Trinta Livros

Como tenho produzido pouco para o blogue, que está tão parado quanto o romance homônimo, resolvi pegar o questionário que o Daniel Lopes apresentou no Índex e respondê-lo aqui. Acredito que todos aqueles apaixonados por livros deveriam tentar respondê-lo, pois é um excelente exercício para uma memória que já não é suficiente para tanta informação acumulada, além de servir como dica preciosa para outros apaixonados por esses objetos transcendentes que amamos com amor táctil.

Dia 01 — O livro mais querido de todos os tempos: O Cristo Recrucificado e Zorba, o Grego, ambos de Nikos Kazantzakis. É com certeza a pergunta mais difícil do questionário. Mesmo uma lista dos cem preferidos seria difícil, e corta o coração deixar de fora livros do próprio Kazantzakis, como A Última Tentação e Testamento para El Greco, além de Dom Quixote, Moby Dick, Alice no País das Maravilhas, Danúbio e tantos outros.

Optei pelos dois porque em minha vida como leitor eles funcionam como um só. O Cristo Recrucificado mudou minha vida uma vez, tornando-me quase que um fanático religioso, e Zorba, o Grego, elevou-me à categoria de ateu místico. Posteriormente descobri que toda a obra de Kazantzakis tinha muito de auto-biográfica, e que os livros tinham ocorrido em momentos de sua vida similares aos que eu próprio vivera no tempo em que os lera.

Dia 02 — Um livro que você não gosta: O Sol também se Levanta, de Hemingway. Ao invés de falar sobre o livro, prefiro comentar a pergunta e a maneira de respondê-la. Há dezenas de livros dos quais não gostei, alguns inclusive que detestei mais do que o escolhido. O que percebo na minha resposta e nas da maioria dos leitores é que é mais interessante responder com algum livro ou autor que seja um cânone ou quase isso, do que falar de um livro que quase ninguém leu. O iconoclasmo é sempre perigosamente divertido, além de servir como uma advertência para o leitor incauto.

Sobre O Sol Também se Levanta, acho apropriadas as palavras de meu amigo Márcio Jardson, quando o leu: esse cabra não sabia o favor que estava fazendo para a humanidade quando deu um tiro na cabeça.

Dia 03 — O livro favorito da sua infância: Peter Pan, de Monteiro Lobato. Até hoje não li o original, mas a adaptação de Lobato foi incrível. Eu o li já tarde, com uns dez anos, mas senti-me como uma criança, a ponto de, ao terminar a leitura, correr para o muro de minha casa e observar os céus, à procura de vestígios da Terra da Nunca.

Dia 04 — O primeiro livro que lhe fez chorar: Peter Pan, de Monteiro Lobato.

Dia 05 — Um livro que lhe faz sorrir: Metafísica do Amor, de Schopenhauer. Eu me divirto muito com o pessimismo do filósofo alemão, ainda mais quando ele se propõe a observar de perto as relações entre homens e mulheres.

Dia 06 — Um livro do seu autor favorito: A Última Tentação, de Kazantzakis. Posso dizer que é um romance que não apenas me influenciou como pessoa, como também como escritor. Inspirou profundamente o meu Evangelho de São Pecador.

Dia 07 — Um livro que você odiou mas teve que ler para a escola: Nenhum. As escolas que frequentei não obrigavam a ler. Eu lia por conta própria, porque amava a biblioteca. Talvez por ser o único lugar, além do banheiro da minha casa, em que eu podia ouvir os meus próprios pensamentos sem interferência. Mesmo na faculdade de Letras que eu fiz os estudantes não eram obrigados a ler, e a maioria saiu sem conhecer os clássicos que deveriam comentar quando estivessem ensinando.

Dia 08 — O livro mais assustador que você já leu: 1984, de George Orwell. Sempre gostei do gênero terror/suspense, mas nunca me senti particularmente assustado. Poderia citar Enterrem meu Coração na Curva do Rio, de Dee Brown, mas optei pelo 1984 por ser uma ficção que pode simbolizar diversas realidades, e porque o futuro sempre é mais assustador que o passado.

Dia 09 — O livro mais triste que você já leu: Passei um momento extremamente difícil ano passado, quando li ao mesmo tempo Enterrem meu Coração na Curva do Rio, de Dee Brown, A Cidade do Sol, de Khaled Hosseini, O Quinze, de Raquel de Queiroz, e A Menina que Roubava Livros, de Markus Zusak. Num período de quinze dias eu vivi todo o sofrimento do mundo, dos nativos americanos dizimados ao longo dos séculos, das mulheres do Afeganistão tratadas como animais de propriedade dos homens, de uma nação sob o jugo do nazismo e em guerra contra o mundo, e das vítimas das secas no sertão do qual eu venho. Todos me fizeram chorar abundantemente, e novamente coloco-os como um único livro: o livro do sofrimento e do desespero.

