O Chamado do Incognoscível

“Only poetry or madness could do justice to the noises heard by Legrasse’s men as they ploughed on through the black morass toward the red glare and muffled tom-toms. There are vocal qualities peculiar to men, and vocal qualities peculiar to beasts; and it is terrible to hear the one when the source should yield the other.”

(Somente a poesia ou a loucura poderiam fazer jus aos barulhos ouvidos pelos homens de Legrasse enquanto cortavam caminho através do pântano escuro até o brilho vermelho e o abafado batuque. Existem características vocais peculiares ao homem, e características vocais peculiares aos animais; e é terrível ouvir um som vindo de uma fonte quando deveria partir da outra).

H. P. Lovecraft, The Call of Cthulhu

Apesar de dever muito do meu hábito de leitura aos quadrinhos de Conan escritos por Roy Thomas e desenhados por John Buscema, que deram grande visibilidade à Era Hiboriana, imaginada por Robert E. Howard, quase não tive acesso às obras publicadas na Weird Tales, além das próprias criações de Howard. Para preencher mais essa lacuna de minhas leituras, nada melhor que recorrer à imaginação igualmente fantástica de outro Howard, o Lovecraft.

Antes de falar do livro, devo dizer que gostei tanto que procurei uma edição dos Mythos, reunião de vários autores que com seus contos buscam ampliar o universo dos “Great Old Ones” (Grandes Antigos). Cthulhu é um desses Grandes, deuses que se lançaram através do cosmo ainda jovem e trouxeram caos para os planetas em que habitaram, até que “morreram”. O conto em que Lovecraft apresenta essa ideia fala sobre o chamado daquele que veio parar na Terra, ainda antes de existir vida, interferindo no destino do planeta, e de investigações acerca de um culto anterior à história, espalhado por todo o globo, que busca a “ressurreição” de Cthulhu.

Todo o conto mexe com o terror mais genuíno: o terror do incognoscível. O primeiro contato que temos com a besta, digo, o deus, é uma pequena estátua de barro com formas parcamente discerníveis que lembram um humanoide com asas de dragão e cabeça de polvo. Sendo essas formas de “vida” compostas de formas de energia e matéria desconhecidas, a disformidade é algo intrínseco à sua “forma”. O narrador, Francis Wayland Thurston é o sobrinho-neto do professor de línguas semíticas George Gammell Angell, que morreu de forma inexplicável (embora já bastante idoso) enquanto pesquisava a respeito do culto, que tem sua existência evidenciada por um inspetor de polícia, Legrasse, ao relatar descobertas que realizou em ocorrências policiais a um grupo de acadêmicos durante um simpósio. O culto, porém, logo deixa de ser relevante, quando vários acontecimentos insólitos ao redor do globo, ocorridos numa mesma época, mostram que algo muito terrível despertou.call_of_cthulhu_400x600

O próprio nome Cthulhu é uma tentativa de vocalizar algo que não pode ser dito por linguagens humanas. Como diz o narrador: “We live on a placid island of ignorance in the midst of black seas of infinity, and it was not meant that we should voyage far. The sciences, each straining in its own direction, have hitherto harmed us little; but someday the piecing together of dissociated knowledge will open up such terrifying vistas of reality, that we shall either go mad from the revelation or flee from the deadly light into the peace and safety of a new dark age.” (Vivemos numa plácida ilha de ignorância em meio a escuros mares de infinitude, e não havia meios de sair dali. As ciências, cada uma espalhando-se em sua própria direção, têm amiúde nos iluminado; mas um dia a junção de conhecimentos dissociados nos desvendará uma vista tão terrível da realidade, que ou ficaremos ensandecidos com a revelação ou fugiremos dessa luz mortal direto para a paz e a segurança de uma nova idade das trevas.) A ilha de Cthulhu, com sua geometria não euclidiana, é o cume do estranhamento que a narrativa causa.

