Prêmio Pernambuco de Literatura

Compartilho a publicação do portal Bora Agora sobre o resultado da 5º edição do Prêmio Pernambuco de Literatura, no qual meu livro foi um dos selecionados. Necessária se faz uma correção: Absinto não é um romance, é livro de contos. Concorri pelo agreste, por residir em Garanhuns, mas sou natural de Afogados da Ingazeira, no sertão. Pertenço às duas cidades.

Conheça os vencedores do V Prêmio Pernambuco de Literatura

Cinco escritores pernambucanos foram agraciados, na noite desta terça-feira (17), com o Prêmio Pernambuco de Literatura. A cerimônia, que aconteceu no Palácio do Campo das Princesas, foi conduzida pelo governador de Pernambuco Paulo Câmara, que assinou decreto ampliando o prêmio a partir da edição de 2018 e renomeando-o de Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura. Ao lado do secretário de Cultura Marcelino Granja, da presidente da Fundarpe Márcia Souto e do presidente da Cepe Editora Ricardo Leitão, ele anunciou os vencedores.

Foram cinco os escritores pernambucanos agraciados com o prêmio: Ezter Liu, que representa o Agreste, recebeu o Grande Prêmio, com o livro de contos “Das Tripas Coração” – levando a premiação de R$ 15 mil; Walter Cavalcanti Costa, da Mata Norte, venceu com o romance O Velocista; Fred Cajú, do Recife, foi contemplado pelo livro de poemas Nada Consta; Enoo Miranda, de Nazaré da Mata, levou o prêmio pelo livro de poemas Fogo, fato; e Amâncio Siqueira, de Garanhuns, venceu com o romance Absinto. Estes últimos receberão a premiação no valor de R$ 5 mil. Os autores terão suas obras inéditas editadas pela Cepe.

Sobre a futura VI edição do prêmio, a ser realizada em 2018, o secretário de Cultura, Marcelino Granja explicou que a premiação passará de R$ 40 mil para R$ 90 mil. “Agora, iremos premiar os primeiros e segundos lugares. Um robustecimento dessa honraria, que, agora, terá no nome a grandeza de Hermilo, uma referência como escritor que marca as artes e a cultura pernambucana”, acrescentou. Serão concedidas premiações de R$ 20 mil para o grande vencedor, cinco prêmios de R$ 10 mil para os primeiros colocados nas quatro macrorregiões do estado e quatro prêmios de R$ 5 mil para os segundos colocados nas quatro Macrorregiões do Estado, conforme estipulado no Edital da seleção pública.

Conheça os vencedores do V Prêmio Pernambuco de Literatura

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De Dívidas e Dividendos

dívidas

“Não existe beleza na miséria.”

Renato Russo

“Não pode pagar sua dívida? Em primeiro lugar, nem precisa tentar: a ausência de débitos não é o estado ideal. Em segundo lugar, não se preocupe: ao contrário dos emprestadores insensíveis de antigamente, ansiosos para reaver seu dinheiro em prazos prefixados e não renováveis, nós, modernos e benevolentes credores, não queremos nosso dinheiro de volta. Longe disso, oferecemos mais créditos para pagar a velha dívida e ainda ficar com algum dinheiro extra (ou seja, alguma dívida extra) a fim de pagar novas alegrias. Somos os bancos que gostam de dizer “sim”. Seus bancos amigos. Bancos “que sorriem”, como dizia uma de suas mais criativas campanhas publicitárias.

O que nenhuma publicidade declarava abertamente, deixando a verdade a cargo das mais sinistras premonições dos devedores, era que os bancos credores realmente não queriam que seus devedores pagassem suas dívidas. Se eles pagassem com diligência os seus débitos, não seriam mais devedores. E são justamente os débitos (os juros cobrados mensalmente) que os credores modernos e benevolentes (além de muito engenhosos) resolveram e conseguiram transformar na principal fonte de lucros constantes. O cliente que paga prontamente o dinheiro que pediu emprestado é o pesadelo dos credores.