Dia 10 — O clássico favorito: Dom Quixote, de Cervantes. Simplesmente incrível, emocionante, divertido. Uma obra-prima.

Dia 11 — O livro favorito com animais: Alice no País do Espelho, de Lewis Carrol. A fauna dos mundos de Carrol são impressionantes pela sua diversidade plena de ilogicidade. Nem a natureza foi capaz de igualá-lo.

Dia 12 — O livro favorito de ficção-científica: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Distopia similar a 1984, o mundo apresentado aqui é controlado com uma “lógica científica” similar à dos campos de concentração nazistas, embora a eugenia seja praticada em tubos de ensaio, e não em câmaras de gás.

Dia 13 — Um livro que te faz lembrar de alguma coisa, um dia: Todos os livros me recordam de alguma coisa; em geral, de outros livros.

Dia 14 — Um livro que te faz lembrar de alguém: O Caçador de Pipas, de Hosseini, traz lembranças de meus amigos.

Dia 15 — O livro favorito dos feriados e folgas: Pra mim não existe leitura de férias. Mantenho o mesmo gosto. Se eu fosse tirar férias da leitura, leria Paulo Coelho, Augusto Cury e alguns espíritas ou cristãos. Se não matassem os neurônios, seriam um bom descanso.

Dia 16 — O livro favorito que virou filme: Zorba, o Grego. A atuação do Anthony Quinn é magistral.

Dia 17 — Um livro que é um prazer culpado: Os do Dan Brown. Fico pensando que tenho coisa melhor pra ler, mas não consigo largá-los. Felizmente acabam em poucas horas.

Dia 18 — Um livro que ninguém esperaria que você gostasse: Os do Dan Brown.

Dia 19 — O livro de não ficção favorito: É difícil definir um livro de não-ficção, ao menos para mim. Sempre que tento colocar algum aqui, fico na dúvida. Colocaria os Ensaios, de Montaigne. Tenho dialogado com ele, para meu romance A Ceia das Cinzas, e posso dizer que raras vezes tive tão interessante interlocutor.

Dia 20 — O último livro que você leu: The Sign of the Four, de Arthur Conan Doyle. Uma típica história de Sherlock Holmes.

Dia 21 — O melhor livro que você leu este ano: Crítica literária: Nuevo Elogio de la Locura, de Alberto Manguel. Esse sujeito simplesmente amplia meu prazer pela leitura e minha paixão pelos livros. Filosofia: O Mundo como Vontade e Representação, de Schopenhauer. Literatura: Moby Dick, de Herman Melville. Se Camus considera Melville o Homero do oceano Pacífico, eu considero Moby Dick o Dom Quixote dos mares.

Dia 22 — Livro favorito que você teve que ler para a escola: Não tive que ler para a escola. Dizem as más línguas que é por isso que amo tanto a leitura.

Dia 23 — O livro que você leu mais vezes durante toda a vida: A Bíblia e O Lobo da Estepe, ambos três vezes. Não costumo reler os livros, simplesmente porque sempre tem muitos inéditos à minha espera.

Dia 24 — Sua série de livros favorita: Não sei se os livros de Conan Doyle com Sherlock Holmes formam uma série, então vou de As Brumas de Avalon, de Marion Zimer Bradley. Ainda não terminei Guia do Mochileiro das Galáxias e O Senhor dos Anéis. A série do Sandman de Neil Gaiman merece destaque entre os quadrinhos.

Dia 25 — Um livro que você odiava mas agora ama: O Evangelho de São Pecador. Depois de finalizá-lo, passei por uma crise puerperal, e cheguei a rejeitá-lo, mas hoje o considero uma grande obra, inclusive figuraria entre os meus cinquenta livros preferidos.

Dia 26 — Um livro que lhe faz adormecer: O Ser e o Nada, de Sartre. Embora eu goste do livro, não consigo ler mais que vinte páginas seguidas sem ter que apelar para outro livro, para me manter acordado.

Dia 27 — A história de amor favorita: Os Noivos, de Alessandro Manzoni.

Dia 28 — Um livro que você pode citar de cor: Quando li Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdã, e O Livre Arbítrio, de Schopenhauer, podia citá-los de cor. Isso se deu aos dezesseis anos, então eu ainda tinha pouca coisa ocupando minha mente. Hoje esqueço quase tudo logo depois que leio. Fica apenas a sensação da leitura. Felizmente o prazer se mantém.

Dia 29 — Um livro que alguém leu pra você: Nunca leram algum livro completo pra mim. Ouvi alguns trechos ou poemas em recitais ou rodas de leitura.

Dia 30 — Um livro você ainda não leu, mas quer: As obras completas de Jorge Luis Borges, no original.

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