Irrefreáveis Trevas

ninguémOs contos do novo livro de Nivaldo Tenório, “Ninguém Detém a Noite”, exigem cumplicidade do leitor, um esforço por ler o não dito, por montar a história. Lançados de forma não linear, cada frase parece uma peça de tetris, que o leitor precisa mudar de posição até conseguir um encaixe, sabendo que dificilmente conseguirá uma linha sem arestas ou brechas.

Em “As Escamas do Monstro”, primeiro conto, de imediato percebemos o que nos espera nos doze contos do volume, os quais mereceriam cada um uma análise mais aprofundada: uma escuridão leitosa oprime nosso peito. Acompanhamos um cidadão de bem que remete a Bentinho ou Paulo Honório, em sua cruzada para fazer (e justificar) o que acha certo. O conto perpassa vários momentos da vida de seu personagem principal, a partir do momento em que retira suas coisas da agência bancária em que trabalhou. A aposentadoria do banco seria o ideal para fazer o balanço de sua vida, que parece ser feito pelo leitor à sua revelia, embora a saída da agência e a chegada em casa sejam abertura e fechamento do conto, um fluxo de consciência passeando por reminiscências de sua vida nesse curto percurso. O título pode ser lido como uma referência à tatuagem que a filha dele faz sem seu consentimento, depois de ter sido levada para uma delegacia junto com outros jovens devido a alguns baseados. O pai a interna numa clínica de reabilitação, gerando o distanciamento de filha e esposa. O monstro é mais profundo, porém, jamais ficando apenas sobre a pele. Em cada passagem há referências sutis a Lúcifer e a tentação, especialmente quando recolhemos fragmentos de um diálogo entre ele e Ernesto, amigo há muito falecido. Satanás é uma serpente (escamas) e recebe a licença de Deus para tirar tudo de Jó. Os dois amigos perderam tudo, cada perda é uma escama do monstro, mas o personagem decide não agir como Jó. Ernesto é um descrente, angariando uma certa irritação do amigo, que compara a atitude de Ernesto com a de Jó. Ao não “tomar as coisas dessa vida com muita seriedade” ele estaria considerando, por causa da fé, que a realidade seja subvertida pelo satanás e decide não agir como o amigo. É aqui que Nivaldo peca pelo excesso de concisão: por que o personagem escolhe acreditar? O filho ajudaria a problematizar isso, assim como diálogos mais extensos. Um dos pontos mais poderosos da narrativa de Tenório é justamente construir uma ponte para os personagens, criar empatia, e o conto de abertura é o único que peca nesse quesito.

Embora “Moby Dick” refira-se textualmente à música do Led Zepellin, uma das músicas que o protagonista de meia idade utiliza como trilha para correr e “recuperar sua juventude” para impressionar sua jovem namorada, impossível não pensar na Baleia Branca que assombra esse Ahab pós-moderno: a velhice. O conto tem momentos belíssimos, como esse: “Eram tão diferentes nossas mãos. Entre elas caberia o mar e uma viagem a pé. Entre nossas mãos uma cidade podia ser erguida. E tanto podia ser uma cidade aqui quanto na Índia. O ritmo do tempo é um só e não depende de geografia. Desenhado na palma da minha mão um mapa me dá conta de que estou perto do fim.” Outro belo exemplo de não linearidade e fluxo de consciência está no conto “Os Sócios de Papai”: “A sala de aula era ampla, nela três janelas de madeira davam para pés de manga. No ano seguinte vou cair de um deles e quase matar mamãe do coração. A professora fez a chamada, e tivemos de nos apresentar.”

Em “O Caso da Tartaruga”, Tenório trata de um tema delicado de nossa história, a tortura, prática com muitos adeptos entre nós, e nos faz pensar se diante de certas coisas é possível seguir em frente, utilizando metáforas e elipses de grande força: “Abri as janelas. Nada. Saí e me sentei no batente. O rumor das ondas invisíveis chegava até mim. Pensei na tartaruga morta. A esta hora foi cortada, fatiada por mãos que vasculham razões de sua morte, como se isso importasse, e fosse possível, uma vez desvendado o mistério, restaurar tudo, pôr as tripas no lugar, a carne de novo intacta recuperaria suas funções e de novo voltaria para o mar. Acima do casco as ondas rugindo.”