Por meio de capítulos que passeiam entre estudos científicos, relatos policiais e narrativas de aventurescas viagens marinhas, Lovecraft começa a extrair do barro a forma de seus contos, tal qual ele declarou numa carta de 1927: “Todos os meus contos são baseados na premissa fundamental de que as leis, interesses e emoções que os seres humanos compartilham não têm validade ou significado no vasto cosmos ao redor.”

Testamento Traído

Emkafka Os Testamentos Traídos, Milan Kundera dá ênfase à traição de Max Brod, que ignorou o testamento de seu amigo, Kafka, ao se negar a queimar seus escritos, como seria seu desejo. Há o questionamento se de fato Kafka tinha esse desejo, mas essas questões estão bem delineadas lá e não é meu propósito questionar isso, mas destacar que de fato um escritor deve ter controle sobre que parte dos seus escritos devem participar de sua obra.
O volume Cuentos Completos, embora tente trazer os textos de Kafka o mais distantes possível das alterações de Brod, deixa isso bem claro: muitos contos sequer merecem essa classificação, não passando de notas ou fábulas, parábolas, enfim, textos menores do gênio de A Metarmofose. Percebe-se que Kafka era mais romancista que contista: seus melhores contos são, com raras exceções, os mais longos, aqueles que poderiam ser um capítulo de um longo romance psicológico.
Entre os curtos, as releituras de Sancho Pança e do embate entre Odisseu e as sereias se destacam. É um volume interessante para o pesquisador ou o escritor que procura identificar o desenvolvimento da escrita kafkiana, mas do qual deve passar longe o leitor comum, para evitar perder o gosto pela leitura do gênio de Praga.

A Dupla Face

Embora costume me ater ao conteúdo literário em minhas resenhas, sou um bibliófilo , e ao falar do livro de contos “O Contrário de B”16054141 (Confraria do Vento, 2015), de Bruno Liberal, não posso deixar de exaltar o excelente trabalho gráfico, em especial o design da capa, desenvolvida por Alemterra Graphic Designs com base em imagem de Lara Zankoul. É um belo livro, também do ponto de vista de objeto.

Também, porque é um belo conjunto de contos, que não precisa ser julgado apenas pela capa. O conto que dá título ao volume, com uma pegada social muito forte, lembra do aspecto mais cruel de cidades pequenas que vão se tornando metrópoles. “O contrário de B” mostra o contraditório, a outra face para a qual viramos nossa face em busca da ignorância redentora. Essa é a pegada da maior parte dos contos, que são recheados de um realismo que se distancia da influência kafkiana à qual fui conduzido pelo título, embora haja algo de kafkiano no conto “Isso não é jeito de voar”, que remete ainda a Salman Rushdie.

Os contos que destaco são os ótimos “Pater Familias II”, “Distante” e “Esse Último Sorriso”, ambos com temática da  grande tragédia familiar que se prenuncia com pequenas tragédias quase desapercebidas, que se mostram pela lupa da perspectiva bem focalizada pelo autor, além de “Não Precisa Gritar”, que alia a temática acima a outra, da crueldade da vida de aparência, ampliada pelas redes sociais que des-socializam.

Em “Pater Familias II” Liberal consegue aquilo que mais se busca em literatura: dizer algo “novo” com aparência de óbvio, ou dizer algo óbvio com aparência de novo. A mangueira e toda a carga em seu entorno me pareceram clichê num primeiro momento, até perceber que não tinha visto isso antes. É o melhor conto pra mim.

O conto “Hoje Não” me pareceu destoar da qualidade e intenções dos demais, embora talvez seja essa a intenção do autor: diminuir um pouco o peso do livro, refrescar o leitor como se lhe desse um sorvete antes de retomar seu passeio por esse mundo do avesso.

Ou talvez seja tudo ao contrário, e os demais contos é que queiram diminuir o peso desse mundo de shopping center.

