Desnorteado

Os Oliveira de Desnorteio (Patuá – 2012), de Paula Fábrio, são uma família atávica que já podemos inserir entre as grandes famílias-personagens da história da literatura. A polifonia da narrativa, dividida em interpretações de episódios ocorridos com seus personagens, com especial enfoque nos três irmãos loucos, dá uma noção de poesia crua, de estranheza e deslumbramento. A violência do cajado do patriarca, pressentida o tempo inteiro, é sentida opressivamente pelo leitor. A família Oliveira é o grande personagem deste romance, uma voz que emerge da reunião de todas as vozes, oriunda da violência, do incesto, da loucura. E da procura por uma razão. Por um norte.

Ingenuidade

Algo interessante no processo de escrita é que a gente sempre é outro em relação ao escritor do passado. Revisando O Evangelho de São Pecador, deparo-me com trechos crus, ingênuos, e eles sempre me encantam. Penso que é uma obra que precisava mesmo de um autor sem grande cabedal teórico, grandiloquente, idealista. Eis um que faz rir e ao mesmo tempo me agrada muito:

― Para, ou terás o mesmo destino de teu companheiro.

― Por favor, não matem um homem desarmado. Peçam a seu colega que baixe e gládio.

O invasor referia-se a Tiago, que se erguera com o gládio em punho.

― Cão maldito. Tu nos matarias durante o sono, e ainda pedes nossa misericórdia? Já devíamos ter-te exterminado, assassino.

Neste momento Tiago começou a ver o mundo girar à sua volta, e a náusea fê-lo largar o gládio e escorar-se à parede. Quando seus companheiros aproximaram-se para auxiliá-lo, começou a vomitar violentamente.

― Por Assu e Baal[1], vós emporcalhareis a minha estalagem por mais de um ano. Primeiro, poças de sangue, agora vômito. Vós limpareis isso, maldição.

― Cala a boca e trata de remover o cadáver para queimá-lo, disse Marco.

― Não. Não podemos queimá-lo. Devemos enterrá-lo ― discordou Melquias.

― Então vá ajudar o estalajadeiro, enquanto cuidamos do colega do defunto. Não te preocupes, Tiago ficará bem. E tu, desgraçado, qual o teu nome? Quantos comparsas tinhas e a quem terias que matar?

― Meu nome é Caio. Éramos apenas três, para não despertar suspeitas. Se não estancardes meu ferimento, certamente morrerei.

― Fala rápido, e poderás viver. Do contrário, morrerás de qualquer forma.

― Fomos contratados para matar-vos e recuperar documentos roubados por traidores da legião. Devíamos impedir que vós entregásseis os documentos aos bárbaros além da fronteira. Escalaram os melhores espiões da legião de Antioquia para matar-vos, traidores.

Em silêncio, Marco arrancou uma tira de tecido à cortina e amarrou-a sobre o ferimento de Caio. Enquanto isso, Tiago continuava a vomitar no quarto, amparado pelos seus companheiros.

― Não acredito que fui cortado por um maldito moleque bêbado.

Tiago voltou-se para ele e respondeu:

― Tiveste sorte, pois eu mirei nas tuas costas. Se não te calares, não errarei uma segunda vez.

Disse, e baixou a cabeça para derramar a última bile.

[1] Divindades persas. O fato de constarem na narrativa sem condenações pejorativas demonstra uma certa tolerância religiosa incomum entre os judeus zelotes daquele período.”

Dicas retiradas do ebook 7 Coisas que aprendi

Eis sete conselhos a partir da ótica de James McSill, que trabalha com quem escreve ou quer escrever e vê que, entre autores em geral, apenas um em cada cinco a dez mil consegue algum tipo de publicação comercial. Por que será?