Temas como dinheiro, aborto, incesto e assassinato parecem ter sido colocados pelo autor no centro de uma sala, com uma luminária no teto, e em paredes opostas um espelho côncavo e outro convexo para traçar os contos “A Ilha dos Cães” e “Um Coração Impuro”, que também traz uma abordagem interessante para o tema do duplo, tão recorrente na literatura.

Há momentos, especialmente nos contos de caserna, que poderiam formar uma seção do livro, em que as narrativas flertam com os clássicos, como neste trecho de “Ninguém Detém a Noite” que me lembrou de “O Deserto dos Tártaros”, de Dino Buzzati: “Bastava apenas acordar cedo e se ocupar com os preparativos da guerra, e não importa que não haja guerra, um dia a geração depois da sua geração ou outra que virá terá de ir à guerra e tudo fará sentido. Um militar se sente afortunado porque seu mundo faz sentido. Hierarquia em tudo, basta olhar as montanhas e os oceanos.” Entretanto, talvez esse flerte esteja mais na leitura que na escrita. Estamos todos lendo (e escrevendo) o mesmo livro, adicionando capítulos ou notas de rodapé, e os temas universais estão sempre lá: o sentido da vida (ou falta dele), o fracasso, a perda, a velhice e a morte. E o amor e a ternura de que somos capazes enquanto tais engrenagens não nos moem.

Talvez o maior êxito de Nivaldo Tenório enquanto contista seja o fato de que seus personagens não pareçam estar lá apenas para que a história aconteça: eles de fato possuem um passado complexo e um futuro que nos causa apreensão. Mais do que humanizar situações, Nivaldo situaciona humanidades. Não é exagero colocá-lo entre os grandes contistas brasileiros em atividade.

Anúncios

Leituras recomendadas

Mais uma vez chegamos ao novo tempo de um novo dia que já começou, ou vice-versa, e com ele promessas e uma avaliação que sempre nos mostra que não cumprimos as promessas dos últimos novos dias de novos tempos que já começaram lá atrás. No meu caso, a promessa é sempre ler mais e falar mais sobre os livros lidos. Será difícil não conseguir isso ano que vem, em face da exiguidade de publicações no ano que se finda, também parco em leituras.

Deixo aqui a lista daquelas que mais me tocaram. Os números são só pra enumeração, não traduzindo uma ordem de preferência:

Ficção

1 – Alexis ou o Tratado do Vão Combate – Margerite Yourcenar – Um jovem músico covarde abandona sua esposa, despedindo-se por meio de uma carta onde assume sua homossexualidade. Yourcenar transforma essa premissa em uma obra-prima.

2 – Robinson Crusoe – Daniel Defoe – A fabulosa história do náufrago que sobrevive solitário por décadas em uma ilha deserta. Crusoe é o supremo self made man, e o livro é um dos marcos fundadores do romance moderno.

3 – Germinal – Émile Zola – As histórias vividas pelos homens, mulheres e crianças (e animais) das minas aqui retratadas compõem um dos melhores romances que tive o prazer de ler.

4 – A Montanha Mágica – Thomas Mann – Esse romance gigante em todos os sentidos é talvez o mais incrível de um gênero que foi comum entre os meados dos século XIX e XX: o romance do mal do século. Características básicas desse gênero: um jovem burguês herdeiro de certa riqueza, convencido de que está destinado a grandes feitos, que nunca leva nada adiante. Esse gênero foi elevado por grandes obras como Memórias Póstumas de Brás Cubas, A Consciência de Zeno, Oblomov e O Homem Sem Qualidades. Em a Montanha Mágica, Hans Castorp vai visitar por alguns dias seu primo, internado num sanatório para tuberculosos em Davos, na Suíça (sim, a mesma Davos do Fórum Econômico Mundial – e como o livro serve como metáfora para este evento!) e acaba ficando. São mais de mil páginas de uma vida que não acontece, e que belas páginas.

