Hesse em pequenas doses

Cuentos I, o primeiro volume dos contos de Hermann Hesse traduzidos para o espanhol, é uma coletânea capaz de enlouquecer aqueles que buscam “unidade” num livro de contos. Este primeiro tomo é um retrato da inventividade do autor, prêmio Nobel quando a academia premiava escritores de ficção. O conto “Karl Eugen Eiselein” lembra o “Aurora sem Dia”, de Machado de Assis, embora um tanto menos irônico. Acompanhamos um típico adolescente com um futuro brilhante que muda seu pensamento ao vento das estações depois de ir morar fora, e os conflitos que sua “alma de artista” suscita em relação aos seus pais. “El Reformador” tem semelhanças com o “Karl…”, embora aqui haja uma “alma religiosa” e o conflito seja com a pragmática namorada. Em ambos percebemos que o espírito hippie não é tão novo assim.

“De la infancia” é uma pérola de sensibilidade, que reflete a experiência do narrador com a doença de um amigo e suas reflexões acerca do primeiro contato com a perda. “El alumno de latín” traz um personagem que deixa de lado as aspirações artísticas e individuais em busca do amor físico. Tanto ele como “La marmolería” e “Mes de Julio”, parecem releituras do Werther de Goethe, tratando do louco e desesperado amor dos jovens, tão perigoso e facilmente esquecível. Os três formam um belo e trágico conjunto de possibilidades.

“Bajo el viejo sol”, “El lobo” e “Del taller” são pré-kafkianos, cada um à sua maneira, especialmente o último, que abre um recorte poderoso sobre o absurdo cotidiano.

“El enano” remete às novelas de Bocaccio ou de Cervantes, com seu narrador que conta numa taberna a história de uma bela princesa que vive feliz com seu papagaio e seu culto anão num palácio em Veneza, até que chega o amor na figura de um nobre voltando do oriente. Esse conto traz um rico universo, mostrando que a Itália foi o primeiro oriente dos alemães, e guarda surpresas que farão desvanecer a ideia de idílio que poderia a princípio evocar. É o meu conto preferido, embora seja difícil apontar um sócuentos-hesse.

História sem fim

indice

O artigo indefinido no título da história da Leitura de Alberto Manguel indica os caminhos que seu autor pretende percorrer: veredas incertas, errantes como os olhos do leitor vagando por estantes que, embora familiares, sempre guardam surpresas, mesmo que sejam as da redescoberta.

Sempre que quero ler sobre livros, os argentinos se sobressaem: leio agora El Último Lector, de Ricardo Piglia e La Vuelta Completa, de Saer, como sempre volto a Borges, Cortázar e Manguel, e sinto que não estou só.
Manguel lança mão de sua paixão pelos livros para criar tópicos deliciosos, como as histórias da Leitura do futuro e do roubo de livros, além de capítulos tristes como o dos livros proibidos.
Como todo bom bibliófilo, em muitas passagens deixa evidente que, quando se trata de livros, muitas vezes a informação está em segundo plano.
O leitor sai dessa história com uma paixão renovada e uma lista ainda maior de futuras leituras, numa busca pela construção da própria história da Leitura.

Eram um Homem e um Menino

“Tentou se lembrar do sonho mas não conseguiu. Tudo o que restava era a sensação. Pensou que talvez eles tivessem vindo avisá-lo. De quê? De que ele não podia acender no coração da criança o que eram cinzas no seu próprio.”

“O velho sacudiu a cabeça. Já deixei tudo isso para trás. Faz anos. Onde os homens não podem viver deuses também não se sentem bem. Você vai ver. É melhor ficar sozinho. Então espero que não seja verdade o que você disse pois estar na estrada com o último deus seria uma coisa terrível então espero que não seja verdade. As coisas vão melhorar quando todos tiverem morrido.”
Cormac MacCarthy, A Estrada

