Tag dos Astros

Criei uma booktag como desculpa para falar sobre astronomia num canal literário. É a TAG dos Astros. Abaixo estão as categorias e os livros escolhidos. No vídeo explico minhas escolhas.
Asteróide: aquele livro que você pensou que causaria um grande impacto, mas passou longe. Roteiro para um passeio ao inferno, de Doris Lessing (https://amzn.to/2M7bpMd) e Avalovara, de Osman Lins (https://amzn.to/2RK5UYT).

Cometa: um livro que veio de um sistema diferente do que você está acostumado e deixou um rastro. O Código da Vinci, de Dan Brown. https://amzn.to/2D8Og9d

Estrela Cadente: um livro que você leu muito rápido, achou bonito, mas esqueceu completamente. A Espada Encantada, de Marion Zimmer Bradley.

Lua: aquele que gravita em torno de outro, e sua luz é refletida. Charles Darwin:  Victorian Mythmaker, de A N Wilson.

Planeta Rochoso: Um livro que é relativamente pequeno, mas muito massivo. Mensagem, de Fernando Pessoa. https://amzn.to/2FpoAHS

Planeta Gasoso: Um livro muito grande, mas com pouca substância. O Festim dos Corvos, de George R R Martin.

Terra: Livro que você ama, mas poucas vezes para pra pensar no quão interessante é. Demian, de Hermann Hesse. https://amzn.to/2D440du

Estrela: Um livro com muita luz e energia, em torno do qual muitos outros gravitam. Assim falava Zaratustra, de Nietzsche. https://amzn.to/2TMhZtY

Buraco Negro: Aquela obra que, depois que você entra na sua zona gravitacional, não tem como escapar. Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy. https://amzn.to/2SYQ1uY

Big Bang: Um livro ou escritor que deu origem a tudo, que te transformou em um leitor. Nikos Kazantzakis.

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Melhores Leituras de 2018

Chegou o momento da já tradicional lista de melhores leituras do ano. A lista está dividida em não-ficção e ficção, trazendo o nome do autor, título da obra e o link para quem quiser fazer a compra. Ao final, o Quixotada em que explico minhas escolhas e faço mini-resenhas dos livros.

Não-ficção

Roman Garrison The Graeco-Roman Context of Early Christian Literature (https://amzn.to/2Bzp1Z)
Daniel Kahneman – Rápido e Devagar
(https://www.amazon.com.br/gp/search/ref=as_li_qf_sp_sr_tl?ie=UTF8&tag=quixotada-20&keywords=Rápido e devagar&index=aps&camp=1789&creative=9325&linkCode=ur2&linkId=776349b396f6c2ffd1c921ba82bef819)

Ficção
Ana Paula Maia – Enterre seus Mortos ( https://amzn.to/2V2vrLQ )
Ian McEwan – O Jardim de Cimento ( https://amzn.to/2LviB4k )
Jorge Luiz Borges – Cuentos Completos ( https://amzn.to/2BBbdQA )
Joca Reiners Terrinha – Noite dentro da Noite ( https://amzn.to/2V86OO2 )
Ignácio de Loyola Brandão – Não Verás País Nenhum ( https://amzn.to/2QMBghZ )
Saul Bellow – Henderson, o rei da chuva ( https://amzn.to/2SnnKyh )
Günther Grass – O Tambor ( https://amzn.to/2RbV9yp )
Alexandre Dumas – O Conde de Monte Cristo ( https://amzn.to/2QJTpNv )
Ivan Turgueniev – Pais e Filhos ( https://amzn.to/2Rfzsxn )
Robert Musil – O Homem sem Qualidades ( https://amzn.to/2R9KqEI )

Novo vídeo no canal e enquete do Tradução Quixotesca

O Homem sem Qualidades, de Robert Musil, já é um dos meus livros preferidos da vida, e nesse programa explico porquê. Aproveito para divulgar um dos meus projetos para o próximo ano: O Tradução Quixotesca. Pretendo traduzir um clássico, fazendo a leitura da minha versão em vídeo, um capítulo por mês. Nesse vídeo d’O Homem sem Qualidades há um cartão no canto superior direito com a enquete para que o público decida qual a obra que devo traduzir.