5 – Nihonjin – Oscar Nakasato – Hideo Inabata, avô do narrador, vem para o Brasil para que possa enviar riquezas para o Japão, e na sua busca por esse objetivo, e seus conflitos com seus filhos, vemos passar a história da imigração japonesa em nosso país, uma história muito bem abordada por Nakasato, repleta de fatos violentos que não imaginava.

6 – Contraponto – Aldous Huxley – Uma obra-prima de um dos meus autores preferidos. A forma como ele trabalha as vozes dos personagens, a importância dos acontecimentos, as análises da época, da fina ironia ao mordaz cinismo, tudo é incrível nessa obra.

7 – As Aventuras do Bom Soldado Švejk – Jaroslav Hašek – A obra inacabada do ex-combatente checo é fenomenal. Narrando as desventuras de Švejk até chegar ao front na Primeira Guerra Mundial, mostra o total desencanto com o militarismo, o Império e a guerra. Pra chorar de rir e rir de tanto chorar.

8 – Peter Pan – J. M. Barrie – Um dos maiores livros infantis de todos os tempos, com seus personagens arquetípicos e um enredo com muita aventura. Impossível não se emocionar.

9 – Obra Completa – Raduan Nassar – Um monstro da arte da linguagem.

10 – Ninguém Detém a Noite – Nivaldo Tenório – O segundo livro de Tenório é ainda melhor que “Dias de Febre na Cabeça. Um dos grandes contistas contemporâneos. Em breve sairá resenha por aqui.

Não Ficção

1 – Colapso – Jared Diamond

2 – Vida a Crédito – Zygmunt Bauman

3 – O Gene Egoísta – Richard Dawkins

4 – Como Organizar sua Vida Financeira – Gustavo Cerbasi

5 – O Mito de Sísifo – Albert Camus

Prêmio Pernambuco de Literatura

Compartilho a publicação do portal Bora Agora sobre o resultado da 5º edição do Prêmio Pernambuco de Literatura, no qual meu livro foi um dos selecionados. Necessária se faz uma correção: Absinto não é um romance, é livro de contos. Concorri pelo agreste, por residir em Garanhuns, mas sou natural de Afogados da Ingazeira, no sertão. Pertenço às duas cidades.

Conheça os vencedores do V Prêmio Pernambuco de Literatura

Cinco escritores pernambucanos foram agraciados, na noite desta terça-feira (17), com o Prêmio Pernambuco de Literatura. A cerimônia, que aconteceu no Palácio do Campo das Princesas, foi conduzida pelo governador de Pernambuco Paulo Câmara, que assinou decreto ampliando o prêmio a partir da edição de 2018 e renomeando-o de Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura. Ao lado do secretário de Cultura Marcelino Granja, da presidente da Fundarpe Márcia Souto e do presidente da Cepe Editora Ricardo Leitão, ele anunciou os vencedores.

Foram cinco os escritores pernambucanos agraciados com o prêmio: Ezter Liu, que representa o Agreste, recebeu o Grande Prêmio, com o livro de contos “Das Tripas Coração” – levando a premiação de R$ 15 mil; Walter Cavalcanti Costa, da Mata Norte, venceu com o romance O Velocista; Fred Cajú, do Recife, foi contemplado pelo livro de poemas Nada Consta; Enoo Miranda, de Nazaré da Mata, levou o prêmio pelo livro de poemas Fogo, fato; e Amâncio Siqueira, de Garanhuns, venceu com o romance Absinto. Estes últimos receberão a premiação no valor de R$ 5 mil. Os autores terão suas obras inéditas editadas pela Cepe.

Sobre a futura VI edição do prêmio, a ser realizada em 2018, o secretário de Cultura, Marcelino Granja explicou que a premiação passará de R$ 40 mil para R$ 90 mil. “Agora, iremos premiar os primeiros e segundos lugares. Um robustecimento dessa honraria, que, agora, terá no nome a grandeza de Hermilo, uma referência como escritor que marca as artes e a cultura pernambucana”, acrescentou. Serão concedidas premiações de R$ 20 mil para o grande vencedor, cinco prêmios de R$ 10 mil para os primeiros colocados nas quatro macrorregiões do estado e quatro prêmios de R$ 5 mil para os segundos colocados nas quatro Macrorregiões do Estado, conforme estipulado no Edital da seleção pública.

