O Vão Combate

“Dizia a mim mesmo, com rebeldia, que a natureza é injusta com os que obedecem suas leis mais claras, posto que cada nascimento põe em perigo duas vidas. Todos fazemos sofrer quando nascemos e sofremos quando morremos.

(…)

A vida me fez o que sou, prisioneiro (como queira) de instintos que não escolhi, mas aos quais me resigno, e essa aceitação, espero, na falta da felicidade, me trará a serenidade. Minha amiga, sempre te acreditei capaz de compreender, o que é mais difícil que perdoar.”

Marguerite Yourcenar

Em “Alexis ou o Tratado do Vão Combate”, Marguerite Yourcenar lança mão do romance (uni)epistolar para refletir de forma profunda e certeira acerca da vida. A longa carta de separação que Alexis escreve para sua esposa Mônica poderia facilmente cair na aridez do discurso e tornar-se entediante. A genialidade de Yourcenar não permite que tal ocorra, e o leitor encontrará em cada parágrafo uma pérola de estilo.

Alexis tenta traçar um esboço de sua vida, em especial antes de conhecer a esposa, e nessa rememoração busca a compreensão dela e também a reconciliação consigo mesmo. Embora o tema central seja um homem em conflito com a própria sexualidade, vemos descortinar-se um drama maior: o de homens e mulheres que vivem existências infelizes, amarrados a deveres sociais que os levam ao fundo de um oceano de dissabores, para o qual muitas vezes levam consigo outras pessoas, numa cadeia intrincada de obrigações que sufoca a todos. A metáfora perfeita aqui é a incompatibilidade entre o casamento do personagem e a música. Em certo momento, Alexis pede desculpas não por partir, mas por ter ficado tempo demais.

830819

Numa teia de acontecimentos bem montada, Yourcenar prende a atenção e conclui de maneira magistral seu pensamento: Não há combate mais vão que lutar contra a própria natureza.

 

Vestígios do Antropoceno

“O que a história nos revela, com seus altos e baixos, é que a vida é muito resiliente, mas não dura para sempre. Houve longuíssimos períodos sem quaisquer eventos e muito, muito de vez em quando, “revoluções na face da Terra”.
Até onde podemos identificar as causas dessas revoluções, dá para ver que são bastante variadas: glaciação, no caso da extinção no fim do Ordoviciano; aquecimento global e mudanças na química dos oceanos no fim do Permiano; o impacto de um asteroide nos derradeiros segundos do Cretáceo. A extinção em curso tem sua própria causa original — não é um asteroide ou uma erupção vulcânica maciça, mas “uma espécie daninha”. Como me disse Walter Alvarez, “estamos observando, neste mesmo instante, que uma extinção em massa pode ser causada pelos seres hufmanos”.”

Elizabeth Kolbert, A Sexta Extinção – Uma História não Natural

Nesta obra de divulgação científica vencedora do Pulitzer de 2015, Kolbert relata as várias viagens que realizou nos últimos anos e as opiniões de grandes especialistas acerca do período geológico que estamos vivendo, o antropoceno, e suas implicações para o meio ambiente.

Traçando paralelos com outros períodos geológicos igualmente dramáticos para a biodiversidade, traz relatos das prováveis causas das cinco grandes extinções que ocorreram nos bilhões de anos em que a vida tem insistido em subsistir em nosso planeta. Passando por cavernas de morcegos dizimados por fungos, corais ameaçados pela acidificação dos oceanos, lagoas agora sem os anfíbios que lhes davam nome, montanhas já quase sem as neves que alentavam rios, vemos em nosso horizonte uma tenebrosa paisagem.

O livro está muito bem amarrado e documentado, e é um alerta contundente para aqueles que acreditam ser grande a diferença entre ter um livro nas mãos ou um machado:

“Embora seja ótimo imaginar que houve um tempo em que o homem vivia em harmonia com a natureza, não existem evidências de que isso tenha de fato acontecido.”