A atual “contração de crédito” não é resultado do insucesso dos bancos. Ao contrário, é o fruto, plenamente previsível, embora não previsto, de seu extraordinário sucesso. Sucesso ao transformar uma enorme maioria de homens, mulheres, velhos e jovens numa raça de devedores. Alcançaram seu objetivo: uma raça de devedores eternos e a autoperpetuação do “estar endividado”, à medida que fazer mais dívidas é visto como o único instrumento verdadeiro de salvação das dívidas já contraídas. O hábito universal de buscar mais empréstimos era visto como a única forma realista (ainda que temporária) de suspensão da execução da dívida.”

Zigmunt Baumann, Vida a Crédito

“A incapacidade parcialmente irracional de tentar resolver problemas pode surgir de conflitos entre motivos de curto e de longo prazo do mesmo indivíduo. Os camponeses de Ruanda e do Haiti, além de bilhões de outras pessoas no mundo atual, são desesperadamente pobres e só pensam no que vão comer no dia seguinte. Pobres pescadores em áreas de recifes coralígenos tropicais usam dinamite e cianeto para matar peixes (e incidentalmente matam também o recife) de modo a alimentar seus filhos hoje, mesmo sabendo que estão destruindo sua futura fonte de alimento.”
Jared Diamond, Colapso

“Se o planejamento financeiro familiar pode ser comparado à rotina de atividades saudáveis e à dieta alimentar da família, associo as dívidas à gordura de nosso corpo. Podemos viver perfeitamente sem elas, mas um pouquinho de gordura não faz mal a ninguém; pelo contrário, é até sinal de que aqueles menos enxutos vivem uma vida mais indulgente e prazerosa.
Entretanto, o excesso de gorduras não indica maior nível de satisfação, mas sim de problemas. A obesidade financeira, se não diagnosticada e controlada a tempo, certamente resulta em sofrimento, seja na convivência com ela, seja na tentativa de eliminá-la.”
Gustavo Cerbasi

Esse será provavelmente o texto mais longo que já publiquei nesse blogue. E será justamente por não se tratar dos assuntos a que me propus quando o iniciei. A Ceia das Cinzas tem como assuntos principais literatura e filosofia, com alguma coisa sobre divulgação científica, artes e história. Essa postagem, entretanto, é sobre economia e finanças pessoais, e será longa justamente porque quero tentar esgotar o que tenho a dizer aqui. Talvez daqui a dez ou vinte anos decida abordar esse assunto novamente, mas não será um tema recorrente. Até porque não sou especialista nem estou perto disso, e há muito material disponível para aqueles que, espero, passem a se interessar pelo assunto após meu apelo.

Sim, esse texto é, mais do que uma crônica, artigo ou resenha, um apelo. Um apelo para nós enquanto povo. Estou convencido que o grande salto que o Brasil precisa é o salto educacional, e um de seus alicerces será a educação financeira. Sem uma mudança total na forma como vemos e convivemos com o dinheiro, não deixaremos nunca de ser um país feliz em chafurdar na lama.

Devo falar de meu exemplo pessoal, não apenas por acreditar na força do exemplo, como para justificar ter passado tantos meses sem publicar por aqui. Desde que comecei a trabalhar, sempre tive salários pelo menos cinquenta por cento superiores à média salarial do mercado, além de outras vantagens econômicas, como, por exemplo, participação nos lucros quando trabalhei na iniciativa privada. Participação esta que eu utilizava de maneira bem racional: ia à Livraria Cultura e gastava inteira com livros, muitos dos quais ainda não li. Alguns anos depois, dívidas contraídas para quitar um acordo de divórcio, uma reforma no imóvel para a chegada de um filho, muitas latas de Nan e pacotes de Pampers depois, tive que me abster de comprar livros, e descobri que não fazer por opção é bem mais prazeroso que por necessidade. Mesmo sempre tendo criticado o consumismo, hoje percebo que eu era consumista e inconsequente. Muitas das dificuldades que passei foram reflexo de péssimas escolhas, de uma cegueira em relação ao futuro. O fato de ter um salário “garantido” me dava a falsa noção de não necessitar de uma reserva de emergência. Não tinha a consciência de que imprevistos são as coisas mais previsíveis na vida.