Conheça os vencedores do V Prêmio Pernambuco de Literatura

De Dívidas e Dividendos

dívidas

“Não existe beleza na miséria.”

Renato Russo

“Não pode pagar sua dívida? Em primeiro lugar, nem precisa tentar: a ausência de débitos não é o estado ideal. Em segundo lugar, não se preocupe: ao contrário dos emprestadores insensíveis de antigamente, ansiosos para reaver seu dinheiro em prazos prefixados e não renováveis, nós, modernos e benevolentes credores, não queremos nosso dinheiro de volta. Longe disso, oferecemos mais créditos para pagar a velha dívida e ainda ficar com algum dinheiro extra (ou seja, alguma dívida extra) a fim de pagar novas alegrias. Somos os bancos que gostam de dizer “sim”. Seus bancos amigos. Bancos “que sorriem”, como dizia uma de suas mais criativas campanhas publicitárias.

O que nenhuma publicidade declarava abertamente, deixando a verdade a cargo das mais sinistras premonições dos devedores, era que os bancos credores realmente não queriam que seus devedores pagassem suas dívidas. Se eles pagassem com diligência os seus débitos, não seriam mais devedores. E são justamente os débitos (os juros cobrados mensalmente) que os credores modernos e benevolentes (além de muito engenhosos) resolveram e conseguiram transformar na principal fonte de lucros constantes. O cliente que paga prontamente o dinheiro que pediu emprestado é o pesadelo dos credores.

A atual “contração de crédito” não é resultado do insucesso dos bancos. Ao contrário, é o fruto, plenamente previsível, embora não previsto, de seu extraordinário sucesso. Sucesso ao transformar uma enorme maioria de homens, mulheres, velhos e jovens numa raça de devedores. Alcançaram seu objetivo: uma raça de devedores eternos e a autoperpetuação do “estar endividado”, à medida que fazer mais dívidas é visto como o único instrumento verdadeiro de salvação das dívidas já contraídas. O hábito universal de buscar mais empréstimos era visto como a única forma realista (ainda que temporária) de suspensão da execução da dívida.”

Zigmunt Baumann, Vida a Crédito

“A incapacidade parcialmente irracional de tentar resolver problemas pode surgir de conflitos entre motivos de curto e de longo prazo do mesmo indivíduo. Os camponeses de Ruanda e do Haiti, além de bilhões de outras pessoas no mundo atual, são desesperadamente pobres e só pensam no que vão comer no dia seguinte. Pobres pescadores em áreas de recifes coralígenos tropicais usam dinamite e cianeto para matar peixes (e incidentalmente matam também o recife) de modo a alimentar seus filhos hoje, mesmo sabendo que estão destruindo sua futura fonte de alimento.”
Jared Diamond, Colapso

“Se o planejamento financeiro familiar pode ser comparado à rotina de atividades saudáveis e à dieta alimentar da família, associo as dívidas à gordura de nosso corpo. Podemos viver perfeitamente sem elas, mas um pouquinho de gordura não faz mal a ninguém; pelo contrário, é até sinal de que aqueles menos enxutos vivem uma vida mais indulgente e prazerosa.
Entretanto, o excesso de gorduras não indica maior nível de satisfação, mas sim de problemas. A obesidade financeira, se não diagnosticada e controlada a tempo, certamente resulta em sofrimento, seja na convivência com ela, seja na tentativa de eliminá-la.”
Gustavo Cerbasi

Esse será provavelmente o texto mais longo que já publiquei nesse blogue. E será justamente por não se tratar dos assuntos a que me propus quando o iniciei. A Ceia das Cinzas tem como assuntos principais literatura e filosofia, com alguma coisa sobre divulgação científica, artes e história. Essa postagem, entretanto, é sobre economia e finanças pessoais, e será longa justamente porque quero tentar esgotar o que tenho a dizer aqui. Talvez daqui a dez ou vinte anos decida abordar esse assunto novamente, mas não será um tema recorrente. Até porque não sou especialista nem estou perto disso, e há muito material disponível para aqueles que, espero, passem a se interessar pelo assunto após meu apelo.