O ser humano destruiu e tem destru inúmeras espécies desde que pôs fim à megafauna, inclusive extinguindo outras espécies humanas. A autora pergunta “até onde iremos?” quando cita uma frase do ecologista de Stanford Paul Ehrlich: AO PRESSIONAR OUTRAS ESPÉCIES PARA A EXTINÇÃO, A HUMANIDADE ESTÁ SERRANDO O GALHO SOBRE O QUAL ESTÁ SENTADA.

De aceitar o que se foi

500_9789722038386_chico_buarque_leite derramado.jpg“Na velhice a gente dá para repetir casos antigos, porém jamais com a mesma precisão, porque cada lembrança já é um arremedo de lembrança anterior.

(…)
E debaixo do banho observei meu corpo fremente, só que neste momento minha cabeça fraquejou, não sei mais de que banho estou falando. São tantas as minhas lembranças, e lembranças de lembranças de lembranças, que já não sei em qual camada da memória eu estava agora.

(…)
Mas se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida.
Chico Buarque, Leite Derramado

Em Leite Derramado encontrei pela primeira vez em muito tempo uma narrativa confusa que me encantou. A obra de Chico Buarque não usa a confusão como marca de qualidade textual: é parte da trama, ou a própria trama. A confusão é o próprio caráter do personagem que faz um monólogo, contando fragmentos de sua história pra quem quer que esteja próximo o bastante para ouvir (algo comum aos velhos).

O centenário Eulálio D’Assumpção poderia lembrar o personagem principal de “O Ladrão do Tempo”, de John Boyne, com sua vivência permeada pelos grandes acontecimentos dos tempos vividos. Mas as duas obras não poderiam ser mais diferentes: Eulálio está internado num estabelecimento de saúde, doente, fragilizado, sem privacidade, e se refugia num passado de glória, nos Eulálios D’Assumpção que remontam até a sexta, sétima, oitava, talvez décima geração, sempre figuras ilustres, convivendo com o Marquês de Pombal, com o presidente Deodoro, o Imperador Pedro II… Sempre enlaçados ao poder, seja feudalista, escravagista, abolicionista, capitalista e quiçá comunista, se tal regime viesse a vigorar no Brasil.

O passado, contudo, esconde mais dores que prazeres, e logo percebemos que o saudosismo não consegue esconder aquilo que o corpo mostra: a decadência. A decadência que parece uma marca do país, e que acompanha os D’Assumpção. O narrador em alguns momentos, tentando destacar o “p” mudo, vai aos poucos demonstrando sua dificuldade em adaptar-se aos acontecimentos, embora tente manter as aparências. Entre as diversas camadas de memória, estão as mentiras criadas para justificar o desaparecimento de Matilde, a mãe de sua filha, o único amor de sua vida. Ao lado da trama dos Eulálios e do país, floresce a do abandono de Matilde, de como se conheceram, de como se amaram. Camadas e mais camadas de fatos, alusões e mentiras vão se justapondo para que o leitor tente remontar a história.

Leite Derramado é uma bela obra sobre a memória e o esquecimento, e também sobre a senilidade de uma classe que se recusa a aceitar que os tempos mudaram e se aferra ao passado, mesmo que tenha que se mudar para um puxadinho de uma igreja evangélica para se manter ao lado dos vencedores. Ou dos menos derrotados.

Hesse em pequenas doses

Cuentos I, o primeiro volume dos contos de Hermann Hesse traduzidos para o espanhol, é uma coletânea capaz de enlouquecer aqueles que buscam “unidade” num livro de contos. Este primeiro tomo é um retrato da inventividade do autor, prêmio Nobel quando a academia premiava escritores de ficção. O conto “Karl Eugen Eiselein” lembra o “Aurora sem Dia”, de Machado de Assis, embora um tanto menos irônico. Acompanhamos um típico adolescente com um futuro brilhante que muda seu pensamento ao vento das estações depois de ir morar fora, e os conflitos que sua “alma de artista” suscita em relação aos seus pais. “El Reformador” tem semelhanças com o “Karl…”, embora aqui haja uma “alma religiosa” e o conflito seja com a pragmática namorada. Em ambos percebemos que o espírito hippie não é tão novo assim.