Literatura é feita entre dois extremos que muitas vezes se complementam: há os livros que tratam de personagens sentados à margem de um lago, refletindo sobre entrar nele, e livros em que os personagens são arrastados por um rio que os leva em direção a uma queda d’água. Embora os autores que fazem o primeiro modo funcionar sejam gênios, e possa listar entre grandes obras do tipo as Memórias Póstumas de Brás Cubas e Oblomov, confesso que o segundo modo me agrada mais, e nesse Cormac MacCarthy é um verdadeiro titã.
Seus livros são tsunamis, atingindo o leitor na praia e arrastando-o para o meio dos escolhos. Não há incolumidade depois de entrar nos mundos que o escritor estadunidense cria.
Cormac mostra que a grande literatura se faz independentemente do gênero escolhido, criando obras primas com um profundo trabalho da linguagem, adaptando-a desde westerns até distopias pós-apocalípticas, como A Estrada (The Road), vencedor do Pulitzer em 2007. O curto romance nos leva a acompanhar de perto a épica jornada do homem e do menino, pai e filho, por um mundo morto. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu, ou quando, e são perguntas irrelevantes quando a própria linguagem do mundo que se foi começa a desvanecer, quando apenas algumas vezes não se tem inveja dos mortos. Quando o próprio planeta parece ter se entregue à morte com alívio.

A sensação de peregrinar junto com eles é muito forte, de sentir o frio, a chuva, o perigo, a fome e a incerteza. A ausência opressiva da mulher/mãe, em sua dura decisão. Levamos golpes a cada frase, e metáforas aparentemente deslocadas (“vasculhavam a casa como compradores céticos” ou “caminhavam pela estrada como hamsters em suas rodinhas”) criam potentes contrastes entre o que é e o que foi, além de brincar com a “segurança” que sentimos em nosso mundo “civilizado”. A épica de McCarthy não é uma épica de exaltação da civilização, mas de questionamento da mesma, embora esse questionamento leve a uma admiração pelo ser humano.

Os personagens de MaCarthy sempre estão procurando atravessar uma fronteira, seguindo em frente apesar de todas as forças contrárias, embora nunca saibamos ao certo (e eles tenham sérias dúvidas) se serão recompensados se chegarem ao outro lado, ou se não seria melhor apenas sentarDownload-A-Estrada-Cormac-McCarthy-em-ePUB-mobi-e-PDF à margem e esparar que o mundo siga seu curso.

Um questionamento que todos nos fazemos, mesmo inconscientemente, a cada dia.

A César…

Procuro dar a este blogue um caráter puramente literário, ou ao menos bibliófilo, mas às vezes tenho que fugir um pouco disso. Nessa postagem vou comentar uma imagem que tem sido muito compartilhada, comparando as estrelas da seleção masculina e feminina de futebol.

Essa comparação nãmarta.jpgo tem a mínima lógica, e é tão absurda em tão diversos níveis, que não posso me furtar a comentá-la. Não assisto futebol, nem masculino nem feminino, e não considero Neymar melhor que a Marta, porém temos que entender como o mundo funciona. O primeiro absurdo, do ponto de vista econômico: Se compara dois funcionários de empresas diferentes e se estabelece um parâmetro de produtividade em relação a uma terceira empresa. Essa imagem ainda dá a entender que os salários são pagos pela seleção. Quem paga são os clubes, e pra eles se o jogador nem jogasse pela seleção seria melhor. Dão a mínima pra gols marcados pela seleção. Querem saber de quem vende ingresso e camisa e ganha títulos pelo clube (e a única importância dos títulos é aumentar o número de torcedores e, consequentemente, a venda de camisas e ingressos). David Beckham nunca prestou, mas foi mais bem pago por um bom tempo. Outro absurdo é considerar que algum(a) atleta do futebol é pago por gol marcado. Se assim fosse, coitados dos goleiros e zagueiros. Tem ainda a divisão do salário anual pelos gols marcados em toda a carreira, que é de um nonsense aberrante. Se o clube de Marta pagasse o salário de Neymar pra ela, quebraria, e essa é uma conta muito fácil de fazer.

Quem usa a imagem faz uma comparação infeliz: compara o mundo do entretenimento (sim, a remuneração esportiva se dá pelo entretenimento que proporciona: quem vende mais ganha mais) com o mundo corporativo. Reclamar dessa diferença é como reclamar que Gisele Bündchen ganhe mais que modelos masculinos, ou que Ivete Sangalo ganhe mais que Alceu Valença: algo sem nexo. As desigualdades de gênero devem ser combatidas quando não se apoiam em regras da própria indústria, sem as quais a indústria ruiria. Uma CEO de uma grande empresa traz tantos benefícios quanto um CEO, assim como seus faxineiros de ambos os sexos, mas uma cantora, um atleta, uma bailarina e qualquer outra carreira do entretenimento não podem ser comparados ente si, pois cada um gera um valor individual.