Sim, esse texto é, mais do que uma crônica, artigo ou resenha, um apelo. Um apelo para nós enquanto povo. Estou convencido que o grande salto que o Brasil precisa é o salto educacional, e um de seus alicerces será a educação financeira. Sem uma mudança total na forma como vemos e convivemos com o dinheiro, não deixaremos nunca de ser um país feliz em chafurdar na lama.

Devo falar de meu exemplo pessoal, não apenas por acreditar na força do exemplo, como para justificar ter passado tantos meses sem publicar por aqui. Desde que comecei a trabalhar, sempre tive salários pelo menos cinquenta por cento superiores à média salarial do mercado, além de outras vantagens econômicas, como, por exemplo, participação nos lucros quando trabalhei na iniciativa privada. Participação esta que eu utilizava de maneira bem racional: ia à Livraria Cultura e gastava inteira com livros, muitos dos quais ainda não li. Alguns anos depois, dívidas contraídas para quitar um acordo de divórcio, uma reforma no imóvel para a chegada de um filho, muitas latas de Nan e pacotes de Pampers depois, tive que me abster de comprar livros, e descobri que não fazer por opção é bem mais prazeroso que por necessidade. Mesmo sempre tendo criticado o consumismo, hoje percebo que eu era consumista e inconsequente. Muitas das dificuldades que passei foram reflexo de péssimas escolhas, de uma cegueira em relação ao futuro. O fato de ter um salário “garantido” me dava a falsa noção de não necessitar de uma reserva de emergência. Não tinha a consciência de que imprevistos são as coisas mais previsíveis na vida.

Percebi que estava tocando o fundo do poço quando passei a pagar setecentos reais de juros no cheque especial. Todos os meses. Alguma coisa tinha que ser feita, e logo. Eu tinha dois anos do meu salário inteiramente destinados para o pagamento de juros bancários. A primeira coisa que fiz foi cancelar a conta que me dava um limite alto no cheque especial. Precisava me adequar aos meus ganhos, parar de recorrer a empréstimos para suprir minhas necessidades. Após muitas noites de sono perdido, em que contava juros e encargos ao invés de contar carneirinhos, decidi fazer o que sempre faço quando minha atenção se volta para algum assunto: fui estudar. Baixei dezenas de livros sobre economia e finanças pessoais, desde os destaques da seção de autoajuda até livros mais técnicos, buscando entender o macro e o micro, a cabeça dos endividados e os anseios do mercado. Foram seis meses basicamente afastado da literatura, focado nesses assuntos. Minha conclusão é que não apenas eu preciso mudar meus hábitos. Milhões de pessoas se encontram em situação ainda pior que a minha, vivendo em patamares de consumo insustentáveis e acreditando que estão dando prejuízos aos bancos quando dão calote ou renegociam pelo “mínimo”.

