Sem Crise de Consciência

“A vida assemelha-se um pouco à enfermidade, à medida que procede por crises e deslizes e tem seus altos e baixos cotidianos. À diferença das outras moléstias, a vida é sempre mortal. Não admite tratamento. Seria como querer tapar os orifícios que temos no corpo, imaginando que sejam feridas. No fim da cura estaríamos sufocados.”

Ítalo Svevo, A Consciência de Zeno

Em sua obra-prima, Ítalo Svevo apresenta recortes da mais fina ironia. Zeno Cosini, o personagem que tem seus “cadernos de terapia” publicados à sua revelia pelo seu psicanalista depois de uma desavença, lembra os personagens de Machado de Assis, em especial Brás Cubas, embora não tenha nenhum receio de “transmitir a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.” O terapeuta, que não diz seu nome ao publicar os textos, assemelha-se mais ao Bento Santiago.

Os cadernos de Zeno não estão ordenados por ordem cronológica. Seguindo os padrões da nossa consciência, as coisas são arranjadas por assuntos, e os assuntos vão fazendo ligações e construindo uma trama. O livro inicia pelo tema do vício em cigarro, e já aí vemos desenhar-se o personagem que nos conduzirá até seu íntimo através das memórias: Zeno parece ter uma única resolução na vida: a de não cumprir nenhuma de suas resoluções. Desde as várias últimas vezes em que fumaria até a forma como corrompe a funcionária da clínica de reabilitação para poder fugir, ele disseca e demonstra de forma “científica” a anatomia do fracasso.

No casamento, acaba por vangloriar-se de ter casado com a única das três irmãs que nunca quis, por achá-la feia, e termina sendo o melhor amigo do cunhado, aquele mesmo que pensara empurrar da ponte quando percebeu que sua pretendida se afastava na direção do outro.

Quando se trata da amante, suas crises de consciência são tão rompantes, passageiras e inócuas como com o fumo.

O mais prazeroso na leitura é o fato de seu narrador não tentar esconder nada, lançando tudo o que pensa no papel sem qualquer filtro. a-consciencia-de-zeno-italo-svevo-186x300A narrativa garante boas risadas para quem gosta de rir de nossas misérias, e promete deixar ao final um alfinete latejando no juízo.

 

Eram um Homem e um Menino

“Tentou se lembrar do sonho mas não conseguiu. Tudo o que restava era a sensação. Pensou que talvez eles tivessem vindo avisá-lo. De quê? De que ele não podia acender no coração da criança o que eram cinzas no seu próprio.”

“O velho sacudiu a cabeça. Já deixei tudo isso para trás. Faz anos. Onde os homens não podem viver deuses também não se sentem bem. Você vai ver. É melhor ficar sozinho. Então espero que não seja verdade o que você disse pois estar na estrada com o último deus seria uma coisa terrível então espero que não seja verdade. As coisas vão melhorar quando todos tiverem morrido.”
Cormac MacCarthy, A Estrada

Literatura é feita entre dois extremos que muitas vezes se complementam: há os livros que tratam de personagens sentados à margem de um lago, refletindo sobre entrar nele, e livros em que os personagens são arrastados por um rio que os leva em direção a uma queda d’água. Embora os autores que fazem o primeiro modo funcionar sejam gênios, e possa listar entre grandes obras do tipo as Memórias Póstumas de Brás Cubas e Oblomov, confesso que o segundo modo me agrada mais, e nesse Cormac MacCarthy é um verdadeiro titã.
Seus livros são tsunamis, atingindo o leitor na praia e arrastando-o para o meio dos escolhos. Não há incolumidade depois de entrar nos mundos que o escritor estadunidense cria.
Cormac mostra que a grande literatura se faz independentemente do gênero escolhido, criando obras primas com um profundo trabalho da linguagem, adaptando-a desde westerns até distopias pós-apocalípticas, como A Estrada (The Road), vencedor do Pulitzer em 2007. O curto romance nos leva a acompanhar de perto a épica jornada do homem e do menino, pai e filho, por um mundo morto. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu, ou quando, e são perguntas irrelevantes quando a própria linguagem do mundo que se foi começa a desvanecer, quando apenas algumas vezes não se tem inveja dos mortos. Quando o próprio planeta parece ter se entregue à morte com alívio.