Essa imagem é compartilhada em sua imensa maioria por pessoas que não assistem esportes, que não compram ingresso, nem camisa oficial do clube, não compram pay-per-view, que não comprariam produtos se fossem anunciados por Marta… Ou seja, pessoas que podem achar alguma lógica nessa comparação, e compartilhar essa imagem um bilhão de vezes, contudo tenho que fazer-lhes um lembrete: Se todas as pessoas da Terra pararem de acreditar na gravidade, ninguém sairá flutuando por isso. O mundo vai continuar os mesmo, e a lógica que o move também: o clube que paga o salário de Marta continuará pagando o mesmo salário, pois é uma empresa e tem que se manter.

Se as pessoas quiserem que Marta ganhe igual a Neymar, ou mais que ele, têm que assistir aos jogos dela pelo clube, comprar ingressos e camisas. Terão que contribuir com o fim dessa desigualdade.

Futuro do Pretérito

Futuro do Pretérito

“Tenéis razón; se trata de una mezcla de todas las cosas en las que hemos pensado despiertos, una quimera monstruosa, una conjunción de cuestiones confusas que nos presenta desordenadas la fantasía, que en el sueño no cuenta con la guía de la razón y de las que creemos conocer el verdadero sentido a base de retorcerlas, extrayendo de los sueños, como de los oráculos, una ciencia del porvenir. Pero voto a tal que no encuentro ninguna otra relación entre ellas salvo el hecho de que los sueños, como los oráculos, no pueden entenderse.”

Cyrano de Bergerac, História Cômica dos Estados e Impérios do Sol

O libertino, boêmio, pensador Cyrano de Bergerac é um dos personagens icônicos do ocidente, popularizado pela peça de Edmond Rostand, que associou o longo nariz, o bigode fino e a pena no chapéu a cenas cômicas de balcão.

Em Os Estados e Imperios da Lua encontramos um precursor da ficção científica, com a viagem do autor até nosso satélite. Cyrano lança mão do instrumento de divulgação científica universal desde Platão: o diálogo, muito utilizado pelos pensadores até então, desde Maquiavel até Galileu, e só abandonado depois de Newton para esse fim. O principal interlocutor do nosso viajante é o demônio de Sócrates. Embora seja um livro de aventuras (como toda boa ficção científica) cheio de prisões, ameaças de morte e julgamentos, é quando eles conversam ou nas descrições do utópico mundo da lua que encontramos o verdadeiro Cyrano, o pensador libertino, divulgador do atomismo, do ateísmo, da ciência experimental.

Habilmente o autor se defende de tais idéias, afirmando perceber a maldade do demônio de Sócrates e fugir do mesmo como se fora o próprio anticristo.

Enquanto nessa primeira obra encontramos o alquimista/pensador/cientista, inclusive antevendo em 1640 a existência de audiolivros, na história cômica dos estados e Impérios do Sol ele parece juntar sem muito critério fantasias, fábulas e anedotas, apesar de iniciar com uma máquina voadora, vemos um filósofo ácido, uma ironia absurda. Infelizmente, é seu último trabalho e não está finalizado. Ao ser julgado pelos pássaros, faz um julgamento do ser humano radical até em relação a muitos ambientalistas atuais.

Falando sobre a morte, faz uma defesa do atomismo que preconiza o eterno retorno nietzscheano:

“Y además reconóceme que el que no ha nacido no es desgraciado. Por tanto, vas a ser como quien no ha nacido. Un instante después de la vida serás lo que eras un instante antes de nacer. Y una vez transcurrido aquel instante llevarás muerto tanto tiempo como quien murió hace mil siglos. En todo caso, supuesto que la vida sea un bien, la misma casualidad que hace que seas ahora en la infinidad del tiempo, ¿no podrá hacer que vuelvas a ser otra vez? La materia que a fuerza de mezclarse alcanza por fin esa cantidad, esa disposición y ese orden necesarios para la construcción de tu ser ¿acaso no puede volver a mezclarse a fin de llegar a la disposición necesaria para hacer que sientas ser de nuevo? Sí, me dirás, pero no recordaré haber sido. ¡Ah, querido hermano! ¿Qué te importa con tal de que sientas que eres? Y además, ¿no podrá ser que para consolarte de la pérdida de la vida te imagines las mismas razones que yo te expongo ahora?”