A primeira coisa que devemos ter em mente é que bancos são empresas de intermediação financeira. Eles pegam dinheiro barato e emprestam caro. Num ambiente financeiramente saudável, são importantes veículos de incentivo à produção. O problema é que não vivemos num ambiente assim, e o principal sintoma é que os bancos lucram muito mais do que as empresas que realmente produzem algo. O Brasil está correndo para copiar um modelo que gerou a crise de 2008 e deve sofrer com o estouro de uma super bolha até o fim desta década. Uma bolha que terá inclusive participação da China, que também entrou nos últimos anos no modelo de crescimento “artificial”, baseado em dinheiro sem lastro e elevado spread bancário para compensar os altos riscos de emprestar a quem não tem capacidade de pagar. Trocando em miúdos, empréstimos de moeda nominal, sem bens reais que justifiquem sua criação. A China vinha crescendo nas últimas décadas de forma sustentável, conforme bem resume Fernando Ulrich, no livro Bitcoin, A Moeda na Era Digital: “Para que haja investimento, é preciso haver poupança. É o investimento que permite o acúmulo de capital, que, por sua vez, possibilita uma maior produtividade da economia. Mas sem poupança prévia não é possível investir. A expansão do crédito pelo sistema bancário sob um regime de reservas fracionárias permite que os bancos concedam empréstimos às empresas e indivíduos como se houvesse poupança disponível, quando, na verdade, isso não ocorreu. Logo, os empresários investem como se houvesse recursos disponíveis para levar a cabo seus empreendimentos, criando um auge econômico que contém as sementes de sua própria ruína. Cedo ou tarde, alguns investimentos não poderão ser concluídos (pois simplesmente não há recursos suficientes para que sejam completados lucrativamente), devendo ser liquidados o quanto antes. Esse é o momento da recessão, quando os excessos cometidos durante o boom precisam ser sanados para que a estrutura produtiva da economia retome o seu rumo de forma sustentável.” O Brasil sofrerá ainda mais com a próxima crise, pois não fez poupança suficiente depois de 2008.

Algo espantoso é que a maioria dos brasileiros acredita que não apenas não é problema, mas é algo natural e mesmo desejável viver devendo aos bancos e financeiras. O ritual de trocar de carro assim que se termina o financiamento, para não ficar sem parcelas fixas para pagar, é incentivado nos círculos de nossa classe média, e as classes mais baixas estão internalizando essa prática para eletrodomésticos. O vício do carnê voltou com força total depois dos carnês do baú terem saído de moda há alguns anos. Até mesmo esse voltou. As grandes varejistas não vendem produtos: vendem crédito. “Fidelizam” os clientes em pequenas parcelas. E estes não conseguem perceber o quadro geral, nem mesmo da dívida contraída. Acrescente-se a isso o fato que parcelas fixas enrijecem o orçamento familiar e torna o ambiente propício para que um único imprevisto dê início a uma bola de neve, por não deixar margem para cobrir o gasto extra sem recorrer a algum empréstimo.

Chega dessa ladainha de dizer que o dinheiro não é importante. Aqueles que não acham que o dinheiro é importante serão dominados pelos que acham. Todo o quadro político e social que vivemos é um exemplo claro e gritante disso. Nossa democracia nunca deixou de ser censitária, desde as primeiras eleições em 1532, quando apenas estavam aptos para votar e concorrer às eleições os chamados “homens bons”, ou seja, indivíduos oriundos de famílias abastadas, com títulos nobiliárquicos ou donos de muitas propriedades. Não à toa nosso Congresso a cada eleição tem um número maior de milionários, mesmo escondendo a maior parte de seu patrimônio, enquanto nossa classe média destila seu ódio contra todo político que não seja um “homem bom”, hoje chamado de “cidadão de bem”. A mentalidade do nosso povo deve mudar, e logo. Talvez devamos almejar e perseguir o primeiro milhão. Se todos formos ricos, todos teremos voz.

O dinheiro é a melhor medida de tempo que dispomos, e não nos apercebemos disso. O dinheiro é uma forma de mensurar o tempo despendido, guardar algum valor pelo tempo que já gastamos, e pode, se usado de forma inteligente, garantir a compra de um tempo extra no futuro, com uma aposentadoria mais cedo, ou com melhor qualidade de vida, ou ainda com uma sobrevida maior pelo aumento da saúde geral. Antes de comprar qualquer coisa, deveríamos pensar no quanto de tempo gasto será necessário para comprar aquilo. A sistemática da ostentação não dá valor ao dinheiro, pelo contrário, é a elevação à máxima potência da prática de jogar dinheiro fora. Nós aprendemos desde cedo que não adianta ter um helicóptero se nosso vizinho também tem. Essa mentalidade da inveja ao contrário, ou esse desejo de ser invejado, é o que torna nosso país um dos mais caros do mundo. Nosso afã de aparentar ter dinheiro é o que nos faz jogar tanto dinheiro fora.

