De aceitar o que se foi

500_9789722038386_chico_buarque_leite derramado.jpg“Na velhice a gente dá para repetir casos antigos, porém jamais com a mesma precisão, porque cada lembrança já é um arremedo de lembrança anterior.

(…)
E debaixo do banho observei meu corpo fremente, só que neste momento minha cabeça fraquejou, não sei mais de que banho estou falando. São tantas as minhas lembranças, e lembranças de lembranças de lembranças, que já não sei em qual camada da memória eu estava agora.

(…)
Mas se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida.
Chico Buarque, Leite Derramado

Em Leite Derramado encontrei pela primeira vez em muito tempo uma narrativa confusa que me encantou. A obra de Chico Buarque não usa a confusão como marca de qualidade textual: é parte da trama, ou a própria trama. A confusão é o próprio caráter do personagem que faz um monólogo, contando fragmentos de sua história pra quem quer que esteja próximo o bastante para ouvir (algo comum aos velhos).

O centenário Eulálio D’Assumpção poderia lembrar o personagem principal de “O Ladrão do Tempo”, de John Boyne, com sua vivência permeada pelos grandes acontecimentos dos tempos vividos. Mas as duas obras não poderiam ser mais diferentes: Eulálio está internado num estabelecimento de saúde, doente, fragilizado, sem privacidade, e se refugia num passado de glória, nos Eulálios D’Assumpção que remontam até a sexta, sétima, oitava, talvez décima geração, sempre figuras ilustres, convivendo com o Marquês de Pombal, com o presidente Deodoro, o Imperador Pedro II… Sempre enlaçados ao poder, seja feudalista, escravagista, abolicionista, capitalista e quiçá comunista, se tal regime viesse a vigorar no Brasil.

O passado, contudo, esconde mais dores que prazeres, e logo percebemos que o saudosismo não consegue esconder aquilo que o corpo mostra: a decadência. A decadência que parece uma marca do país, e que acompanha os D’Assumpção. O narrador em alguns momentos, tentando destacar o “p” mudo, vai aos poucos demonstrando sua dificuldade em adaptar-se aos acontecimentos, embora tente manter as aparências. Entre as diversas camadas de memória, estão as mentiras criadas para justificar o desaparecimento de Matilde, a mãe de sua filha, o único amor de sua vida. Ao lado da trama dos Eulálios e do país, floresce a do abandono de Matilde, de como se conheceram, de como se amaram. Camadas e mais camadas de fatos, alusões e mentiras vão se justapondo para que o leitor tente remontar a história.

Leite Derramado é uma bela obra sobre a memória e o esquecimento, e também sobre a senilidade de uma classe que se recusa a aceitar que os tempos mudaram e se aferra ao passado, mesmo que tenha que se mudar para um puxadinho de uma igreja evangélica para se manter ao lado dos vencedores. Ou dos menos derrotados.

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Ponto Cego

“That was when it started getting dark … but no, that’s not exactly right. My thought at the time was not that it was getting dark but that the lights in the market had gone out. I looked up at the fluorescents in a quick reflex action, and I wasn’t alone. And at first, until I remembered the power failure, it seemed that was it, that was what had changed the quality of the light, Then I remembered they had been out all the time we had been in the market and things hadn’t seemed dark before. Then I knew, even before the people at the window started to yell and point.
The mist was coming.” (Foi quando começou a ficar escuro… não, não exatamente escuro. Meu pensamento na hora não foi foi de que estava ficando escuro, mas que as luzes do mercado tinham sido desligadas. Olhei pra cima, pras lâmpadas fluorescentes por reflexo, e não fui só eu. primeiramente, até lembrar da falta de energia, pareceu que fosse isso a causa da mudança na luz. Então eu me lembrei de que elas estavam desligadas o tempo inteiro no mercado e ainda assim não parecia tão escuro antes. Então eu soube, antes mesmo das pessoas nas janelas começarem a gritar e apontar.

O nevoeiro estava chegando.”