Gostinho de interior…

Dessa vez não é uma resenha, mas um depoimento que me emocionou, de Thaíse Gurgel, do blogue Chocolate com Letra:
“Depois de meses sem concluir uma leitura, resolvi tomar uma atitude e destinar ao menos 30 minutos diários para leitura. E olha que bacana, consegui chegar à conclusão de um livro incrível.
Nem tudo cabe na paisagem é um livro do escritor Amâncio Siqueira nascido em Afogados e residente em Garanhuns. Onde o autor reuniu diversos contos que causam desde nostalgia a alegria.
Particularmente, tive  uma experiência familiar que jamais havia tido em outra leitura antes. Amâncio frequentemente escreveu e cita em sua obra Garanhuns e foi bom me encontrar no local que o livro descrevia, ter noção dos lugares e revisitá-los em cada momento.
E um pouco mais pessoal, porém, acho importante falar, “Cada perda é um pedaço de mim que vai morrendo aos poucos. As memórias são imagens estáticas que vão desbotando, lembranças fugidias de coisas que nunca poderei resgatar”, perdi meu irmão mais velho de uma forma a qual jamais haverá covardia proporcional em toda minha vida, disso tenho certeza. Ele foi assassinado, e essa dor foi descrita de uma forma tão inocente e precisa nesse trecho do livro. Me tocou de uma forma tão profunda, justificou minha dor e tornou mais palpável!
Que leitura graciosa, que livro com gostinho de interior… que momento!”
Estética vem de aisthesis, “faculdade de sentir”, e minha estética é voltada para isso, para que o leitor sinta. É ótimo quando leitores demonstram que foram atingidos de alguma forma por minhas palavras.

O que cabe nas paisagens de Amâncio Siqueira?

Mais uma resenha de Nem Tudo cabe na Paisagem, dessa vez do Germano Xavier, prolífico criador de O Equador das Coisas, que tem atualizações quase diárias:

Um homem encaixota-se por inteiro. Fiquei fitando a capa por um certo e também desregulado tempo. Belíssima imagem. Só pela capa já valeria o livro, já valeria possuir o livro. Trabalho sensacional da Cepe Editora, como já é de praxe por lá. Encaixotado, aquele homem parte para seu destino incerto sem saber se aguentará suportar o peso de suas caixas todas penduradas pelo corpo. O mundo é uma surpresa. O corpo parece até suportar o peso e o possível medo do caminho, mas o caminhar é lento, talvez certeiro, talvez decidido. O suportar parece até ganhar corpo, mas é um ganhar trôpego, como que sem a totalidade do vigor vital. A alma, no fundo, se engrandece e vai, porque acredita. E segue. O homem segue. O homem que é, essencialmente, realidade e sonho. Repito: o homem segue, seco, sem cessar. Passadas firmes, apesar de curtas. Segue como a escrita de Amâncio Siqueira, escritor que se consagrou como sendo um dos vencedores do V Prêmio Pernambuco de Literatura, hoje conhecido por Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura, que tem revelado bons nomes no cenário literário dos quatro cantos pernambucanos. Nem tudo cabe na paisagem, compêndio de contos escritos por Amâncio, é um exemplo da qualidade das letras confeccionadas e difundidas nestas paragens. Aqui, na prezada obra, o leitor se envereda por pequenas viagens e por resolutas descobertas, dentro ou fora das personagens, estando completamente imersos ou não nos cenários. Nada de descobertas magnânimas ou escandalosamente devastadoras, mas descobertas simples, porém pujantes. Tornamo-nos, até, Socó Pombo, uma tal persona a nos remeter a um outro tal de Joe Gold, personagem real contado e recontado pelo grande jornalista norte-americano Joseph Mitchel, ícone do New Journalism, assim como embarcamos em cicatrizes, passados, confissões, vinganças, intrigas familiares e outras incandescências e/ou errâncias mil. Nem tudo cabe na paisagemcabe dentro de uma tarde de leitura, sem grandes embaraços estilístico-estéticos nem dificuldades semânticas de outras ordens. O livro é, com extrema sinceridade, de uma honestidade encorajadora. Pode não ser primaz, mas conquista.

Nem tudo cabe na literatura

Dando seguimento à compilação das resenhas de Nem Tudo cabe na Paisagem, trago a que saiu no Lombada Quadrada:

“Resenhar um livro de contos pode ser bem difícil. Encontrar um linha de pensamento para analisar histórias, lugares e personagens por vezes muito diferentes entre si. Ou, se há ligações internas entre os contos, saber distinguir cada um, para que não trate o conjunto como os capítulos de um romance. Fiquei com sérias dúvidas para falar de Nem tudo cabe na paisagem, livro do pernambucano Amâncio Siqueira, lançado recentemente, em edição caprichada, pela ótima Cepe – Companhia Editora de Pernambuco. A reunião de contos foi uma das cinco obras contempladas pela 5ª edição do Prêmio Pernambucano de Literatura. Dou o crédito logo de cara, porque é preciso reconhecer e incentivar iniciativas como essas. O livro chegou às mãos do Lombada Quadrada por oferta do autor. O que para nós é um reconhecimento do singelo trabalho de resenhas de livros que queremos ler, de que gostamos, sem rigor acadêmico ou compromisso comercial.