Percebi que estava tocando o fundo do poço quando passei a pagar setecentos reais de juros no cheque especial. Todos os meses. Alguma coisa tinha que ser feita, e logo. Eu tinha dois anos do meu salário inteiramente destinados para o pagamento de juros bancários. A primeira coisa que fiz foi cancelar a conta que me dava um limite alto no cheque especial. Precisava me adequar aos meus ganhos, parar de recorrer a empréstimos para suprir minhas necessidades. Após muitas noites de sono perdido, em que contava juros e encargos ao invés de contar carneirinhos, decidi fazer o que sempre faço quando minha atenção se volta para algum assunto: fui estudar. Baixei dezenas de livros sobre economia e finanças pessoais, desde os destaques da seção de autoajuda até livros mais técnicos, buscando entender o macro e o micro, a cabeça dos endividados e os anseios do mercado. Foram seis meses basicamente afastado da literatura, focado nesses assuntos. Minha conclusão é que não apenas eu preciso mudar meus hábitos. Milhões de pessoas se encontram em situação ainda pior que a minha, vivendo em patamares de consumo insustentáveis e acreditando que estão dando prejuízos aos bancos quando dão calote ou renegociam pelo “mínimo”.

A primeira coisa que devemos ter em mente é que bancos são empresas de intermediação financeira. Eles pegam dinheiro barato e emprestam caro. Num ambiente financeiramente saudável, são importantes veículos de incentivo à produção. O problema é que não vivemos num ambiente assim, e o principal sintoma é que os bancos lucram muito mais do que as empresas que realmente produzem algo. O Brasil está correndo para copiar um modelo que gerou a crise de 2008 e deve sofrer com o estouro de uma super bolha até o fim desta década. Uma bolha que terá inclusive participação da China, que também entrou nos últimos anos no modelo de crescimento “artificial”, baseado em dinheiro sem lastro e elevado spread bancário para compensar os altos riscos de emprestar a quem não tem capacidade de pagar. Trocando em miúdos, empréstimos de moeda nominal, sem bens reais que justifiquem sua criação. A China vinha crescendo nas últimas décadas de forma sustentável, conforme bem resume Fernando Ulrich, no livro Bitcoin, A Moeda na Era Digital: “Para que haja investimento, é preciso haver poupança. É o investimento que permite o acúmulo de capital, que, por sua vez, possibilita uma maior produtividade da economia. Mas sem poupança prévia não é possível investir. A expansão do crédito pelo sistema bancário sob um regime de reservas fracionárias permite que os bancos concedam empréstimos às empresas e indivíduos como se houvesse poupança disponível, quando, na verdade, isso não ocorreu. Logo, os empresários investem como se houvesse recursos disponíveis para levar a cabo seus empreendimentos, criando um auge econômico que contém as sementes de sua própria ruína. Cedo ou tarde, alguns investimentos não poderão ser concluídos (pois simplesmente não há recursos suficientes para que sejam completados lucrativamente), devendo ser liquidados o quanto antes. Esse é o momento da recessão, quando os excessos cometidos durante o boom precisam ser sanados para que a estrutura produtiva da economia retome o seu rumo de forma sustentável.” O Brasil sofrerá ainda mais com a próxima crise, pois não fez poupança suficiente depois de 2008.