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O Nevoeiro (The Mist) é uma novela de Stephen King inicialmente publicada em coletâneas nos anos oitenta e que só em 2007, quando do lançamento do filme homônimo, ganhou edição própria. King afirma ter vivido algo parecido a situação inicial do livro, quando David Drayton, após uma tempestade de grandes proporções, sai com seu filho de cinco anos, Billy, para comprar mantimentos num supermercado, deixando a esposa em casa. O livro está repleto de pensamentos e sentimentos que uma situação assim podem suscitar, iniciando com os cabos de eletricidade partidos na propriedade e indo num crescendo de horror claustrofóbico com a chegada do nevoeiro e os horrores que ele esconde (“One of the tentacles brushed delicately past my cheek and then wavered in the air, as if debating. I thought of Billy then. Billy was lying asleep in the market by Mr. McVey’s long white meat cooler. I had come in here to find something to cover him up with. If one of those things got hold of me, there would be no one to watch out for him-except maybe Norton” – Um dos tentáculos roçou delicadamente minha bochecha e então ondulou no ar, como se estive deliberando. Pensei em Billy então. Billy dormia no supermercado, perto do longo e pálido frigorífico de seu McVey. Eu tinha vindo ali para procurar algo com que enrolá-lo. Se uma dessas coisas me pegasse, não restaria ninguém para cuidar dele – exceto talvez Norton).

O livro é narrado em primeira pessoa por Drayton, que ganha a vida como pintor comercial, e King consegue dar credibilidade à narrativa mostrando a história desse ponto de vista. O narrador, muito ligado ao lado visual, está o tempo inteiro criando metáforas visuais, fazendo comparações das criaturas que surgem com os monstros infernais pintados pelos mestres do renascimento. Dá pra sentir o pânico que alguém tão ligado à luz e às cores sente ao não poder enxergar literalmente a mais que um palmo do seu nariz, numa situação limite bem próxima ao “Ensaio Sobre a Cegueira”, de Saramago, com sua cegueira branca revelando os horrores que se escondem na alma humana. A Senhora Carmody é uma excelente personagem, desenvolvendo-se junto com a trama de maneira precisa e mostrando como fanáticos, dignos apenas de riso em situações normais, podem com sua lógica contorcida arrebatar rebanhos de pessoas desesperadas pela adversidade: (I took her arm and recapped my discussion with Dan Miller. The riddle of the cars and the fact that no one from the pharmacy had joined us didn’t move her much. The business about Mrs. Carmody did. “He could be right,” she said. “Do you really believe that?” “I don’t know. There’s a poisonous feel to that woman. And if people are frightened badly enough for long enough, they’ll turn to anyone that promises a solution.” – Eu pegue-a pelo braço e recapitulei minha discussão com Dan Miller. O enigma dos carros e o fato de que ninguém da farmácia tinha vindo atrás da gente não a fizeram mudar de ideia. O caso de dona Carmody conseguiu. “Ele pode estar certo”, ela disse. “Você realmente acredita nisso?” “Não sei. Tenho um sentimento muito ruim sobre ela. Como se fosse venenosa. E se as pessoas estão bastante assustadas, por tempo bastante, elas se voltarão para qualquer um que prometa uma solução”)

O autor vai direto ao ponto, adotando um estilo bem diverso dos livros dele que li até o momento, em que metade da narrativa transcorre na mais absoluta rotina, com um ou outro episódio “sobrenatural”, até as coisas começarem a acontecer. A narrativa envolve o leitor como o nevoeiro, e fica difícil de sair. Mesmo conhecendo o filme, que é uma adaptação bem fiel ao original, com exceção do final, a cada página o suspense me arrebatou com mais força, tateando na palidez da neblina com seus personagens. Aliás, prefiro o final do filme, assim como o próprio autor já afirmou preferir. Em determinado momento o narrador fala sobre as críticas de seu pai aos finais de Hitchcock, apenas para terminar da mesma forma ambígua.

The Mist, no fim das contas, é a história de um pai tentando proteger seu filho de um mundo grande demais, absurdo demais, buscando fazer o melhor e descobrindo a cada passo que dá em direção ao futuro que o melhor que se pode fazer não é bom o bastante, e que em muitas ocasiões a tentativa de proteger pode ser pior que os perigos que espreitam lá fora.

A seguir deixo o link para a página da wikipedia sobre a história, para quem se interessar pelo histórico de sua publicação: https://en.wikipedia.org/wiki/The_Mist

Hesse em pequenas doses

Cuentos I, o primeiro volume dos contos de Hermann Hesse traduzidos para o espanhol, é uma coletânea capaz de enlouquecer aqueles que buscam “unidade” num livro de contos. Este primeiro tomo é um retrato da inventividade do autor, prêmio Nobel quando a academia premiava escritores de ficção. O conto “Karl Eugen Eiselein” lembra o “Aurora sem Dia”, de Machado de Assis, embora um tanto menos irônico. Acompanhamos um típico adolescente com um futuro brilhante que muda seu pensamento ao vento das estações depois de ir morar fora, e os conflitos que sua “alma de artista” suscita em relação aos seus pais. “El Reformador” tem semelhanças com o “Karl…”, embora aqui haja uma “alma religiosa” e o conflito seja com a pragmática namorada. Em ambos percebemos que o espírito hippie não é tão novo assim.