 

Quando o Senhor pára de acreditar nas pessoas, estas passam a crer nele. Abandonam-se em suas mãos quando as abandona. Tal lógica perpassa os escritos daqueles que se arrogaram seus escribas. Em tais papéis abundam exemplos: quando um indivíduo ou um povo acha de procurar outros deuses para venerar, buscando mais alegria e progresso, Javé não cativa sua clientela com benesses. Não há compra de votos ou acordos por debaixo dos panos: aprendam a me amar ou morram. Sofram, para aprender a me adorar. Sucedem-se dilúvios, chuvas de água e fogo, pragas, fome, guerra, raios, serpentes, terremotos. Diga-lhe que não pode afundar um navio, e ele matará dois mil cristãos para provar que pode. A morte espalha sua rede, abarcando meio mundo. E os poucos que escapam se rendem à sua palavra: Deus é amor. E haja louvar sua misericórdia. Deus só se faz sentir por meio de catástrofes. E não é apenas nas páginas amareladas dos sacros papiros que tal lógica se estabelece: quanto maior a desgraça de um povo, tanto maior será sua fé. E não sou eu que digo, mas os próprios evangelizadores, sejam os profissionais ou os amadores, sempre a repetir: “Não crês porque não passaste ainda por grande provação.” Assim se dá também nas terras devastadas por fogo e enxofre da parte do Senhor. Entremos uma vez mais em Pentápolis, desta vez nas estreitas ruas de barro de Gomorra. Aqui as igrejas ocupam todas as esquinas, lembrando a população da ira do Senhor. Há mesmo aquelas que dão um dízimo de desconto ao fiel que paga o dízimo em dias.
Sobre as cinzas da grande hecatombe encontraremos uma casa de madeira, com um cômodo que serve como quarto e sala e um banheiro. Não é a única, mas no momento é a que nos chama a atenção. Nela habita Rute. Trata-se de uma mulata querida por todos. É baixinha e gordinha, porém muito bem feita de corpo, com busto, cintura e quadris generosamente bem proporcionados. Caminhar recatadamente sensual. Chamativa. Langor apenas pressentido, pois em seus quase cinquenta anos de ilibada reputação jamais um homem tocou-lhe abaixo da cintura. Nem mulher, se assim pensaste. Antevisto furor duramente reprimido pela sua moral, que lhe reputa exemplo de honestidade e inalterável estado de celibato. Tal celibato podemos atribuir à vontade de Rute, mas também à chuva de fogo que devastou Gomorra na sua adolescência, sem a qual sua vontade provavelmente seria outra. A linda mulata ainda saindo da infância brincava com seu primo, brincadeiras de descoberta. Descobriam um universo de prazeres subentendido, mas desconhecido. Carícias solícitas, beijos ardorosamente inocentes. Mãos que deslizam pelas costas, cócegas que riem nos lábios e ardem entre as pernas. Abraços infantis antecipando a seriedade das coisas adultas. Cinco sentidos eram poucos para tanto sentir. Marcos descobria-lhe as carnes ainda não surgidas, as curvas já salientes. A menina sentia sua musculatura frugal, de futuro trabalhador braçal, cobrindo parcamente o rijo esqueleto. Massa compacta recoberta por morena pele. Eram só brincadeira e carinho naquela madrugada, quando seus inaudíveis suspiros foram solapados por gritos. Houve choro e ranger de dentes. Ferro e fogo se espalhavam pela rua, separando o joio do trigo. O problema é que a justiça, quando chega nestas paragens, não encontra trigo. A chacina foi tal que o sangue entrava por baixo da porta, iluminado pelas chamas dos barracos vizinhos. Pavor rubro cerrou os olhos de Rute, imovelmente trêmula. Um rito de passagem passou pelo rosto de Marcos, que não se acovardaria diante de sua prima. Como homem que queria provar ser, saiu, deixando-a só em seu medo, em sua angustiosa espera, para desafiar a noite, a chama, a morte. A ira de Deus, como aprenderia depois.
