Formas Breves de Aspecto Irresoluto

Seguindo com a reunião da crítica de minha obra neste blogue, publico abaixo a resenha que Sérgio Tavares publicou em A Nova Crítica. Interessante notar as diferenças profundas de interpretações entre ele, Carrero e Tadeu Sarmento, cuja opinião publicarei a seguir. Não cabe a mim validar ou invalidar qualquer leitura. Cabe apenas um esclarecimento em relação aos defeitos apontados por Tavares: A falta de organicidade ou identidade não é consequência de ser uma estreia: trata-se de uma atitude deliberada. Antes de começar qualquer texto, a primeira coisa que tento definir é o narrador que fará a narrativa funcionar. “Fica parecendo, portanto, uma coletânea composta por textos de diferentes autores”, como ele bem destacou. Tais defeitos ficarão ainda mais evidentes no próximo livro de contos que estou escrevendo, assim como na comparação das minhas narrativas mais longas.

“Pensei em Piglia durante a leitura de Nem tudo cabe na paisagem, coletânea de breves narrativas de Amâncio Siqueira que ganhou o 5º Prêmio Pernambuco de Literatura.

Quando o escritor argentino afirma que a versão moderna do conto abandona o final surpreendente e a estrutura fechada, de modo a trabalhar a tensão entre as duas histórias sem nunca, de fato, resolvê-la. A história secreta é contada de um modo cada vez mais alusivo, complementa.

Antes de avançarmos, é preciso contextualizar o leitor de que a proposição está no célebre ensaio “Teses sobre o conto”, contida no volume Formas breves. Ali Piglia defende que, entre outras coisas, um conto sempre conta duas histórias: um relato visível que esconde um relato secreto narrado de maneira elíptica e fragmentária.

De volta ao livro de Siqueira, as 11 narrativas expressam esse aspecto irresoluto na engenharia de suas tramas. O autor explora um invariável esgarçamento, uma transcendência que se ocupa tanto dos limites da forma quanto do desenvolvimento dos temas eleitos.

No centro dos textos, estão personagens na iminência de transpor ou que transpuseram um conflito de natureza física ou espiritual, afetiva ou simbólica.

São acessos imediatos a circuitos dramáticos, nos quais se faz notável a tese de Pliglia, possibilitando que, embora com o fim aberto, as duas histórias que movimentam o enredo (o relato visível e o relato secreto) delineiam um escopo claro, diferente dos textos que se evidenciam fragmentos de romances mal-acabados.

Um bom exemplo é o conto “Bastardo”. No primeiro plano, temos a história 1 (o tempo de descoberta de um jovem índio), que constrói, no fundo da tessitura, a história 2 (a jornada de vingança do jovem índio contra o homem branco que matou o seu pai).

Esse caráter duplo, aparece nos ótimos “Absinto”, sobre um indivíduo que edifica uma obra embaralhando alucinações e certas delírios bíblicos, e, com mais tenacidade, “Carona”, uma série de diálogos na qual dois amigos tentam entender se estão vivos ou mortos.

É pontual notar como essa voltagem supranatural (misticismo, buscas etéreas, fantasmagoria) movimentam as narrativas iniciais, e se perde totalmente no decorrer do livro. O autor opera seus enredos, um a um, com tratamentos dos mais variados; pitadas de humor, flertes com o regionalismo, efeitos imagéticos, prosaísmo das relações pessoais.

Aí está o traço desagregador do livro. A variação recorrente do estilo, dos assuntos explorados e dos elementos de estruturação não permite uma organicidade (o que não é mau, caso exista um conceito) e (mais problemático) uma identidade. Fica parecendo, portanto, uma coletânea composta por textos de diferentes autores.

Possivelmente, são histórias escritas em fases distintas da vida do autor, no processo de lapidação da escrita. É claro que se deve levar em conta de que se trata de uma estreia. Todavia sem a tal tensão, sinalizada por Piglia, sobressaem-se os contos medianos.”

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