Algo espantoso é que a maioria dos brasileiros acredita que não apenas não é problema, mas é algo natural e mesmo desejável viver devendo aos bancos e financeiras. O ritual de trocar de carro assim que se termina o financiamento, para não ficar sem parcelas fixas para pagar, é incentivado nos círculos de nossa classe média, e as classes mais baixas estão internalizando essa prática para eletrodomésticos. O vício do carnê voltou com força total depois dos carnês do baú terem saído de moda há alguns anos. Até mesmo esse voltou. As grandes varejistas não vendem produtos: vendem crédito. “Fidelizam” os clientes em pequenas parcelas. E estes não conseguem perceber o quadro geral, nem mesmo da dívida contraída. Acrescente-se a isso o fato que parcelas fixas enrijecem o orçamento familiar e torna o ambiente propício para que um único imprevisto dê início a uma bola de neve, por não deixar margem para cobrir o gasto extra sem recorrer a algum empréstimo.

Chega dessa ladainha de dizer que o dinheiro não é importante. Aqueles que não acham que o dinheiro é importante serão dominados pelos que acham. Todo o quadro político e social que vivemos é um exemplo claro e gritante disso. Nossa democracia nunca deixou de ser censitária, desde as primeiras eleições em 1532, quando apenas estavam aptos para votar e concorrer às eleições os chamados “homens bons”, ou seja, indivíduos oriundos de famílias abastadas, com títulos nobiliárquicos ou donos de muitas propriedades. Não à toa nosso Congresso a cada eleição tem um número maior de milionários, mesmo escondendo a maior parte de seu patrimônio, enquanto nossa classe média destila seu ódio contra todo político que não seja um “homem bom”, hoje chamado de “cidadão de bem”. A mentalidade do nosso povo deve mudar, e logo. Talvez devamos almejar e perseguir o primeiro milhão. Se todos formos ricos, todos teremos voz.

O dinheiro é a melhor medida de tempo que dispomos, e não nos apercebemos disso. O dinheiro é uma forma de mensurar o tempo despendido, guardar algum valor pelo tempo que já gastamos, e pode, se usado de forma inteligente, garantir a compra de um tempo extra no futuro, com uma aposentadoria mais cedo, ou com melhor qualidade de vida, ou ainda com uma sobrevida maior pelo aumento da saúde geral. Antes de comprar qualquer coisa, deveríamos pensar no quanto de tempo gasto será necessário para comprar aquilo. A sistemática da ostentação não dá valor ao dinheiro, pelo contrário, é a elevação à máxima potência da prática de jogar dinheiro fora. Nós aprendemos desde cedo que não adianta ter um helicóptero se nosso vizinho também tem. Essa mentalidade da inveja ao contrário, ou esse desejo de ser invejado, é o que torna nosso país um dos mais caros do mundo. Nosso afã de aparentar ter dinheiro é o que nos faz jogar tanto dinheiro fora.

Aqui a prática da lei da oferta e da procura é selvagem. A esperteza é a maior burrice. Num ambiente assim, não é de se estranhar que a inflação só fique sob controle em tempos de recessão. Se quisermos controlar a inflação e manter os juros baixos, a única maneira é darmos valor ao nosso dinheiro. É agir sempre como se o dinheiro estivesse escasso, como se todo dia estivéssemos em crise. Quem sabe em um futuro distante paremos de procurar formas de ludibriar uns aos outros e comecemos a parar de ser ludibriados por bancos, empresas e governo. Imagine que loucura seria receber juros deles ao invés de pagar. Buscar as melhores debêntures, CDBs e Títulos do Tesouro ao invés dos melhores consignados, financiamentos e formas de enganar o fisco.

Estou há um mês sem entrar no cheque especial. E você?

O Vão Combate

“Dizia a mim mesmo, com rebeldia, que a natureza é injusta com os que obedecem suas leis mais claras, posto que cada nascimento põe em perigo duas vidas. Todos fazemos sofrer quando nascemos e sofremos quando morremos.

(…)

A vida me fez o que sou, prisioneiro (como queira) de instintos que não escolhi, mas aos quais me resigno, e essa aceitação, espero, na falta da felicidade, me trará a serenidade. Minha amiga, sempre te acreditei capaz de compreender, o que é mais difícil que perdoar.”