No alvorecer, quando o grande alarido cessou e o sangue coagulou nas frestas; quando as cinzas substituíram o longo crepitar da madeira incandescente; quando o indizível se realizou, Rute saiu do pequeno barraco e soube, em meio à devastação, que Marcos pagara o preço da masculinidade. Como costuma acontecer nas pequenas tragédias cotidianas destas paragens, na grande catástrofe também os homens jovens foram as mais numerosas vítimas, transformados em estátuas de sal, pressionando o sangue nas veias das mães, irmãs, avós, amantes. E de uma prima. Enquanto o pranto se elevava aos céus, profetas e pregadores trataram de buscar culpados. Roupas pomposas e palavras incompreensíveis, empoleiravam-se nos escombros a lembrar a misericórdia que o Senhor tivera para com os sobreviventes. Sempre transparece a misericórdia quando a crueldade se espalha. O pecado dos que pranteavam causara sua desgraça; que se arrependessem. Rute sentiu em seus ombros o peso da morte de Marcos. Carregaria a cada segundo de seu tempo o peso de uma estátua de sal comprimindo-lhe o peito.
Rute mora só, apesar da grande família: sete irmãs, incontáveis sobrinhos, a mãe ainda insistindo em manter-se respirando. Quando se converteu à Igreja de Todos e de Ninguém do Deus Senhor do Fogo da Morte, passou a não mais tolerar a convivência com pessoas que insistiam em viver em pecado, sem temor da ira divina. Começou a lavar roupas, recebendo trinta dinheiros semanais pelo serviço, dos quais um terço é dedicado à igreja, para a conversão dos gentios que foram seus vizinhos e parentes. Sob roupas largas e escuras escondeu o corpo belo em desenvolvimento, cujo pecado fora a perdição de Gomorra. Prendeu os cabelos, os desejos, a vida. Prendeu-se à castidade. Sobrou aos homens a imaginação, a adivinhar o furor que o recato reservara apenas ao Senhor.
Mas isso foi há trinta anos. Mesmo os olhares dos homens de Gomorra se cristalizaram, pois uma parte importante da virtude é ser rondada pelo pecado. Se alguns ainda se acercam de Rute, é para maior glória de sua castidade, pois castidade sem tentação não é virtude, mas desprezo. Há algo atualmente que chama mais atenção na mulata que seu recato: o horror que tem a tudo que é novo, tecnológico, prático, moderno. Exemplo de candura, é capaz de grande violência quando o assunto é a humana ciência. Não tolera máquinas de quaisquer espécies. Se o Senhor pôde destruir, apenas a Ele é possível curar, diz para todos. E, quanto mais sua vida se destrói, tanto mais busca uma cura. Acredita firmemente que apenas mortificando os joelhos poderá curar sua alma pecadora.
Foram trinta anos entre os afazeres domésticos, os trabalhos para fora e os longos cultos diários, que demandam sua noite. Neste tempo jamais fraquejou em seguir os preceitos de sua fé. Sequer recorre a dentistas, e seus dentes extremamente alvos já não são tão numerosos quanto da última vez em que sorriu. Quanto mais lhe sobrevêm dores, mais se considera culpada e merecedora do castigo. Se a moderna medicina é inimiga da piedade, curandeiros tradicionais são crias do próprio Shaitan. Nos últimos meses têm sido frequentes as dores no seu abdômen e as mortificações. A dura palavra do Senhor é seu anestésico. Quando lhe afligem tonturas e suas entranhas se esvaem em vômito, crê ser o pecado a escoar, purificando-lhe. Assim tem sido até esta tarde em que