“De la infancia” é uma pérola de sensibilidade, que reflete a experiência do narrador com a doença de um amigo e suas reflexões acerca do primeiro contato com a perda. “El alumno de latín” traz um personagem que deixa de lado as aspirações artísticas e individuais em busca do amor físico. Tanto ele como “La marmolería” e “Mes de Julio”, parecem releituras do Werther de Goethe, tratando do louco e desesperado amor dos jovens, tão perigoso e facilmente esquecível. Os três formam um belo e trágico conjunto de possibilidades.

“Bajo el viejo sol”, “El lobo” e “Del taller” são pré-kafkianos, cada um à sua maneira, especialmente o último, que abre um recorte poderoso sobre o absurdo cotidiano.

“El enano” remete às novelas de Bocaccio ou de Cervantes, com seu narrador que conta numa taberna a história de uma bela princesa que vive feliz com seu papagaio e seu culto anão num palácio em Veneza, até que chega o amor na figura de um nobre voltando do oriente. Esse conto traz um rico universo, mostrando que a Itália foi o primeiro oriente dos alemães, e guarda surpresas que farão desvanecer a ideia de idílio que poderia a princípio evocar. É o meu conto preferido, embora seja difícil apontar um sócuentos-hesse.

História sem fim

indice

O artigo indefinido no título da história da Leitura de Alberto Manguel indica os caminhos que seu autor pretende percorrer: veredas incertas, errantes como os olhos do leitor vagando por estantes que, embora familiares, sempre guardam surpresas, mesmo que sejam as da redescoberta.

Sempre que quero ler sobre livros, os argentinos se sobressaem: leio agora El Último Lector, de Ricardo Piglia e La Vuelta Completa, de Saer, como sempre volto a Borges, Cortázar e Manguel, e sinto que não estou só.
Manguel lança mão de sua paixão pelos livros para criar tópicos deliciosos, como as histórias da Leitura do futuro e do roubo de livros, além de capítulos tristes como o dos livros proibidos.
Como todo bom bibliófilo, em muitas passagens deixa evidente que, quando se trata de livros, muitas vezes a informação está em segundo plano.
O leitor sai dessa história com uma paixão renovada e uma lista ainda maior de futuras leituras, numa busca pela construção da própria história da Leitura.

Eram um Homem e um Menino

“Tentou se lembrar do sonho mas não conseguiu. Tudo o que restava era a sensação. Pensou que talvez eles tivessem vindo avisá-lo. De quê? De que ele não podia acender no coração da criança o que eram cinzas no seu próprio.”

“O velho sacudiu a cabeça. Já deixei tudo isso para trás. Faz anos. Onde os homens não podem viver deuses também não se sentem bem. Você vai ver. É melhor ficar sozinho. Então espero que não seja verdade o que você disse pois estar na estrada com o último deus seria uma coisa terrível então espero que não seja verdade. As coisas vão melhorar quando todos tiverem morrido.”
Cormac MacCarthy, A Estrada

Literatura é feita entre dois extremos que muitas vezes se complementam: há os livros que tratam de personagens sentados à margem de um lago, refletindo sobre entrar nele, e livros em que os personagens são arrastados por um rio que os leva em direção a uma queda d’água. Embora os autores que fazem o primeiro modo funcionar sejam gênios, e possa listar entre grandes obras do tipo as Memórias Póstumas de Brás Cubas e Oblomov, confesso que o segundo modo me agrada mais, e nesse Cormac MacCarthy é um verdadeiro titã.
Seus livros são tsunamis, atingindo o leitor na praia e arrastando-o para o meio dos escolhos. Não há incolumidade depois de entrar nos mundos que o escritor estadunidense cria.
Cormac mostra que a grande literatura se faz independentemente do gênero escolhido, criando obras primas com um profundo trabalho da linguagem, adaptando-a desde westerns até distopias pós-apocalípticas, como A Estrada (The Road), vencedor do Pulitzer em 2007. O curto romance nos leva a acompanhar de perto a épica jornada do homem e do menino, pai e filho, por um mundo morto. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu, ou quando, e são perguntas irrelevantes quando a própria linguagem do mundo que se foi começa a desvanecer, quando apenas algumas vezes não se tem inveja dos mortos. Quando o próprio planeta parece ter se entregue à morte com alívio.