Ao interpretar o sistema solar como um sistema fechado, embora cometa um equívoco, cria uma bela imagem da radiação solar:

“Los polos son las bocas del cielo a través de las cuales éste recupera la luz, el calor y las influencias que ha diseminado por la tierra, porque si todos los tesoros del Sol no volvieran a su fuente, haría mucho tiempo que se hubiera extinguido (ya que todo su fulgor no es otra cosa que un polvo de átomos inflamados que se desprenden de su globo).”

Cyrano faz um apanhado de várias teorias filosóficas, incluindo intuições sobre o darwinismo. Tem, é óbvio, muitos erros, como as distâncias entre os astros, como imagina a composição dos mesmos, e a existência do éter (elemento que até Eintein buscou em algum momento), além de engraçadas hipóteses acerca do corpo humano. Contudo, perceber a imaginação deste sábio do século dezessete é um alento, e verdadeiramente prazeroso ler sua prosa.

A comédia do tempo

Em A Lentidão Milan Kundera retoma seu estilo musical de construção de romances: escolhe alguns temas e lança personagens e acontecimentos como se fossem notas para desenvolver os temas propostos. Aqui os temas são hedonismo, lentidão contra rapidez e o agir dos “bailarinos”, um tema discutido entre os personagens Vincent e Pontevin. Bailarinos seriam pessoas que agem para a plateia, em busca de uma aprovação, algo cada vez mais frequente. Escrito no início da década de noventa, Kundera parece antever a era das redes sociais.

O romance começa com o próprio autor viajando com sua esposa para um castelo que se tornou hotel. No caminho, percebem motociclistas em alta velocidade e o diálogo que daí surge cria o motor da narrativa. O homem corre descuidado sobre uma moto porque o motor o faz esquecer de si mesmo, do próprio peso, enquanto correr a pé o faria lembrar ainda mais do próprio corpo. Daí surge a tese acerca da lentidão: existiria uma equação que torna proporcional a velocidade e o esquecimento: quanto mais rápido, maior o esquecimento. Kundera então contrapõe dois tempos, o libertino século XVIII e o confuso século XX, através da relação entre personagens de um romance daquele século, atribuído a Vivant Denon, com os seus próprios personagens, que alcançam o auge da tragicomédia durante um congresso de entomologia.

Na Europa de fins de século XX (e o mundo ocidental que veio daí), o hedonismo surge como uma farsa: é mais importante parecer libertino que de fato gozar com a libertinagem. Em certo momento do romance, Vera, esposa do autor, passa a ter pesadelos com os personagens que ele está imaginando, e afirma ser perigoso criar um romance que seja pura brincadeira sem sentido. A Lentidão, contudo, tem um sentido profundo: parece uma paródia da famosa frase de Marx, que poderia ser assim descrita quando um personagem do romance do século XVIII encontra Vincent e ambos tentam convencer um ao outro de que acabam de ter uma noite fantástica: “A história se repete, primeiro como farsa, depois como comédia.”

 

Testamento Traído

Emkafka Os Testamentos Traídos, Milan Kundera dá ênfase à traição de Max Brod, que ignorou o testamento de seu amigo, Kafka, ao se negar a queimar seus escritos, como seria seu desejo. Há o questionamento se de fato Kafka tinha esse desejo, mas essas questões estão bem delineadas lá e não é meu propósito questionar isso, mas destacar que de fato um escritor deve ter controle sobre que parte dos seus escritos devem participar de sua obra.
O volume Cuentos Completos, embora tente trazer os textos de Kafka o mais distantes possível das alterações de Brod, deixa isso bem claro: muitos contos sequer merecem essa classificação, não passando de notas ou fábulas, parábolas, enfim, textos menores do gênio de A Metarmofose. Percebe-se que Kafka era mais romancista que contista: seus melhores contos são, com raras exceções, os mais longos, aqueles que poderiam ser um capítulo de um longo romance psicológico.
Entre os curtos, as releituras de Sancho Pança e do embate entre Odisseu e as sereias se destacam. É um volume interessante para o pesquisador ou o escritor que procura identificar o desenvolvimento da escrita kafkiana, mas do qual deve passar longe o leitor comum, para evitar perder o gosto pela leitura do gênio de Praga.