Aqui a prática da lei da oferta e da procura é selvagem. A esperteza é a maior burrice. Num ambiente assim, não é de se estranhar que a inflação só fique sob controle em tempos de recessão. Se quisermos controlar a inflação e manter os juros baixos, a única maneira é darmos valor ao nosso dinheiro. É agir sempre como se o dinheiro estivesse escasso, como se todo dia estivéssemos em crise. Quem sabe em um futuro distante paremos de procurar formas de ludibriar uns aos outros e comecemos a parar de ser ludibriados por bancos, empresas e governo. Imagine que loucura seria receber juros deles ao invés de pagar. Buscar as melhores debêntures, CDBs e Títulos do Tesouro ao invés dos melhores consignados, financiamentos e formas de enganar o fisco.

Estou há um mês sem entrar no cheque especial. E você?

O Vão Combate

“Dizia a mim mesmo, com rebeldia, que a natureza é injusta com os que obedecem suas leis mais claras, posto que cada nascimento põe em perigo duas vidas. Todos fazemos sofrer quando nascemos e sofremos quando morremos.

(…)

A vida me fez o que sou, prisioneiro (como queira) de instintos que não escolhi, mas aos quais me resigno, e essa aceitação, espero, na falta da felicidade, me trará a serenidade. Minha amiga, sempre te acreditei capaz de compreender, o que é mais difícil que perdoar.”

Marguerite Yourcenar

Em “Alexis ou o Tratado do Vão Combate”, Marguerite Yourcenar lança mão do romance (uni)epistolar para refletir de forma profunda e certeira acerca da vida. A longa carta de separação que Alexis escreve para sua esposa Mônica poderia facilmente cair na aridez do discurso e tornar-se entediante. A genialidade de Yourcenar não permite que tal ocorra, e o leitor encontrará em cada parágrafo uma pérola de estilo.

Alexis tenta traçar um esboço de sua vida, em especial antes de conhecer a esposa, e nessa rememoração busca a compreensão dela e também a reconciliação consigo mesmo. Embora o tema central seja um homem em conflito com a própria sexualidade, vemos descortinar-se um drama maior: o de homens e mulheres que vivem existências infelizes, amarrados a deveres sociais que os levam ao fundo de um oceano de dissabores, para o qual muitas vezes levam consigo outras pessoas, numa cadeia intrincada de obrigações que sufoca a todos. A metáfora perfeita aqui é a incompatibilidade entre o casamento do personagem e a música. Em certo momento, Alexis pede desculpas não por partir, mas por ter ficado tempo demais.

830819

Numa teia de acontecimentos bem montada, Yourcenar prende a atenção e conclui de maneira magistral seu pensamento: Não há combate mais vão que lutar contra a própria natureza.

 

Vestígios do Antropoceno

“O que a história nos revela, com seus altos e baixos, é que a vida é muito resiliente, mas não dura para sempre. Houve longuíssimos períodos sem quaisquer eventos e muito, muito de vez em quando, “revoluções na face da Terra”.
Até onde podemos identificar as causas dessas revoluções, dá para ver que são bastante variadas: glaciação, no caso da extinção no fim do Ordoviciano; aquecimento global e mudanças na química dos oceanos no fim do Permiano; o impacto de um asteroide nos derradeiros segundos do Cretáceo. A extinção em curso tem sua própria causa original — não é um asteroide ou uma erupção vulcânica maciça, mas “uma espécie daninha”. Como me disse Walter Alvarez, “estamos observando, neste mesmo instante, que uma extinção em massa pode ser causada pelos seres hufmanos”.”

Elizabeth Kolbert, A Sexta Extinção – Uma História não Natural

Nesta obra de divulgação científica vencedora do Pulitzer de 2015, Kolbert relata as várias viagens que realizou nos últimos anos e as opiniões de grandes especialistas acerca do período geológico que estamos vivendo, o antropoceno, e suas implicações para o meio ambiente.