1. Seja autêntico.
Escreva o melhor que puder dentro da sua capacidade. Dá-me um frio na barriga cada vez que me aparece um autor com um texto que não é dele fingindo que é. Ghost-writing em circunstância especiais e se muito bem feito não tem
problema, mas GW só para ver o nome na capa de um livro é um ato de vaidade que expõe o “autor” ao ridículo.
2. Se conseguir quem publique, fique agradecido. Vejo toda hora gente que tentou publicar durante anos e no momento em que consegue a editora vira um monstro, fazendo exigências que nem Dan Brown faria para publicar. Depois não entendem por que a editora caiu fora e ninguém mais quis aquele texto.
3. Entenda o processo todo que leva da escrita à publicação. Tem gente que acha que editar é apenas acertar a grafia e pôr uma vírgula onde o autor se esqueceu.
4. Se o texto não for profissional ainda, você AINDA não deve torná-lo público. O texto profissional, mesmo ‘mal escrito’, flui, é gostoso de ler. É feito comida, pode ser simples, mas tem que ser bem feitinha ou poderá dar dor de barriga. Escreva e reescreva, edite e reedite até ficar tinindo. 5. Se o texto que você quer publicar não tiver um valor agregado, isto é,
ser algo significativo para alguém, possivelmente, mesmo que publicado, ninguém vai querer ler. Mesmo a literatura de puro entretenimento pede por ‘algo mais’.
6. Networking (quem você conhece na indústria do entretenimento, da formação ou da informação) é responsável por mais 80% dos autores publicados em países como o Brasil. Um autor desconhecido ou sem uma plataforma ‘concreta e mensurável’, que saibamos que o levará a vender certa quantidade de exemplares, cada vez menos é um autor atraente para uma editora comercial – isto é, que investirá na publicação do texto.
7. Evite a autopublicação.
Sabemos de um “sucesso” ou outro – grãos de areia nas praias em que morrem os autopublicados. No mercado mundial há cerca de um sucesso a cada nove milhões de títulos. No Brasil, tivemos o caso do Paulo Coelho e do André Vianco que começaram autopublicando, num mercado que publica cerca de 22 mil títulos ao ano, dois em vinte anos. A possibilidade de você ser o próximo Coelho ou Vianco, garanto, é quase nula. É melhor escrever bonitinho e achar quem pague para publicar você ou, por que não, com toda a dignidade do mundo, fazer outra coisa da vida! Dar murro em ponta de
faca, como dizem os gaúchos, é pura bobagem. De repente, pintar, dançar ou cantar é a sua praia!

James McSill
Aclamado por um número crescente de autores como a ponte entre o mundo literário lusófono e o anglo-saxão, James McSill é reconhecido por importantes editores pelas atividades pioneiras que realiza na indústria do livro – em um mercado em que menos que 5% dos bons textos conseguem sequer ser autopublicados, mais de 75% dos autores que
procedem das consultorias de James McSill atingem a tão almejada publicação comercial! James McSill é diretor da McSill Ltd., Literary Management and Consultancy, do McSill Story Studio (sediado na Inglaterra e com representações no Brasil, Portugal, EUA, Escandinávia, México, China e Japão), bem como a sua agência literária: McSill Internacional. Atualmente James é um dos consultores literários mais bem-sucedidos e experientes do mundo; trilíngue, seu trabalho abrange, além dos países representados, o restante da Europa, América Latina, Ásia e América do Norte. A capacidade de James em colaborar para que os seus escritores atinjam metas de publicação está comprovada nas dezenas de testemunhos deixados por participantes em suas palestras, workshops e treinamentos.

Residência Literária

Atenção, escritores, para uma ótima oportunidade, especialmente para aqueles que, como eu, precisam de um empurrão para escrever e um período pra se preocupar apenas com a escrita, de preferência ganhando dinheiro pra isso: até o dia 14/09 estão abertas as incrições para o projeto do SESC Paraty Residência Literária, cujo link do edital segue.
Pena que só tenho um livro publicado e estou em estágio probatório, e não posso concorrer. Se fosse vocês, escritores com mais de um livro publicado e estabilizados, não pensaria duas vezes antes de pedir licença sem vencimento e levar esposa e cachorro para Paraty.
http://www.sesc.com.br/portal/noticias/cultura/imersao+produtiva