A sensação de peregrinar junto com eles é muito forte, de sentir o frio, a chuva, o perigo, a fome e a incerteza. A ausência opressiva da mulher/mãe, em sua dura decisão. Levamos golpes a cada frase, e metáforas aparentemente deslocadas (“vasculhavam a casa como compradores céticos” ou “caminhavam pela estrada como hamsters em suas rodinhas”) criam potentes contrastes entre o que é e o que foi, além de brincar com a “segurança” que sentimos em nosso mundo “civilizado”. A épica de McCarthy não é uma épica de exaltação da civilização, mas de questionamento da mesma, embora esse questionamento leve a uma admiração pelo ser humano.

Os personagens de MaCarthy sempre estão procurando atravessar uma fronteira, seguindo em frente apesar de todas as forças contrárias, embora nunca saibamos ao certo (e eles tenham sérias dúvidas) se serão recompensados se chegarem ao outro lado, ou se não seria melhor apenas sentarDownload-A-Estrada-Cormac-McCarthy-em-ePUB-mobi-e-PDF à margem e esparar que o mundo siga seu curso.

Um questionamento que todos nos fazemos, mesmo inconscientemente, a cada dia.

A César…

Procuro dar a este blogue um caráter puramente literário, ou ao menos bibliófilo, mas às vezes tenho que fugir um pouco disso. Nessa postagem vou comentar uma imagem que tem sido muito compartilhada, comparando as estrelas da seleção masculina e feminina de futebol.

Essa comparação nãmarta.jpgo tem a mínima lógica, e é tão absurda em tão diversos níveis, que não posso me furtar a comentá-la. Não assisto futebol, nem masculino nem feminino, e não considero Neymar melhor que a Marta, porém temos que entender como o mundo funciona. O primeiro absurdo, do ponto de vista econômico: Se compara dois funcionários de empresas diferentes e se estabelece um parâmetro de produtividade em relação a uma terceira empresa. Essa imagem ainda dá a entender que os salários são pagos pela seleção. Quem paga são os clubes, e pra eles se o jogador nem jogasse pela seleção seria melhor. Dão a mínima pra gols marcados pela seleção. Querem saber de quem vende ingresso e camisa e ganha títulos pelo clube (e a única importância dos títulos é aumentar o número de torcedores e, consequentemente, a venda de camisas e ingressos). David Beckham nunca prestou, mas foi mais bem pago por um bom tempo. Outro absurdo é considerar que algum(a) atleta do futebol é pago por gol marcado. Se assim fosse, coitados dos goleiros e zagueiros. Tem ainda a divisão do salário anual pelos gols marcados em toda a carreira, que é de um nonsense aberrante. Se o clube de Marta pagasse o salário de Neymar pra ela, quebraria, e essa é uma conta muito fácil de fazer.

Quem usa a imagem faz uma comparação infeliz: compara o mundo do entretenimento (sim, a remuneração esportiva se dá pelo entretenimento que proporciona: quem vende mais ganha mais) com o mundo corporativo. Reclamar dessa diferença é como reclamar que Gisele Bündchen ganhe mais que modelos masculinos, ou que Ivete Sangalo ganhe mais que Alceu Valença: algo sem nexo. As desigualdades de gênero devem ser combatidas quando não se apoiam em regras da própria indústria, sem as quais a indústria ruiria. Uma CEO de uma grande empresa traz tantos benefícios quanto um CEO, assim como seus faxineiros de ambos os sexos, mas uma cantora, um atleta, uma bailarina e qualquer outra carreira do entretenimento não podem ser comparados ente si, pois cada um gera um valor individual.

Essa imagem é compartilhada em sua imensa maioria por pessoas que não assistem esportes, que não compram ingresso, nem camisa oficial do clube, não compram pay-per-view, que não comprariam produtos se fossem anunciados por Marta… Ou seja, pessoas que podem achar alguma lógica nessa comparação, e compartilhar essa imagem um bilhão de vezes, contudo tenho que fazer-lhes um lembrete: Se todas as pessoas da Terra pararem de acreditar na gravidade, ninguém sairá flutuando por isso. O mundo vai continuar os mesmo, e a lógica que o move também: o clube que paga o salário de Marta continuará pagando o mesmo salário, pois é uma empresa e tem que se manter.