Marguerite Yourcenar

Em “Alexis ou o Tratado do Vão Combate”, Marguerite Yourcenar lança mão do romance (uni)epistolar para refletir de forma profunda e certeira acerca da vida. A longa carta de separação que Alexis escreve para sua esposa Mônica poderia facilmente cair na aridez do discurso e tornar-se entediante. A genialidade de Yourcenar não permite que tal ocorra, e o leitor encontrará em cada parágrafo uma pérola de estilo.

Alexis tenta traçar um esboço de sua vida, em especial antes de conhecer a esposa, e nessa rememoração busca a compreensão dela e também a reconciliação consigo mesmo. Embora o tema central seja um homem em conflito com a própria sexualidade, vemos descortinar-se um drama maior: o de homens e mulheres que vivem existências infelizes, amarrados a deveres sociais que os levam ao fundo de um oceano de dissabores, para o qual muitas vezes levam consigo outras pessoas, numa cadeia intrincada de obrigações que sufoca a todos. A metáfora perfeita aqui é a incompatibilidade entre o casamento do personagem e a música. Em certo momento, Alexis pede desculpas não por partir, mas por ter ficado tempo demais.

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Numa teia de acontecimentos bem montada, Yourcenar prende a atenção e conclui de maneira magistral seu pensamento: Não há combate mais vão que lutar contra a própria natureza.

 

Vestígios do Antropoceno

“O que a história nos revela, com seus altos e baixos, é que a vida é muito resiliente, mas não dura para sempre. Houve longuíssimos períodos sem quaisquer eventos e muito, muito de vez em quando, “revoluções na face da Terra”.
Até onde podemos identificar as causas dessas revoluções, dá para ver que são bastante variadas: glaciação, no caso da extinção no fim do Ordoviciano; aquecimento global e mudanças na química dos oceanos no fim do Permiano; o impacto de um asteroide nos derradeiros segundos do Cretáceo. A extinção em curso tem sua própria causa original — não é um asteroide ou uma erupção vulcânica maciça, mas “uma espécie daninha”. Como me disse Walter Alvarez, “estamos observando, neste mesmo instante, que uma extinção em massa pode ser causada pelos seres hufmanos”.”

Elizabeth Kolbert, A Sexta Extinção – Uma História não Natural

Nesta obra de divulgação científica vencedora do Pulitzer de 2015, Kolbert relata as várias viagens que realizou nos últimos anos e as opiniões de grandes especialistas acerca do período geológico que estamos vivendo, o antropoceno, e suas implicações para o meio ambiente.

Traçando paralelos com outros períodos geológicos igualmente dramáticos para a biodiversidade, traz relatos das prováveis causas das cinco grandes extinções que ocorreram nos bilhões de anos em que a vida tem insistido em subsistir em nosso planeta. Passando por cavernas de morcegos dizimados por fungos, corais ameaçados pela acidificação dos oceanos, lagoas agora sem os anfíbios que lhes davam nome, montanhas já quase sem as neves que alentavam rios, vemos em nosso horizonte uma tenebrosa paisagem.

O livro está muito bem amarrado e documentado, e é um alerta contundente para aqueles que acreditam ser grande a diferença entre ter um livro nas mãos ou um machado:

“Embora seja ótimo imaginar que houve um tempo em que o homem vivia em harmonia com a natureza, não existem evidências de que isso tenha de fato acontecido.”

O ser humano destruiu e tem destru inúmeras espécies desde que pôs fim à megafauna, inclusive extinguindo outras espécies humanas. A autora pergunta “até onde iremos?” quando cita uma frase do ecologista de Stanford Paul Ehrlich: AO PRESSIONAR OUTRAS ESPÉCIES PARA A EXTINÇÃO, A HUMANIDADE ESTÁ SERRANDO O GALHO SOBRE O QUAL ESTÁ SENTADA.

De aceitar o que se foi

500_9789722038386_chico_buarque_leite derramado.jpg“Na velhice a gente dá para repetir casos antigos, porém jamais com a mesma precisão, porque cada lembrança já é um arremedo de lembrança anterior.