lava roupas diligentemente no chafariz, único resquício de uma praça na qual crianças brincavam antes do medo materializar-se e destruir toda inocência. As crianças que caminham por aqui agora são adultos precoces. Ao lado da bola carregam ferros, temendo o retorno dos anjos do Senhor. E são elas as primeiras a avistar o pânico que estremece o corpo de Rute. Entre uma e outra batida, durante uma esfregada, sente dores lancinantes que curvam seu corpo contra sua vontade. Vira o rosto para o lado direito, para que o vômito não suje a roupa lavada, e perde a consciência. Cai com a testa sobre a grande torneira. Os mais ela apenas intui, vislumbres e iluminações entre a náusea e o sono.
Crianças correndo – escuro – gritos e perguntas, o que está sentindo? Dói? Calma que o socorro já vem – trevas – pessoas passeiam a seu redor, como pássaros, sons distantes e indistintos, vozes como o arrulhar de pombos, mãos que a erguem, o peso de si mesma sobre o frio metal de um veículo, o vômito na garganta – tonteira e escuridão – o veículo balança, girando sua cabeça para um lado e outro, enquanto desce as ladeiras íngremes e esburacas no caminho para Zoar – a luz do sol pela janela do carro fere seus olhos, o sono fecha-lhe as pálpebras – o sangue coagulado na testa, mãos firmes a erguem, uma maca, rodinhas deslizam por corredores brancos, jalecos brancos, máscaras brancas, luvas brancas; anjos a entorpecem com seu toque, já não sente dor – uma grande luz vem de cima, sua pureza ferindo seu ser, e então nada.
Retorna do mundo de torpor aos poucos. Leva a mão à testa e sente o curativo. Relembra a torneira, a dor. Algo puxa sua mão, um fio ligado a um tripé. Sara, sua irmã, percebe sua confusão ao despertar e a acalma: tudo ficará bem. Por sorte pôde ser salva. O médico passa pelo corredor e entra, sorridente. Esta paciente é-lhe muito cara, pois, se já perdeu muitos pacientes que acreditavam em sua cura, agora pôde salvar uma que não acredita. Senta ao lado do leito duro do hospital e fala carinhosamente: Você teve sorte. Sua insistência em não procurar ajuda poderia custar-lhe a vida. Era apenas uma apendicite, mas a demora na operação causou-lhe uma grave infecção abdominal. Sua sorte foi desmaiar na rua, ou já teria sido encontrada estática. O procedimento foi simples e em dois dias poderá retornar para casa. Espero que volte aqui para… – Rute o interrompe abruptamente: Minha sorte foi minha fé no Senhor. Ele me curou, tirou meus pecados. Eu vi a luz dele sobre mim. Você não sabe de nada. Arranca a agulha do soro e levanta, cerrando os escassos dentes. Sai indignada com o médico e com sua irmã, que permitiu que a imundície da ciência lhe tocasse.
Sobe o morro, deixando o asfalto pelo barro, pés afundando, cabeça latejando, coração rufando forte. Os esparadrapos se soltam no suor que lhe banha a fronte. Segue diretamente para sua igreja, à procura do clérigo, que se surpreende ao vê-la: Irmã Rute, o Senhor seja louvado. Não imaginei poder vê-la tão cedo. Me disseram ser grave seu estado. – Grave sim, pois o pecado me consumia por dentro. Mas o Senhor, em sua misericórdia, me curou. A partir de hoje só vou comer uma vez por dia, e todo meu dinheiro será da Igreja de Todos e de Ninguém do Deus Senhor do Fogo da Morte. Amém.
O que ninguém percebeu, nem o médico, nem suas irmãs, nem mesmo Rute, o que apenas os clérigos são capazes de perceber e aproveitar, é que ela perdeu sua vida e sua razão há trinta anos, numa triste madrugada em que a chacina do Senhor transformou seu primo em estátua de sal.