Traçando paralelos com outros períodos geológicos igualmente dramáticos para a biodiversidade, traz relatos das prováveis causas das cinco grandes extinções que ocorreram nos bilhões de anos em que a vida tem insistido em subsistir em nosso planeta. Passando por cavernas de morcegos dizimados por fungos, corais ameaçados pela acidificação dos oceanos, lagoas agora sem os anfíbios que lhes davam nome, montanhas já quase sem as neves que alentavam rios, vemos em nosso horizonte uma tenebrosa paisagem.

O livro está muito bem amarrado e documentado, e é um alerta contundente para aqueles que acreditam ser grande a diferença entre ter um livro nas mãos ou um machado:

“Embora seja ótimo imaginar que houve um tempo em que o homem vivia em harmonia com a natureza, não existem evidências de que isso tenha de fato acontecido.”

O ser humano destruiu e tem destru inúmeras espécies desde que pôs fim à megafauna, inclusive extinguindo outras espécies humanas. A autora pergunta “até onde iremos?” quando cita uma frase do ecologista de Stanford Paul Ehrlich: AO PRESSIONAR OUTRAS ESPÉCIES PARA A EXTINÇÃO, A HUMANIDADE ESTÁ SERRANDO O GALHO SOBRE O QUAL ESTÁ SENTADA.

De aceitar o que se foi

500_9789722038386_chico_buarque_leite derramado.jpg“Na velhice a gente dá para repetir casos antigos, porém jamais com a mesma precisão, porque cada lembrança já é um arremedo de lembrança anterior.

(…)
E debaixo do banho observei meu corpo fremente, só que neste momento minha cabeça fraquejou, não sei mais de que banho estou falando. São tantas as minhas lembranças, e lembranças de lembranças de lembranças, que já não sei em qual camada da memória eu estava agora.

(…)
Mas se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida.
Chico Buarque, Leite Derramado

Em Leite Derramado encontrei pela primeira vez em muito tempo uma narrativa confusa que me encantou. A obra de Chico Buarque não usa a confusão como marca de qualidade textual: é parte da trama, ou a própria trama. A confusão é o próprio caráter do personagem que faz um monólogo, contando fragmentos de sua história pra quem quer que esteja próximo o bastante para ouvir (algo comum aos velhos).

O centenário Eulálio D’Assumpção poderia lembrar o personagem principal de “O Ladrão do Tempo”, de John Boyne, com sua vivência permeada pelos grandes acontecimentos dos tempos vividos. Mas as duas obras não poderiam ser mais diferentes: Eulálio está internado num estabelecimento de saúde, doente, fragilizado, sem privacidade, e se refugia num passado de glória, nos Eulálios D’Assumpção que remontam até a sexta, sétima, oitava, talvez décima geração, sempre figuras ilustres, convivendo com o Marquês de Pombal, com o presidente Deodoro, o Imperador Pedro II… Sempre enlaçados ao poder, seja feudalista, escravagista, abolicionista, capitalista e quiçá comunista, se tal regime viesse a vigorar no Brasil.

O passado, contudo, esconde mais dores que prazeres, e logo percebemos que o saudosismo não consegue esconder aquilo que o corpo mostra: a decadência. A decadência que parece uma marca do país, e que acompanha os D’Assumpção. O narrador em alguns momentos, tentando destacar o “p” mudo, vai aos poucos demonstrando sua dificuldade em adaptar-se aos acontecimentos, embora tente manter as aparências. Entre as diversas camadas de memória, estão as mentiras criadas para justificar o desaparecimento de Matilde, a mãe de sua filha, o único amor de sua vida. Ao lado da trama dos Eulálios e do país, floresce a do abandono de Matilde, de como se conheceram, de como se amaram. Camadas e mais camadas de fatos, alusões e mentiras vão se justapondo para que o leitor tente remontar a história.

Leite Derramado é uma bela obra sobre a memória e o esquecimento, e também sobre a senilidade de uma classe que se recusa a aceitar que os tempos mudaram e se aferra ao passado, mesmo que tenha que se mudar para um puxadinho de uma igreja evangélica para se manter ao lado dos vencedores. Ou dos menos derrotados.