“De la infancia” é uma pérola de sensibilidade, que reflete a experiência do narrador com a doença de um amigo e suas reflexões acerca do primeiro contato com a perda. “El alumno de latín” traz um personagem que deixa de lado as aspirações artísticas e individuais em busca do amor físico. Tanto ele como “La marmolería” e “Mes de Julio”, parecem releituras do Werther de Goethe, tratando do louco e desesperado amor dos jovens, tão perigoso e facilmente esquecível. Os três formam um belo e trágico conjunto de possibilidades.

“Bajo el viejo sol”, “El lobo” e “Del taller” são pré-kafkianos, cada um à sua maneira, especialmente o último, que abre um recorte poderoso sobre o absurdo cotidiano.

“El enano” remete às novelas de Bocaccio ou de Cervantes, com seu narrador que conta numa taberna a história de uma bela princesa que vive feliz com seu papagaio e seu culto anão num palácio em Veneza, até que chega o amor na figura de um nobre voltando do oriente. Esse conto traz um rico universo, mostrando que a Itália foi o primeiro oriente dos alemães, e guarda surpresas que farão desvanecer a ideia de idílio que poderia a princípio evocar. É o meu conto preferido, embora seja difícil apontar um sócuentos-hesse.

A César…

Procuro dar a este blogue um caráter puramente literário, ou ao menos bibliófilo, mas às vezes tenho que fugir um pouco disso. Nessa postagem vou comentar uma imagem que tem sido muito compartilhada, comparando as estrelas da seleção masculina e feminina de futebol.

Essa comparação nãmarta.jpgo tem a mínima lógica, e é tão absurda em tão diversos níveis, que não posso me furtar a comentá-la. Não assisto futebol, nem masculino nem feminino, e não considero Neymar melhor que a Marta, porém temos que entender como o mundo funciona. O primeiro absurdo, do ponto de vista econômico: Se compara dois funcionários de empresas diferentes e se estabelece um parâmetro de produtividade em relação a uma terceira empresa. Essa imagem ainda dá a entender que os salários são pagos pela seleção. Quem paga são os clubes, e pra eles se o jogador nem jogasse pela seleção seria melhor. Dão a mínima pra gols marcados pela seleção. Querem saber de quem vende ingresso e camisa e ganha títulos pelo clube (e a única importância dos títulos é aumentar o número de torcedores e, consequentemente, a venda de camisas e ingressos). David Beckham nunca prestou, mas foi mais bem pago por um bom tempo. Outro absurdo é considerar que algum(a) atleta do futebol é pago por gol marcado. Se assim fosse, coitados dos goleiros e zagueiros. Tem ainda a divisão do salário anual pelos gols marcados em toda a carreira, que é de um nonsense aberrante. Se o clube de Marta pagasse o salário de Neymar pra ela, quebraria, e essa é uma conta muito fácil de fazer.

Quem usa a imagem faz uma comparação infeliz: compara o mundo do entretenimento (sim, a remuneração esportiva se dá pelo entretenimento que proporciona: quem vende mais ganha mais) com o mundo corporativo. Reclamar dessa diferença é como reclamar que Gisele Bündchen ganhe mais que modelos masculinos, ou que Ivete Sangalo ganhe mais que Alceu Valença: algo sem nexo. As desigualdades de gênero devem ser combatidas quando não se apoiam em regras da própria indústria, sem as quais a indústria ruiria. Uma CEO de uma grande empresa traz tantos benefícios quanto um CEO, assim como seus faxineiros de ambos os sexos, mas uma cantora, um atleta, uma bailarina e qualquer outra carreira do entretenimento não podem ser comparados ente si, pois cada um gera um valor individual.

