Veredas da Ira

Ler é telepatia. Ao ler a Ilíada, Homero falou em minha mente direto de dois mil e oitocentos anos no passado, na minha língua graças à bela tradução de Carlos Alberto Nunes na edição da Nova Fronteira. Dividido em vinte e quatro cantos por sábios da Biblioteca de Alexandria, esse não é o único traço de uma criação que não ficou a cargo de um único indivíduo. Homero é o espírito da Grécia clássica. No vídeo abaixo explico um pouco das razões que tornam essa obra imprescindível.

Discurso romano em defesa do conservadorismo

Sempre tive curiosidade de saber como seria o discurso de um cidadão romano conservador. Resolvi pegar a máquina do tempo para descobrir e vocês conferem o resultado abaixo (e o melhor, já traduzido para o português):

 

 

 

Caros patrícios, venho a esta tribuna dirigir-me respeitosamente a vós para alertar-vos de um perigo iminente, que tem cooptado nossos jovens incautos e põe em risco o modo de vida romano. Todos vós tereis já ouvido falar sobre os cristãos e suas práticas canhotas. Entretanto, não vejo os cidadãos de bem de nosso império tão preocupados quanto a real situação aconselha, e aqui elencarei apenas algumas situações que justificam nosso alerta máximo e ação decidida, afim de evitar a destruição das nossas sagradas instituições. Ao fim de minha explanação, vós tereis consciência de que há uma guerra que se desenha no horizonte, entre a civilização e a barbárie.

Primeiramente, os cristãos atentam contra a religião. Não falo apenas do fato de acreditarem em um único deus. Tal prática parece ser comum entre os povos dos desertos, talvez por lhes faltarem meios de perceber quão vasto é o mundo e como um único deus sentir-se-ia solitário, e mesmo no Egito, nossa nação amiga, já houve faraós que pregaram tal disparate. Falo de práticas graves, criminosas: Os cristãos são contrários ao culto, não respeitam as imagens e não reconhecem a autoridade do Imperador como sumo Pontífice. Chegam ao absurdo de pregar liberdade de crença e que o Estado seja laico, tirando o direito desta instituição de obrigar ao exercício da fé e negando o dever de punir a heresia. Heresia inclusive encontrada na sua negativa da divindade de César.

Atentam também contra o Estado: não reconhecem a obrigação do Estado de prover alimentação aos cidadãos, pregando que a caridade seja praticada pela iniciativa privativa das pessoas.

Atacam as leis. Afirmam que devemos abdicar das armas, abandonar a autodefesa, direito universal e indelével. Pregam inclusive o fim dos castigos físicos contra os escravos desobedientes! E ainda atentam contra os esportes que são os verdadeiros aglutinadores sociais, as corridas e os jogos de gladiadores, que consideram violentos e imorais. Total inversão de valores!

Todavia, nada disso se compara com o verdadeiro ataque ao cerne de nossa cultura, às bases de nossas famílias e, portanto, da própria estrutura da nossa sociedade. Os cristãos pretendem instalar, e já não escondem isso de ninguém, uma ditadura heterossexual. Chegam ao absurdo devaneio, ao acinte de pregar o sexo apenas para procriação! Chamam a saudável prática do amor viril de abominação! Querem tolher dos nossos jovens imberbes o sagrado direito de serem educados para o exercício da masculinidade por homens maduros, experientes no amor, na moral pública e nas artes militares.  Aliás, esperam que os homens morram de velhice, em suas camas, ao invés de ganhar a glória no campo de batalha. Atacam, portanto, a virilidade de todas as formas possíveis.

Quando Nero ateou fogo a nossa cidade e culpou os cristãos, estava fazendo isso para evitar um mal maior. Hoje, algumas décadas depois, somos chamados novamente a espantar o fantasma do cristianismo que se espalha por toda a Europa. É o bem contra o mal! Que sejam lançados aos leões, pois com essa gente é impossível conversar, são fanáticos além de qualquer argumento. Repito: aos leões com os cristãos!