A sensação de peregrinar junto com eles é muito forte, de sentir o frio, a chuva, o perigo, a fome e a incerteza. A ausência opressiva da mulher/mãe, em sua dura decisão. Levamos golpes a cada frase, e metáforas aparentemente deslocadas (“vasculhavam a casa como compradores céticos” ou “caminhavam pela estrada como hamsters em suas rodinhas”) criam potentes contrastes entre o que é e o que foi, além de brincar com a “segurança” que sentimos em nosso mundo “civilizado”. A épica de McCarthy não é uma épica de exaltação da civilização, mas de questionamento da mesma, embora esse questionamento leve a uma admiração pelo ser humano.

Os personagens de MaCarthy sempre estão procurando atravessar uma fronteira, seguindo em frente apesar de todas as forças contrárias, embora nunca saibamos ao certo (e eles tenham sérias dúvidas) se serão recompensados se chegarem ao outro lado, ou se não seria melhor apenas sentarDownload-A-Estrada-Cormac-McCarthy-em-ePUB-mobi-e-PDF à margem e esparar que o mundo siga seu curso.

Um questionamento que todos nos fazemos, mesmo inconscientemente, a cada dia.

A comédia do tempo

Em A Lentidão Milan Kundera retoma seu estilo musical de construção de romances: escolhe alguns temas e lança personagens e acontecimentos como se fossem notas para desenvolver os temas propostos. Aqui os temas são hedonismo, lentidão contra rapidez e o agir dos “bailarinos”, um tema discutido entre os personagens Vincent e Pontevin. Bailarinos seriam pessoas que agem para a plateia, em busca de uma aprovação, algo cada vez mais frequente. Escrito no início da década de noventa, Kundera parece antever a era das redes sociais.

O romance começa com o próprio autor viajando com sua esposa para um castelo que se tornou hotel. No caminho, percebem motociclistas em alta velocidade e o diálogo que daí surge cria o motor da narrativa. O homem corre descuidado sobre uma moto porque o motor o faz esquecer de si mesmo, do próprio peso, enquanto correr a pé o faria lembrar ainda mais do próprio corpo. Daí surge a tese acerca da lentidão: existiria uma equação que torna proporcional a velocidade e o esquecimento: quanto mais rápido, maior o esquecimento. Kundera então contrapõe dois tempos, o libertino século XVIII e o confuso século XX, através da relação entre personagens de um romance daquele século, atribuído a Vivant Denon, com os seus próprios personagens, que alcançam o auge da tragicomédia durante um congresso de entomologia.

Na Europa de fins de século XX (e o mundo ocidental que veio daí), o hedonismo surge como uma farsa: é mais importante parecer libertino que de fato gozar com a libertinagem. Em certo momento do romance, Vera, esposa do autor, passa a ter pesadelos com os personagens que ele está imaginando, e afirma ser perigoso criar um romance que seja pura brincadeira sem sentido. A Lentidão, contudo, tem um sentido profundo: parece uma paródia da famosa frase de Marx, que poderia ser assim descrita quando um personagem do romance do século XVIII encontra Vincent e ambos tentam convencer um ao outro de que acabam de ter uma noite fantástica: “A história se repete, primeiro como farsa, depois como comédia.”

 

E o resto fica escondido

E o resto fica escondido

Juan de Vere é muito mais que um personagem narrador em Así Empieza lo Malo, embora só consigamos perceber seu verdadeiro interesse em contar a história do casal Eduardo Muriel e Beatriz com a narrativa bastante avançada. E esse destaque não se dá apenas pela relação do seu sobrenome com a verdadeira identidade de Shakespeare, aventada por um dos orgulhosos frequentadores da casa do cineasta caolho que lhe dá seu primeiro emprego, como seu secretário particular, que o marcará para sempre. É inclusive um verso de Shakespeare que inspira o título do romance.
Na Espanha pós-franquista, numa incipiente democracia sustentada por uma lei de Anistia que leva a todos a buscar o perdão e o esquecimento, há um fato no passado do casal que jamais pôde ser perdoado por Muriel, fazendo com que a vida de ambos seja o espelho de uma sociedade na qual a influência da igreja católica impede os casais de buscarem novos rumos, diante da falta de uma lei de divórcio há muito esperada.
Depois de quase um século de guerras civis e ditaduras, os cidadãos buscam na liberalidade sexual uma atuação social que a política desacreditada já não inspira. Muriel então incumbe a Juan a tarefa de introduzir o médico Van Vechten, amigo da família e pediatra dos quatro filhos, inclusive daquele que morreu na infância, nesse novo mundo de sexo e drogas, embora sua verdadeira incumbência seja descobrir a verdade sobre seu passado obscuro durante o regime de Franco.