(…)
E debaixo do banho observei meu corpo fremente, só que neste momento minha cabeça fraquejou, não sei mais de que banho estou falando. São tantas as minhas lembranças, e lembranças de lembranças de lembranças, que já não sei em qual camada da memória eu estava agora.

(…)
Mas se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida.
Chico Buarque, Leite Derramado

Em Leite Derramado encontrei pela primeira vez em muito tempo uma narrativa confusa que me encantou. A obra de Chico Buarque não usa a confusão como marca de qualidade textual: é parte da trama, ou a própria trama. A confusão é o próprio caráter do personagem que faz um monólogo, contando fragmentos de sua história pra quem quer que esteja próximo o bastante para ouvir (algo comum aos velhos).

O centenário Eulálio D’Assumpção poderia lembrar o personagem principal de “O Ladrão do Tempo”, de John Boyne, com sua vivência permeada pelos grandes acontecimentos dos tempos vividos. Mas as duas obras não poderiam ser mais diferentes: Eulálio está internado num estabelecimento de saúde, doente, fragilizado, sem privacidade, e se refugia num passado de glória, nos Eulálios D’Assumpção que remontam até a sexta, sétima, oitava, talvez décima geração, sempre figuras ilustres, convivendo com o Marquês de Pombal, com o presidente Deodoro, o Imperador Pedro II… Sempre enlaçados ao poder, seja feudalista, escravagista, abolicionista, capitalista e quiçá comunista, se tal regime viesse a vigorar no Brasil.

O passado, contudo, esconde mais dores que prazeres, e logo percebemos que o saudosismo não consegue esconder aquilo que o corpo mostra: a decadência. A decadência que parece uma marca do país, e que acompanha os D’Assumpção. O narrador em alguns momentos, tentando destacar o “p” mudo, vai aos poucos demonstrando sua dificuldade em adaptar-se aos acontecimentos, embora tente manter as aparências. Entre as diversas camadas de memória, estão as mentiras criadas para justificar o desaparecimento de Matilde, a mãe de sua filha, o único amor de sua vida. Ao lado da trama dos Eulálios e do país, floresce a do abandono de Matilde, de como se conheceram, de como se amaram. Camadas e mais camadas de fatos, alusões e mentiras vão se justapondo para que o leitor tente remontar a história.

Leite Derramado é uma bela obra sobre a memória e o esquecimento, e também sobre a senilidade de uma classe que se recusa a aceitar que os tempos mudaram e se aferra ao passado, mesmo que tenha que se mudar para um puxadinho de uma igreja evangélica para se manter ao lado dos vencedores. Ou dos menos derrotados.

Hesse em pequenas doses

Cuentos I, o primeiro volume dos contos de Hermann Hesse traduzidos para o espanhol, é uma coletânea capaz de enlouquecer aqueles que buscam “unidade” num livro de contos. Este primeiro tomo é um retrato da inventividade do autor, prêmio Nobel quando a academia premiava escritores de ficção. O conto “Karl Eugen Eiselein” lembra o “Aurora sem Dia”, de Machado de Assis, embora um tanto menos irônico. Acompanhamos um típico adolescente com um futuro brilhante que muda seu pensamento ao vento das estações depois de ir morar fora, e os conflitos que sua “alma de artista” suscita em relação aos seus pais. “El Reformador” tem semelhanças com o “Karl…”, embora aqui haja uma “alma religiosa” e o conflito seja com a pragmática namorada. Em ambos percebemos que o espírito hippie não é tão novo assim.

“De la infancia” é uma pérola de sensibilidade, que reflete a experiência do narrador com a doença de um amigo e suas reflexões acerca do primeiro contato com a perda. “El alumno de latín” traz um personagem que deixa de lado as aspirações artísticas e individuais em busca do amor físico. Tanto ele como “La marmolería” e “Mes de Julio”, parecem releituras do Werther de Goethe, tratando do louco e desesperado amor dos jovens, tão perigoso e facilmente esquecível. Os três formam um belo e trágico conjunto de possibilidades.

