos pensar no quanto de tempo gasto será necessário para comprar aquilo. A sistemática da ostentação não dá valor ao dinheiro, pelo contrário, é a elevação à máxima potência da prática de jogar dinheiro fora. Nós aprendemos desde cedo que não adianta ter um helicóptero se nosso vizinho também tem. Essa mentalidade da inveja ao contrário, ou esse desejo de ser invejado, é o que torna nosso país um dos mais caros do mundo. Nosso afã de aparentar ter dinheiro é o que nos faz jogar tanto dinheiro fora.

Aqui a prática da lei da oferta e da procura é selvagem. A esperteza é a maior burrice. Num ambiente assim, não é de se estranhar que a inflação só fique sob controle em tempos de recessão. Se quisermos controlar a inflação e manter os juros baixos, a única maneira é darmos valor ao nosso dinheiro. É agir sempre como se o dinheiro estivesse escasso, como se todo dia estivéssemos em crise. Quem sabe em um futuro distante paremos de procurar formas de ludibriar uns aos outros e comecemos a parar de ser ludibriados por bancos, empresas e governo. Imagine que loucura seria receber juros deles ao invés de pagar. Buscar as melhores debêntures, CDBs e Títulos do Tesouro ao invés dos melhores consignados, financiamentos e formas de enganar o fisco.

Estou há um mês sem entrar no cheque especial. E você?