Irrefreáveis Trevas

ninguémOs contos do novo livro de Nivaldo Tenório, “Ninguém Detém a Noite”, exigem cumplicidade do leitor, um esforço por ler o não dito, por montar a história. Lançados de forma não linear, cada frase parece uma peça de tetris, que o leitor precisa mudar de posição até conseguir um encaixe, sabendo que dificilmente conseguirá uma linha sem arestas ou brechas.

Em “As Escamas do Monstro”, primeiro conto, de imediato percebemos o que nos espera nos doze contos do volume, os quais mereceriam cada um uma análise mais aprofundada: uma escuridão leitosa oprime nosso peito. Acompanhamos um cidadão de bem que remete a Bentinho ou Paulo Honório, em sua cruzada para fazer (e justificar) o que acha certo. O conto perpassa vários momentos da vida de seu personagem principal, a partir do momento em que retira suas coisas da agência bancária em que trabalhou. A aposentadoria do banco seria o ideal para fazer o balanço de sua vida, que parece ser feito pelo leitor à sua revelia, embora a saída da agência e a chegada em casa sejam abertura e fechamento do conto, um fluxo de consciência passeando por reminiscências de sua vida nesse curto percurso. O título pode ser lido como uma referência à tatuagem que a filha dele faz sem seu consentimento, depois de ter sido levada para uma delegacia junto com outros jovens devido a alguns baseados. O pai a interna numa clínica de reabilitação, gerando o distanciamento de filha e esposa. O monstro é mais profundo, porém, jamais ficando apenas sobre a pele. Em cada passagem há referências sutis a Lúcifer e a tentação, especialmente quando recolhemos fragmentos de um diálogo entre ele e Ernesto, amigo há muito falecido. Satanás é uma serpente (escamas) e recebe a licença de Deus para tirar tudo de Jó. Os dois amigos perderam tudo, cada perda é uma escama do monstro, mas o personagem decide não agir como Jó. Ernesto é um descrente, angariando uma certa irritação do amigo, que compara a atitude de Ernesto com a de Jó. Ao não “tomar as coisas dessa vida com muita seriedade” ele estaria considerando, por causa da fé, que a realidade seja subvertida pelo satanás e decide não agir como o amigo. É aqui que Nivaldo peca pelo excesso de concisão: por que o personagem escolhe acreditar? O filho ajudaria a problematizar isso, assim como diálogos mais extensos. Um dos pontos mais poderosos da narrativa de Tenório é justamente construir uma ponte para os personagens, criar empatia, e o conto de abertura é o único que peca nesse quesito.

Embora “Moby Dick” refira-se textualmente à música do Led Zepellin, uma das músicas que o protagonista de meia idade utiliza como trilha para correr e “recuperar sua juventude” para impressionar sua jovem namorada, impossível não pensar na Baleia Branca que assombra esse Ahab pós-moderno: a velhice. O conto tem momentos belíssimos, como esse: “Eram tão diferentes nossas mãos. Entre elas caberia o mar e uma viagem a pé. Entre nossas mãos uma cidade podia ser erguida. E tanto podia ser uma cidade aqui quanto na Índia. O ritmo do tempo é um só e não depende de geografia. Desenhado na palma da minha mão um mapa me dá conta de que estou perto do fim.” Outro belo exemplo de não linearidade e fluxo de consciência está no conto “Os Sócios de Papai”: “A sala de aula era ampla, nela três janelas de madeira davam para pés de manga. No ano seguinte vou cair de um deles e quase matar mamãe do coração. A professora fez a chamada, e tivemos de nos apresentar.”

Em “O Caso da Tartaruga”, Tenório trata de um tema delicado de nossa história, a tortura, prática com muitos adeptos entre nós, e nos faz pensar se diante de certas coisas é possível seguir em frente, utilizando metáforas e elipses de grande força: “Abri as janelas. Nada. Saí e me sentei no batente. O rumor das ondas invisíveis chegava até mim. Pensei na tartaruga morta. A esta hora foi cortada, fatiada por mãos que vasculham razões de sua morte, como se isso importasse, e fosse possível, uma vez desvendado o mistério, restaurar tudo, pôr as tripas no lugar, a carne de novo intacta recuperaria suas funções e de novo voltaria para o mar. Acima do casco as ondas rugindo.”

Temas como dinheiro, aborto, incesto e assassinato parecem ter sido colocados pelo autor no centro de uma sala, com uma luminária no teto, e em paredes opostas um espelho côncavo e outro convexo para traçar os contos “A Ilha dos Cães” e “Um Coração Impuro”, que também traz uma abordagem interessante para o tema do duplo, tão recorrente na literatura.

Há momentos, especialmente nos contos de caserna, que poderiam formar uma seção do livro, em que as narrativas flertam com os clássicos, como neste trecho de “Ninguém Detém a Noite” que me lembrou de “O Deserto dos Tártaros”, de Dino Buzzati: “Bastava apenas acordar cedo e se ocupar com os preparativos da guerra, e não importa que não haja guerra, um dia a geração depois da sua geração ou outra que virá terá de ir à guerra e tudo fará sentido. Um militar se sente afortunado porque seu mundo faz sentido. Hierarquia em tudo, basta olhar as montanhas e os oceanos.” Entretanto, talvez esse flerte esteja mais na leitura que na escrita. Estamos todos lendo (e escrevendo) o mesmo livro, adicionando capítulos ou notas de rodapé, e os temas universais estão sempre lá: o sentido da vida (ou falta dele), o fracasso, a perda, a velhice e a morte. E o amor e a ternura de que somos capazes enquanto tais engrenagens não nos moem.

Talvez o maior êxito de Nivaldo Tenório enquanto contista seja o fato de que seus personagens não pareçam estar lá apenas para que a história aconteça: eles de fato possuem um passado complexo e um futuro que nos causa apreensão. Mais do que humanizar situações, Nivaldo situaciona humanidades. Não é exagero colocá-lo entre os grandes contistas brasileiros em atividade.

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