“Bajo el viejo sol”, “El lobo” e “Del taller” são pré-kafkianos, cada um à sua maneira, especialmente o último, que abre um recorte poderoso sobre o absurdo cotidiano.

“El enano” remete às novelas de Bocaccio ou de Cervantes, com seu narrador que conta numa taberna a história de uma bela princesa que vive feliz com seu papagaio e seu culto anão num palácio em Veneza, até que chega o amor na figura de um nobre voltando do oriente. Esse conto traz um rico universo, mostrando que a Itália foi o primeiro oriente dos alemães, e guarda surpresas que farão desvanecer a ideia de idílio que poderia a princípio evocar. É o meu conto preferido, embora seja difícil apontar um sócuentos-hesse.

A César…

Procuro dar a este blogue um caráter puramente literário, ou ao menos bibliófilo, mas às vezes tenho que fugir um pouco disso. Nessa postagem vou comentar uma imagem que tem sido muito compartilhada, comparando as estrelas da seleção masculina e feminina de futebol.

Essa comparação nãmarta.jpgo tem a mínima lógica, e é tão absurda em tão diversos níveis, que não posso me furtar a comentá-la. Não assisto futebol, nem masculino nem feminino, e não considero Neymar melhor que a Marta, porém temos que entender como o mundo funciona. O primeiro absurdo, do ponto de vista econômico: Se compara dois funcionários de empresas diferentes e se estabelece um parâmetro de produtividade em relação a uma terceira empresa. Essa imagem ainda dá a entender que os salários são pagos pela seleção. Quem paga são os clubes, e pra eles se o jogador nem jogasse pela seleção seria melhor. Dão a mínima pra gols marcados pela seleção. Querem saber de quem vende ingresso e camisa e ganha títulos pelo clube (e a única importância dos títulos é aumentar o número de torcedores e, consequentemente, a venda de camisas e ingressos). David Beckham nunca prestou, mas foi mais bem pago por um bom tempo. Outro absurdo é considerar que algum(a) atleta do futebol é pago por gol marcado. Se assim fosse, coitados dos goleiros e zagueiros. Tem ainda a divisão do salário anual pelos gols marcados em toda a carreira, que é de um nonsense aberrante. Se o clube de Marta pagasse o salário de Neymar pra ela, quebraria, e essa é uma conta muito fácil de fazer.

Quem usa a imagem faz uma comparação infeliz: compara o mundo do entretenimento (sim, a remuneração esportiva se dá pelo entretenimento que proporciona: quem vende mais ganha mais) com o mundo corporativo. Reclamar dessa diferença é como reclamar que Gisele Bündchen ganhe mais que modelos masculinos, ou que Ivete Sangalo ganhe mais que Alceu Valença: algo sem nexo. As desigualdades de gênero devem ser combatidas quando não se apoiam em regras da própria indústria, sem as quais a indústria ruiria. Uma CEO de uma grande empresa traz tantos benefícios quanto um CEO, assim como seus faxineiros de ambos os sexos, mas uma cantora, um atleta, uma bailarina e qualquer outra carreira do entretenimento não podem ser comparados ente si, pois cada um gera um valor individual.

Essa imagem é compartilhada em sua imensa maioria por pessoas que não assistem esportes, que não compram ingresso, nem camisa oficial do clube, não compram pay-per-view, que não comprariam produtos se fossem anunciados por Marta… Ou seja, pessoas que podem achar alguma lógica nessa comparação, e compartilhar essa imagem um bilhão de vezes, contudo tenho que fazer-lhes um lembrete: Se todas as pessoas da Terra pararem de acreditar na gravidade, ninguém sairá flutuando por isso. O mundo vai continuar os mesmo, e a lógica que o move também: o clube que paga o salário de Marta continuará pagando o mesmo salário, pois é uma empresa e tem que se manter.

Se as pessoas quiserem que Marta ganhe igual a Neymar, ou mais que ele, têm que assistir aos jogos dela pelo clube, comprar ingressos e camisas. Terão que contribuir com o fim dessa desigualdade.