O autor faz engenhosamente essa ponte entre as épocas, traçando um retrato em perspectiva do século espanhol.
Com personagens marcantes e uma excelente história, o que mais me chamou atenção foi o estilo de Javier Marías, cheio de digressões e rodeios, de reflexões que fogem do foco narrativo constantemente, lembrando outro narrador ibérico que é cadeira cativa em minhas leituras: Saramago.
Foi o primeiro Marías que li, mas não será o único.

Isolados

Isolados

Aldous Huxley retorna ao tema das topias em A Ilha. O romance é o último do autor, depois de uma carreira de mais de quarenta anos em que sua distopia Admirável Mundo Novo acabava de ser revisitada. Nesse livro, Huxley tenta traçar sua ideia de uma utopia, tomando como exemplo a ilha de Pala, minúsculo ponto de terra encravado no Oceano Índico. Apesar de haver um drama pessoal na vida do personagem central, Will Farnaby, que vai parar lá como enviado secreto de um dos maiores donos da indústria petrolífera, justamente para conseguir explorar a riqueza do pequeno país, e acaba sofrendo um acidente que o leva a necessitar dos cuidados dos nativos, a divisão dos capítulos por temas enfraquece a identificação com os personagens, que parecem surgir apenas para apresentar didaticamente a organização sociopolítica do local.

O autor traça um retrato de sua sociedade ideal: como organizar as famílias (A família não é nuclear, vários pais adotam vários filhos num club de adoção mútua, sendo essa família maior o verdadeiro cerne da sociedade); como educar sexualmente (a yoga do amor, que libera as pessoas desde a juventude para descobrir-se sexualmente de forma plena); o sistema educacional; a saúde (com vários cuidados para evitar a necessidade de cirurgia, embora tenham um excelente sistema hospitalar); a religião (as pessoas são encorajadas a duvidar da crença, a usar a fé a seu serviço, ao invés de ser servidores da fé); o governo (Farnaby tem vários diálogos com Murugan, herdeiro do rajá falecido, um jovem criado pela mãe na Europa, e portanto seduzido pelo mundo exterior, “corrompido” contra o sistema tão melhor de seu país natal, e muito amigo do ditador da ilha vizinha, Rendang, já controlada pela indústria petrolífera, o que gera certas incertezas em relação à continuidade da paz social de que desfrutam).

Obviamente, Huxley não deixaria de colocar as drogas como parte central de sua proposta de uma civilização mais avançada, e há várias páginas dedicadas ao cogumelo usado pelos ilhéus para encontrarem a si mesmos e o espírito que paira sobre as águas.

Entre as propostas para a educação, tem uma que achei particularmente interessante: todos os jovens que terminam o ensino médio devem participar de uma escalada. Talvez falte de fato um rito de passagem que traga certo perigo em ambiente controlado para nossos jovens, uma forma de reconhecimento de que demonstraram coragem e determinação e merecem o reconhecimento de que chegaram à idade adulta, diante de tantas tentativas de substituição desse rito que vemos diariamente terminar em tragédia.

A Ilha é um livro interessante como romance-ensaio, embora deixe a desejar do ponto de vista literário. Na literatura, as distopias continuam sendo mais sinceras e interessantes.

Peças do Quebra Cabeças 5

É hoje o lançamento de Quebra Cabeças em Afogados da Ingazeira. Fecho essa série de resenhas sobre o livro com a do contista Nivaldo Tenório, já citado na resenha de Fernando Monteiro publicada ontem:

Embora seja um anônimo, Amâncio Siqueira não é um iniciante na literatura. Foi finalista do Prêmio SESC há seis anos, com um livro de contos ainda inédito (felizmente, pois destoa muito de seus romances já publicados). No romance, diria que alcançou a maturidade já na estreia. Seu “O Evangelho de São Pecador” me surpreendeu muito positivamente, e merece uma edição mais cuidadosa e uma distribuição decente. Com seu “Quebra Cabeças” (Giostri, 2015), essa impressão é aprofundada. É visível que, mesmo numa obra sem a mesma pretensão da anterior, o autor continua buscando conciliar à forma bem acabada, ao apreço com a linguagem, o enredo instigante. Siqueira é um contador de histórias, profissão que está meio abandonada na literatura moderna. Um contador de histórias que não se impôs amarras de um estilo ou uma época, nem se entrega facilmente à auto-complacência. Do romance anterior até este viajou do passado distante (século II DC), até o futuro próximo (2053). Estreando com um romance histórico em estilo épico, agora envereda pela ficção científica. O que sua obra apresenta até aqui, contudo, é uma preocupação com o homem, que pouco mudou de uma época à outra. A unidade de sua obra dá-se pelo comprometimento com um novo humanismo. “Quebra Cabeças” não se encaixa muito bem num gênero. A princípio uma ficção científica, pois inicia com um homem acordando em um hospital em 2053, com células tronco, carros dirigindo-se a si mesmos, pessoas com chips identificadores (impressão acentuada pela capa, com seu quebra-cabeça montado numa cabeça cibernética, colorida, assemelhada às formas futuristas imaginadas em meados do século passado, num retro-futurismo), logo descobrimos que a amnésia do personagem-leitor (uma figura bastante difícil, da qual falarei adiante) é um ensejo para que o romance seja voltado não para o futuro, mas para o passado. Siqueira é um bibliófilo, e escreveu uma obra que transparece sua paixão quase sensual pelos livros. São esses objetos que servirão como guia para o personagem-leitor, num Mapa de Viagem, como bem pontuou Fernando Monteiro. E aí o livro se revela um romance de formação dos mais estranhos, muito bem disfarçado. Os trechos escolhidos das obras que vão montando ao longo da narrativa a história oculta de Anselmo dão pistas de outro aspecto do livro: é um livro que penetra fundo na problemática da memória e do esquecimento. O leitor é levado a perguntar-se a todo instante se valerá a pena lembrar, se não seria melhor afogar-se nas águas do Lete. Dialogando com seus mestres, extrai algumas belas passagens, como esta: “Riobaldo explica-lhe o motivo de querer lembrar: ‘Não gosto de me esquecer de coisa nenhuma. Esquecer, pra mim, é quase igual a perder dinheiro.’ Esquecer tudo, é, então, perder tudo, cair na mais absoluta miséria, pois que é perder até a si mesmo.” O domínio dos diálogos é um ponto a se destacar. A crueza com que Anselmo trata Henrique (ao qual reluta em chamar pelo nome, apelidando-o de Jerimum) não esconde muito bem o cuidado que tem com seu “aprendiz”. Talvez de maneira não totalmente proposital, os diálogos trazem uma carga de tensão e alívio cômico (às vezes concomitantes) que criam uma empatia imediata com seus personagens. É um livro sobre livros, mas é também um livro sobre pessoas; não pessoas abstratas, idealizadas: pessoas concretas, que sangram, choram, comem e se masturbam. E não se orgulham de nada disso. A empatia é também adquirida pela voz narrativa adotada: a segunda pessoa. O autor envereda por um caminho perigoso, um terreno pantanoso que poucos adentraram, do qual a saída com sucesso é incerta. E se sai muito bem do desafio auto-imposto, com poucas manchas e arranhões. O leitor imerge no personagem, descobrindo suas memórias ao mesmo tempo que ele, chegando mesmo a sentir suas dores ou sua confusão, e também seus prazeres. Siqueira nos dá uma bela obra, cativante na forma, surpreendente no conteúdo. Ou vice-versa.

Peças do Quebra Cabeças 4

Hoje publico o texto de Fernando Monteiro, que dispensa apresentações. Como o texto foi publicado originalmente antes do lançamento em Garanhuns, tomei a liberdade de alterar a data e o local:

MAIS UM VEZ ESTÁ VINDO DE GARANHUNS um texto ficcional cuja tessitura revela a mesma paixão literária de um Nivaldo Tenório (cujo “Dias de Febre na Cabeça” a Confraria Do Vento relançou ano passado, amplificando o alcance dessa que é uma das melhores coletâneas de contos brasileiros publicadas nos últimos anos). Agora, é a vez de Amâncio Siqueira lançar “Quebra Cabeças”, uma espécie de “carta de navegação” — em forma de romance — pelos livros que formaram a sensibilidade do jovem escritor de Afogados da Ingazeira (1982) radicado em Garanhuns. O lançamento é amanha (05), na Câmara de Vereadores da princesa do Pajeú e atual jardim de atividades literárias em ebulição. Não é uma hipérbole. Você lê o novo romance de Siqueira (o primeiro foi “O Evangelho de São Pecador”, de 2010), e percebe que não poderia ter sido escrito com o morno temperamento literário de tantas obras ficcionais que têm aparecido, no Brasil inteiro, apenas como desnorteada expressão de uma — vaga — “vontade de escrever”. Nivaldo Tenório e Amâncio Siqueira, em Garanhuns, sinalizam noutra direção: a do empenhamento em obras que revelam leituras verticais, vida interior e capacidade imaginativa de fazer a literatura interrogar o nosso tempo.