Nossa toga jamais será vermelha! Roma acima de tudo! Júpiter acima de todos!

Mais uma Crítica de Nem Tudo Cabe na Paisagem

Saiu mais uma resenha do meu livro de contos, publicado em 2018. Dessa vez foi o também escritor Wagner Marques, autor de Isso que Escorre (contos, uCarbureto, 2015) que fez sua análise sobre o livro, que compartilho com vocês:

Não é porque um ou outro é meu amigo que não costumo ser exigente com as suas publicações. Em se tratando do amigo @amanciosiqueirarosa criei expectativa extrema. Para o bem, me senti correspondido. Dos 11 contos que compõem o “Nem tudo cabe na paisagem”, em todos o autor dá vida própria a cada um. Sustentam-se sem precisar um do outro. Gosto disso. Não vejo nada de unidade entre eles. O que pra mim me agrada. Não gosto de livro de contos em que cada conto parece ser quase uma continuidade do outro, uma bengala; seja pelo trabalho com a linguagem, seja pelo estilo da narrativa. E o escritor Amâncio Siqueira consegue muito bem fazer com que cada conto se encerre em si. Cada história tem o seu próprio tom. No fim das contas, é isso que se espera de um contista exitoso: que saiba contar histórias como se fiasse um tecido caro. Amâncio faz isso com grande desenvoltura. Eu poderia fazer inúmeros comentários individuais sobre cada conto. Mas quero me deter no último conto, que é o “Atirei no que vi, acertei no que não vi”. Não é babação pra trazer o escritor pra o meu colo, mas sem dúvidas esse conto é um dos melhores textos que já li ultimamente, diante de uma avalanche de escritores contemporâneos. Mais pelo conjunto do que por algo pontual. A densidade psicológica e afetiva me fez procurar chão, principalmente diante do desfecho do conto. Imaginem-se diante do fluxo de pensamentos/recordações de um filho ao transportar (de outra cidade) o corpo-morto seu próprio pai, para velá-lo… O que vai te passando pela mente naquele momento? A narrativa nos coloca diante de uma dor que não há paisagem que caiba. Grande livro. Grandes contos. Amâncio fez valer a premiação do Prêmio que recebeu pelo livro.

Tag dos Astros

Criei uma booktag como desculpa para falar sobre astronomia num canal literário. É a TAG dos Astros. Abaixo estão as categorias e os livros escolhidos. No vídeo explico minhas escolhas.
Asteróide: aquele livro que você pensou que causaria um grande impacto, mas passou longe. Roteiro para um passeio ao inferno, de Doris Lessing (https://amzn.to/2M7bpMd) e Avalovara, de Osman Lins (https://amzn.to/2RK5UYT).

Cometa: um livro que veio de um sistema diferente do que você está acostumado e deixou um rastro. O Código da Vinci, de Dan Brown. https://amzn.to/2D8Og9d

Estrela Cadente: um livro que você leu muito rápido, achou bonito, mas esqueceu completamente. A Espada Encantada, de Marion Zimmer Bradley.

Lua: aquele que gravita em torno de outro, e sua luz é refletida. Charles Darwin:  Victorian Mythmaker, de A N Wilson.

Planeta Rochoso: Um livro que é relativamente pequeno, mas muito massivo. Mensagem, de Fernando Pessoa. https://amzn.to/2FpoAHS

Planeta Gasoso: Um livro muito grande, mas com pouca substância. O Festim dos Corvos, de George R R Martin.

Terra: Livro que você ama, mas poucas vezes para pra pensar no quão interessante é. Demian, de Hermann Hesse. https://amzn.to/2D440du

Estrela: Um livro com muita luz e energia, em torno do qual muitos outros gravitam. Assim falava Zaratustra, de Nietzsche. https://amzn.to/2TMhZtY

Buraco Negro: Aquela obra que, depois que você entra na sua zona gravitacional, não tem como escapar. Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy. https://amzn.to/2SYQ1uY

Big Bang: Um livro ou escritor que deu origem a tudo, que te transformou em um leitor. Nikos Kazantzakis.