O Eremita

Ilustração: O Ermitão da Montanha, por Doré

Há tantos anos nascia um nobre bebê, condicionado ao luxo e à ostentação. Tornar-se Papa, seu destino. Cresceu em grandes palácios e alumiado de ricos candelabros, até que de tudo se cansou. Ou teria se esquecido de todas as juras de fidelidade que fizera aos seus pais e à riqueza? E falou o que gritava seu coração: “Como posso ser sacerdote, se jamais encontrei Deus?” O príncipe passou a viver enclausurado em seu quarto, sonhando paraísos.
Todos os pensamentos voltados para ele em uníssono clamavam: “Enlouqueceu o nobre príncipe”, “Deve estar endemoninhado”, “Seu espírito foi dominado por uma das feiticeiras que habitam os postigos imundos ao redor do palácio”. Outros pensamentos mais jocosos alegravam os aduladores mais invejosos: “O tolo sempre mostra sua verdadeira natureza…”, “Deram-lhe asas, agora quer voar para as coisas do Céu…”. E, quando todos se reuniam, ecoavam as mesmas palavras, numa harmônica repetição: “Ah, é uma pena; o nosso príncipe seria um grande Bispo…”, ao que se seguiam exclamações e longos suspiros melancólicos.
Porém, o nobre saiu do claustro apenas para dar uma decepção ainda maior ao Reino e à família real: abandonaria o palácio, a riqueza, a honra, a família e o império. E tudo em busca de algo que nem mesmo sabia se existia! Como cometeram a heresia de querer que aquele louco fosse Papa?
O príncipe partiu, coberto apenas pela roupa do corpo e as maldições do povo.
O filho ingrato passou a peregrinar pelo mundo, aprendendo coisas com as quais jamais sonhara. Aprendeu a nadar numa bela manhã em que se refugiara de alguns ladrões num lago, no qual quase se afogou. Colhia frutos à beira dos rios, aprendeu a fazer fogo e infusões com o povo das colinas; nadava com os peixes e partilhava suas aventuras com os homens. Substituiu os farrapos reais por peles de carneiro e comia carne de porco com cerveja. Escalou montanhas até a exaustão, respirando o ar rarefeito e puro, para ficar mais próximo dos céus. No cume, as geleiras derreteram, algumas plantas surgiram: tudo era belo. Nas montanhas, encontrou toda espécie de plantas venenosas e animais peçonhentos. Lá havia menos peçonha que no mundo dos homens. Percebeu que a serpente não tenta a ninguém: só os humanos podem expulsar-nos do paraíso.
“Meu Deus da Terra, o Paraíso é aqui!”, pensava consigo mesmo e, às vezes, compartilhava tal pensamento com as serpentes e as águias ou outros animais que se aproximavam. Até mesmo às plantas falava, até perceber que apenas os humanos se importavam com o que dizia. Parou de falar e apenas pensava: “Meu Deus, o paraíso é aqui.”
Até que as palavras foram perdendo seu sentido ante a verdade pura, e pouco a pouco ele foi deixando de falar até mesmo a Deus, pois este também não respondia. As palavras foram minguando em sua mente:
“Meu Deus, o paraíso!”
Deus, o paraíso!
Deus!
…!
Meu!”
E aquele passou a ser seu reino. Passou a comer apenas figos e mel silvestres e a nadar sob o sol da manhã. Em seu íntimo, aquela era a única forma de alcançar a salvação.
Alternavam-se as estações, mudavam as paisagens, os espaços modificavam-se, mas o tempo parecia o mesmo, estático e inabalável. Doravante, o príncipe sem reino não tinha pressa no nado, não recordava os nomes das espécies animais que o circundavam, não lembrava dos rostos, nomes, dos bens ou males dos humanos que conhecera. Esqueceu o significado da palavra salvação. Ainda mais só em sua velhice, guardava uma vaga lembrança dos motivos que o haviam levado àquele lugar e da felicidade que sentira em outros tempos.
Esquecera-se definitivamente das línguas dos homens, dos seus símbolos, códigos e normas, ouvindo com prazer a música da floresta e os sussurros da noite antes silenciosa. Até que lhe chegou uma serpente, animal formoso e inteligente, e sussurrou-lhe, em linguagem bifurcada, um sibilo silente e carregado de melancolia, sem que pudesse o velho eremita perceber que o escutava e compreendia: “Faz tempo que não falamos com Deus.”
Buscou meios de responder à serpente, até que dominou novamente sua língua e sua garganta, rouca e ressequida e, após articular sons sem sentido, por fim sibilou:
“Onde está?”
E a natureza calou à sua volta. E calaram-se as próprias batidas do seu coração. E o homem morreu sem jamais ter compreendido a ausência de deus.