Se as pessoas quiserem que Marta ganhe igual a Neymar, ou mais que ele, têm que assistir aos jogos dela pelo clube, comprar ingressos e camisas. Terão que contribuir com o fim dessa desigualdade.

Futuro do Pretérito

Futuro do Pretérito

“Tenéis razón; se trata de una mezcla de todas las cosas en las que hemos pensado despiertos, una quimera monstruosa, una conjunción de cuestiones confusas que nos presenta desordenadas la fantasía, que en el sueño no cuenta con la guía de la razón y de las que creemos conocer el verdadero sentido a base de retorcerlas, extrayendo de los sueños, como de los oráculos, una ciencia del porvenir. Pero voto a tal que no encuentro ninguna otra relación entre ellas salvo el hecho de que los sueños, como los oráculos, no pueden entenderse.”

Cyrano de Bergerac, História Cômica dos Estados e Impérios do Sol

O libertino, boêmio, pensador Cyrano de Bergerac é um dos personagens icônicos do ocidente, popularizado pela peça de Edmond Rostand, que associou o longo nariz, o bigode fino e a pena no chapéu a cenas cômicas de balcão.

Em Os Estados e Imperios da Lua encontramos um precursor da ficção científica, com a viagem do autor até nosso satélite. Cyrano lança mão do instrumento de divulgação científica universal desde Platão: o diálogo, muito utilizado pelos pensadores até então, desde Maquiavel até Galileu, e só abandonado depois de Newton para esse fim. O principal interlocutor do nosso viajante é o demônio de Sócrates. Embora seja um livro de aventuras (como toda boa ficção científica) cheio de prisões, ameaças de morte e julgamentos, é quando eles conversam ou nas descrições do utópico mundo da lua que encontramos o verdadeiro Cyrano, o pensador libertino, divulgador do atomismo, do ateísmo, da ciência experimental.

Habilmente o autor se defende de tais idéias, afirmando perceber a maldade do demônio de Sócrates e fugir do mesmo como se fora o próprio anticristo.

Enquanto nessa primeira obra encontramos o alquimista/pensador/cientista, inclusive antevendo em 1640 a existência de audiolivros, na história cômica dos estados e Impérios do Sol ele parece juntar sem muito critério fantasias, fábulas e anedotas, apesar de iniciar com uma máquina voadora, vemos um filósofo ácido, uma ironia absurda. Infelizmente, é seu último trabalho e não está finalizado. Ao ser julgado pelos pássaros, faz um julgamento do ser humano radical até em relação a muitos ambientalistas atuais.

Falando sobre a morte, faz uma defesa do atomismo que preconiza o eterno retorno nietzscheano:

“Y además reconóceme que el que no ha nacido no es desgraciado. Por tanto, vas a ser como quien no ha nacido. Un instante después de la vida serás lo que eras un instante antes de nacer. Y una vez transcurrido aquel instante llevarás muerto tanto tiempo como quien murió hace mil siglos. En todo caso, supuesto que la vida sea un bien, la misma casualidad que hace que seas ahora en la infinidad del tiempo, ¿no podrá hacer que vuelvas a ser otra vez? La materia que a fuerza de mezclarse alcanza por fin esa cantidad, esa disposición y ese orden necesarios para la construcción de tu ser ¿acaso no puede volver a mezclarse a fin de llegar a la disposición necesaria para hacer que sientas ser de nuevo? Sí, me dirás, pero no recordaré haber sido. ¡Ah, querido hermano! ¿Qué te importa con tal de que sientas que eres? Y además, ¿no podrá ser que para consolarte de la pérdida de la vida te imagines las mismas razones que yo te expongo ahora?”

Ao interpretar o sistema solar como um sistema fechado, embora cometa um equívoco, cria uma bela imagem da radiação solar:

“Los polos son las bocas del cielo a través de las cuales éste recupera la luz, el calor y las influencias que ha diseminado por la tierra, porque si todos los tesoros del Sol no volvieran a su fuente, haría mucho tiempo que se hubiera extinguido (ya que todo su fulgor no es otra cosa que un polvo de átomos inflamados que se desprenden de su globo).”

Cyrano faz um apanhado de várias teorias filosóficas, incluindo intuições sobre o darwinismo. Tem, é óbvio, muitos erros, como as distâncias entre os astros, como imagina a composição dos mesmos, e a existência do éter (elemento que até Eintein buscou em algum momento), além de engraçadas hipóteses acerca do corpo humano. Contudo, perceber a imaginação deste sábio do século dezessete é um alento, e verdadeiramente prazeroso ler sua prosa.