Essa imagem é compartilhada em sua imensa maioria por pessoas que não assistem esportes, que não compram ingresso, nem camisa oficial do clube, não compram pay-per-view, que não comprariam produtos se fossem anunciados por Marta… Ou seja, pessoas que podem achar alguma lógica nessa comparação, e compartilhar essa imagem um bilhão de vezes, contudo tenho que fazer-lhes um lembrete: Se todas as pessoas da Terra pararem de acreditar na gravidade, ninguém sairá flutuando por isso. O mundo vai continuar os mesmo, e a lógica que o move também: o clube que paga o salário de Marta continuará pagando o mesmo salário, pois é uma empresa e tem que se manter.

Se as pessoas quiserem que Marta ganhe igual a Neymar, ou mais que ele, têm que assistir aos jogos dela pelo clube, comprar ingressos e camisas. Terão que contribuir com o fim dessa desigualdade.

O Silêncio do Casulo

Hannibal Lecter é um dos mais icônicos personagens do século vinte. A transposição do clássico O Silêncio dos Inocentes, de Thomas Harris, para o cinema, com a incrível atuação de Anthony Hopkins, tornou o livro indissociável do filme, ambos obras primas em seus gêneros.
Acompanhamos a aspirante a agente do FBI Clarice Starling numa missão assustadora: entrevistar o médico canibal. As entrevistas tomam um rumo inesperado quando Lecter começa a decifrar as intenções de Buffalo Bill, um assassino em série de mulheres investigado pelo chefe de Clarice, Crawford, que trabalha na busca pelo assassino mesmo com sua esposa doente em fase terminal.
Harris é um mestre na construção dos personagens e dos cenários. O desenvolvimento dos agentes, das vítimas e especialmente dos assassinos impressionam. Suas tramas são construídas com elementos de psicologia, criminalística, química e muita literatura, costuradas de forma fluida e muito prazerosa, levando o leitor a cumprir o quid pro quo sugerido pelo doutor Lecter.

Entre os dedos

Em Isso que Escorre (u-Carboreto, 2016, 96 páginas) Wagner Marques, estreante autor garanhuense, mostra inventividade em quinze contos curtos, com temática variada, embora tragam em si um tema maior que os une: a dor que cerca as vidas que escorrem entre dedos incertos. A notícia policial deixa de ser algo impessoal, adentra o mundo do leitor, faz as tripas revirarem, parafusam no juízo.

Inventividade levada ao máximo em O Saco. O conto Coisa de Deus poderia incorrer em algo que não gosto em Eça de Queiroz: o moralismo do pecado feminino sempre punido, disfarçado no realismo da narrativa. O título, contudo, e os questionamentos suscitados, levaram minha leitura por outro caminho. É de se destacar, ao lado da inventividade, a liberdade criativa do autor. Em nenhum dos contos usa a si mesmo como personagem, ou deixa entrever suas opiniões, inclusive em muitos momentos ouvindo – e calando diante de – perguntas iconoclásticas de seus personagens. Mesmo o conto que traz a frase que dá título ao livro, A Marca Intensa, que poderia facilmente descambar para um panfleto contra o aborto, torna-se uma problematização a respeito do desgaste das relações, escorrendo junto dos grãos de areia da ampulheta.

Não há tentativas de poesia gratuita. Os poucos trechos poéticos são bem selecionados e postos em pontos certos, auxiliando na fluidez da narrativa, escorrendo junto com a violência relatada, sem buscar o paliativo.

Particularmente, não gostei do uso de colchetes. Na maioria dos casos, creio que as falas e pensamentos dentro do próprio parágrafo funcionariam melhor. Um pouco mais de estudo do discurso indireto livre poderá fazer os escritos de Wagner Marques ainda mais interessantes.