Feito o necessário nariz de cera, é do livro que vamos falar. Amâncio é um sertanejo, nascido em Afogados da Ingazeira. Hoje mora em Garanhuns, construída sobre uma serra, onde há frio e umidade. Mas cercada pelo sertão por todos os lados. E o sertão é uma presença constante nos contos. Não um sertão de clichê. Sim, há jagunços, há seca, há fome. Mas também existe um sertão atual, transformado por políticas públicas, alguns anos de desenvolvimento econômico, chegada de faculdades, motocicletas em profusão. Como diz o personagem de Atirei no que vi, acertei no que não vi:

Nosso sertão já não é tão duro, mesmo depois de vários anos de seca. Mudou o humor. Não empurra mais todo mundo pra fora. Parece até que sorri pra quem volta.

Foi a leitura desse conto que me levou à síntese de todo o livro. É um texto poderoso. Um filho leva seu pai de volta à cidade natal. Sabemos que o pai foi vítima de uma fatalidade, entrando em estado terminal. Na estrada, ele vai acertando as contas com um pai, assim como ele, policial, assim como ele, dado a arroubos de valentia. Um pai rígido, duro, com um passado nebuloso, uma história familiar cheia de traições, homens de vida dupla, meio-irmãos espalhados por mais de uma casa, mulheres abandonadas, uma grande chaga do machismo, como já lembrei na resenha do ótimo romance de Carola Saavedra, resenhado aqui.

Essa fala se estende por 39 pequenos capítulos. Ali, toda uma saga, que vai mostrando sutis ligações com alguns dos contos anteriores.  Mas essa longa viagem em direção ao sertão-berço tem só uma voz. É um solilóquio do filho. O pai, ausente, calado, não reage às ofensas, não retruca quando o filho lhe dirige acusações. A cada capítulo, uma nova tensão, para, no fim, a aproximação com a cidade natal gerar uma certa suavidade. E, então, o último texto traz um arremate genial, que não posso descrever, porque o spoiler seria dos grandes.

Nem tudo cabe na paisagemMas Nem tudo cabe na paisagem faz outras viagens. Uma delas, pela literatura. O personagem do último conto afirma que “A vida tem dessas coisas: nem tudo cabe no recorte de um romance”, o que parece também um sinal de Amâncio para a escolha do gênero conto.

A literatura está presente com força em Absinto, o conto que abre o livro. Um pequeno grupo de jovens, um deles mais velho, chamado Socó Pombo e o narrador sedentos de livros, debates, conhecimento. Eis que Socó convence a turma de que era preciso criar um movimento. E surge o “Manifesto do Movimento Lixista”, começando uma aventura literária e etílica,  um daqueles desvarios da juventude, fadados a um quase esquecimento, mas que ficam guardados no canto da memória, como parte da formação de cada um daqueles moleques.

A figura do justiceiro do sertão aparece na impressionante narrativa do conto Bastardo.  Em outro conto, uma breve e ácida história de uma audiência judicial em torno de uma tentativa de assassinato fala de violência, perdão, esquecimento. E de burocracia.

A beleza do amor de um jovem soldado do exército por uma biblioteca, o escândalo de uma não traição, onde se descobre que o tesão, o prazer e o gozo de um casal livre e sem amarras podem incomodar mais do que uma saída às escondidas. Enquanto em outro conto um pastor sai pelas cidades sertanejas pregando até que alicia uma garota, prometendo casamento, levando-a para casa. E lhe apresentando um dilema. Um conto de suspense, que deixa no ar a possibilidade de um crime. Outro fim arrebatador, o que parece ser aliás uma das qualidades de  Amâncio Siqueira. Pois o conto, essa narrativa curta e traiçoeira, exige do autor a qualidade de saber terminar a história e deixar um monte de minhocas na cabeça do leitor.

Por fim, preciso destacar um conto que trata do ofício da escrita. Em Línguas de fogo conhecemos Alessando Caldas, um autor que bebe uísque no quarto onde tem seus livros e sua escrivaninha. Logo de cara, ele nos diz que “é comum ao escritor sofrer uma crise puerperal após a conclusão de uma obra”. E se a obra não for lida, nem mesmo pelos amigos? É isso que acontece com Alessandro, um “profissional do anonimato”, um escritor sem leitor. Com seu cigarro e seu uísque aproxima-se de um desfecho. Mais um encerramento surpreendente, com ares de fantástico e de assombro.

Embora com pegadas absolutamente distintas, não posso deixar de concluir que vi uma ligação entre Nem tudo cabe na paisagem, de Amâncio Siqueira e Quebranto, de André Balaio. Ambos pernambucanos, que publicaram em 2018 excelentes livros de contos que abordam, cada um a seu jeito, o universo do fantástico, do absurdo, do mistério, dos finais que são surpreendentes, muitas vezes uma porrada no estômago. Vida longa ao conto fantástico.”

https://www.lombadaquadrada.com/2018/07/28/nem-tudo-cabe-na-literatura/amp/

Mais uma vez fico feliz pela multiplicidade de interpretações que o livro suscita. Agora Carlos vai além de Sérgio, vendo nos contos algo de fantástico que se mantém em todo o livro.